No LANCE! de hoje



TERRITÓRIOS

O Corinthians está se tornando um paradigma de trabalho de campo bem feito apesar das influências da diretoria. A temporada de 2015 foi um caso clássico: Tite teve de montar seu time duas vezes, antes e depois dos problemas financeiros que contaminaram a campanha na Copa Libertadores, e encerrou o ano com o título brasileiro à base de um futebol mais vistoso do que no primeiro semestre. Dois mil e dezesseis se encaminha de forma semelhante, com os agravantes do desmanche devastador e de uma conduta ainda mais danosa de quem responde – ou apenas faz figuração – pela administração do clube.

É difícil encontrar dirigentes, em todos os níveis, que estejam à altura da importância e das necessidades dos clubes brasileiros. Dos novos mecenas aos velhos caciques, passando pelos políticos de carreira no esporte e pelos pretensos executivos do futebol, o que se nota são práticas semelhantes em estruturas viciadas. São figuras que confundem paixão com vaidade, gestão com oportunidade, e ignoram a relevância das posições que ocupam. Alguns têm a pouca vergonha de falar em sacrifício pessoal, como se fossem mártires obrigados a trocar a vida pelo fardo de representar instituições centenárias. Enganam apenas as cheerleaders de cartolas, numerosas e barulhentas, porém incapazes de visão crítica.

De 2008 até o ano passado, as pessoas que comandaram o Corinthians tiveram, de modo geral, a sabedoria de permitir que treinadores trabalhassem com níveis razoáveis de tranquilidade. Mano Menezes, Adílson Batista (por apenas três meses), Tite, novamente Mano e Tite foram beneficiários do espírito “quem não atrapalha já ajuda”, e, também por isso, o clube atravessa um período de incomparável sucesso esportivo. Os eventos da semana passada indicam uma mudança de comportamento, realçada pelo personalismo evidente nas declarações de Roberto de Andrade após a vitória sobre a Ponte Preta. Ao falar sobre a reunião de torcedores profissionais com alguns jogadores, o presidente do Corinthians soou como um cartola que se imagina dono do clube.

O mais grave, claro, não é o que Andrade disse, mas o que fez. Autorizar a usurpação do ambiente de trabalho do time sem perguntar a opinião da comissão técnica é o tipo de atitude que, além de não gerar nenhum benefício coletivo, aliena quem efetivamente defende o Corinthians a cada rodada. Causar um incômodo dessa natureza a um técnico como Tite é o último dos problemas que Andrade deveria desejar. A possibilidade de uma temporada positiva depende das condições para que Tite e sua comissão construam o time uma vez mais, o que não acontecerá sem o respeito ao trabalho que fazem.

A ironia é que a infeliz decisão de Roberto de Andrade se deu no exato momento em que uma nova formação mostra sinais promissores, com Giovanni Augusto, Guilherme e Marquinhos Gabriel à frente de dois meiocampistas defensivos. O sistema é diferente do de 2015, mas a intenção de reunir a maior quantidade de jogadores tecnicamente privilegiados é a mesma. Os gols marcados – e desperdiçados – na vitória sobre o Sport foram produtos dessa ideia. Para desespero dos especialistas de Twitter, times de futebol não vêem a luz ao toque de um interruptor, e é vergonhoso que a atual comissão técnica do Corinthians seja cobrada como se não soubesse o que está fazendo.

Haverá quem diga que o bom desempenho recente é fruto da conversa com os abnegados defensores da instituição, uma prova da eficácia do clima “por amor ou por terror”. É precisamente o pensamento neandertal que ainda encontra abrigo nos gabinetes ocupados por quem se julga competente, mas não consegue cumprir obrigações sem esse tipo de colaboração. Roberto de Andrade se arrisca a corroer o que melhor funciona no Corinthians: o time dirigido por Tite, não por ele.

(publicada em 30/5/2016, no LANCE!)



  • Joao Henrique Levada

    André, me permita (e me desculpe) um desabafo.

    Estava a assistir um programa esportivo da Rede Globo e o apresentador teve a capacidade de dizer que Tite ia mudar a equipe, pois estava atento aos pedidos da torcida.

    Isso é de uma irresponsabilidade enorme. O dirigente não ajuda e encontra grandes sócios na mídia pra implantar descalabros administrativos.

    Com o enorme alcance que o programa tem, eu ficaria envergonhado de prestar este desserviço ao futebol.

  • Rafael Masselli

    Belo texto, André Kfouri.
    Concordo plenamente que o sr. presidente Andrade se ache maior que a instituição.
    – Certo momento em 2015, ele afirmou que a Democracia Corintiana não significava nada.
    – Ele teve a audácia de levantar o caneco do BR-2015 antes dos capitão do time.
    – Ele acredita estar certo ao convidar torcidas organizadas para pressionar os jogadores…. e o pior, diz que é cultura do clube com a maior naturalidade!

    Francamente eu, como torcedor corintiano, sinto NOJO de um presidente assim. Como podem permitir isso no clube!?

  • g-stimao

    Parabéns André, pela clareza ao expor teu ponto de vista, com o qual concordo plenamente. O Roberto de Andrade quando surgiu como diretor de futebol do Corínthians, parecía ser uma pessoa esclarecida, com idéias e conceitos novos para a gestäo esportiva de clubes de futebol. A realidade, porém é totalmente diferente do que aparentava naquela época. Sua decisäo de abrir o clube à torcedores com histórico de violência contra jogadores e outros profissionais em tempos recentes, sem levar em conta o que comissäo técnica e jogadores pensavam sobre o assunto, contraria tudo o que é razoável e de bom senso, em administraçäo, além de mostrar o lado incompetente, omisso e covarde desse senhor que toma decisöes como se fosse o dono do clube.

  • Carlos Ferreira

    O Roberto de Andrade quer falar grosso com a comissão técnica, mas afina com a organizada? Por quê ele não explica as multas irrisórias que permitiram o desmanche da equipe campeã brasileira do ano passado? Ou por quê o Edilson, um lateral ruim de dar dó, foi jogador do Timão vendido ao Grêmio, e só 30% do negócio foi revertido aos cofres corintianos? O clube paga os salários, dá a estrutura, assumindo todos os riscos e na hora da negociação é o que menos ganha. Ou que explique contratações imbecis como a do André, que até a minha avó sabia que não daria certo… Roberto de Andrade é pau mandado do Andres Sanchez. Todos sabem que o Andres precisa da Gaviões para se manter deputado federal. Então ele manda o Andrade baixar as saias para a organizada e, agora, para se auto-afirmar, vem dizer que é ele quem manda no clube? Conta outra presidente, rs, rs…

  • Blas M. Sanchez

    Ótimo texto André , se me permite frequento a Arena desde a sua fundação . Acho muito positivo jornalistas como você retratarem como neste texto opinião de alguns eu acredito da maioria dos torcedores do Corinthians . Tenho certeza de que meia dúzia de marginais não podem falar pelos verdadeiros torcedores . Com relação ao Roberto acho um grande administrador , tem colocado a casa em ordem no que diz respeito a finanças , diga-se de passagem o Dr Mário quase nos faliu , mas nesse assunto de torcida organizada ele se equivocou. Cadeia para esses marginais traficantes .

  • Carlos Oliveira

    Faço as suas palavras as minhas e acrescento que lugar de torcedor é na arquibancada e de torcida organizada na prisão. Os Clubes não podem ser reféns de grupos organizados de bandidos travestidos de torcedores.

  • Naco SP

    Fantoche das organizadas e b_nda mole ! Ainda bem que o Tite está lá pra contornar a situação.

  • Ale Silva

    Boa tarde André, mas há alguns elementos no momento atual que não podemos deixar de levar em conta. A torcida do Corinthians sempre gritou o tempo todo o nome do Corinthians, não vaiamos nenhum jogador e nem o time durante os 90 minutos. Tudo isso é uma prática das torcidas organizadas que sempre foram referências nas arquibancadas. No novo estádio é o inverso, gritos homofóbicos contra o goleiro adversário (coisa que não acontecia) pois o que nos importa torcer pelo Corinthians e não contra o adversário (parece óbvio mas não). O Tite deu declarações sobre isso, a paciência da torcida não organizada, esta classe média de valores pequenos burgueses, que tem o futebol como produto de consumo é que esta causando problemas. Eles é que estão fazendo cobranças ridículas dentro de um processo bom que o Corinthians dentro de campo vem tendo. O alvo não são as torcidas organizadas agora e fico pensando se eles não foram conversar e o Tite não solicitou o apoio e provavelmente disse sobre o seu estranhamento. Eu tenho tido vergonha da torcida quando faz gritos homofóbicos ao adversário na intenção de agredi-lo. É duplamente um erro. Espero que na conversa os torcedores organizados tenham se comprometido a apoiar os 90 minutos e contribuir com a educação destes que agora vão no estádio e não tem a dimensão do que é o Corinthians. O time do povo. E Campeão ou não, tu és minha paixão. Estes gritos não são de graça. fazem parte de uma bonita história e espero que estes sentimentos voltem ao estádio. Futebol não pode ser mercadoria.

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