No LANCE! de hoje



MISSÃO BRANCA

A decisão europeia de hoje, em Milão, pode revelar um convite cínico do Real Madrid a seu rival municipal. A final da Liga dos Campeões da Uefa se tornará ainda mais interessante se o time de Zidane instigar o Atlético de Madrid a jogar, cedendo a bola a um adversário que prefere competir sem ela. Tudo leva a crer que o encontro terá trechos em que o decacampeão europeu investirá no contragolpe para vencer o clássico.

É assim que Simeone espera o Real Madrid. O técnico do Atlético se baseia no comportamento do time branco nos dois jogos das semifinais, contra o Manchester City, e na postura do Madrid em sua última visita ao Camp Nou, quando Bale e Ronaldo foram vistos em posições recuadas no meio de campo. Zidane não conferiu uma identidade clara à sua equipe, mas é evidente que os jogadores se sentem cômodos quando defendem em um bloco mais baixo e exploram o espaço com os atacantes de velocidade.

Casemiro é a chave para essa maneira de atuar. O meiocampista brasileiro oferece equilíbrio defensivo a seu setor com posicionamento e distribuição rápida após a recuperação, com o bônus do passe longo, vital para o jogo reativo. O ex-são-paulino ainda alivia a carga de trabalho de Kroos e Modric, liberando-os para tramar. Sem Casemiro como eixo, o Real Madrid é um time em dúvida quanto à própria finalidade, que se limita a esperar pelas indicações do jogo ao invés de tentar determiná-las.

O problema do Real Madrid contragolpeador é o conflito provocado pelo próprio talento. Isolando o potencial nato de cada jogador dos dois finalistas, é lógico afirmar que o favoritismo pende para o lado branco da decisão madrilenha. Não por acaso, o Real Madrid é o time mais caro da Europa, com uma cota de 32,2 milhões de euros por jogador. O Atlético está bem distante, com 8,8 milhões, em décimo-terceiro lugar na lista das formações mais luxuosas do continente. O desequilíbrio de orçamento estimula a equipe mais valorizada a tomar as iniciativas, o que daria ao encontro os contornos preferidos por Simeone.

Talvez por isso o técnico e os jogadores do Atlético insistam que também sabem levar o jogo ao campo do oponente e estão preparados para fazê-lo neste sábado, em San Siro. Pode ser uma carta estratégica para induzir o Real Madrid a surpreendê-los, um truque antigo do futebol das salas de entrevistas. Após a esquizofrenia de Mourinho, a sabedoria de Ancelotti e a burocracia de Benítez, Zidane conduz o elenco dando autonomia aos jogadores, o que cobra um preço no aspecto coletivo. Como equipe, o Atlético é superior, um produto finalizado do futebol defensivo que se alimenta da posse do rival.

Dois anos atrás, em Lisboa, o Atlético fez um gol e tratou de sofrer, como gosta. O heroísmo de Sergio Ramos escreveu um final diferente e alterou o rumo do troféu. Se dependesse do próprio desejo, Simeone repetiria o padrão de atuação de seu time sem temores, pois ninguém pode apostar sempre em uma bola parada salvadora nos últimos segundos. O desafio de hoje é do Real Madrid.

FRACOS

Em uma das entrevistas mais deprimentes de um dirigente esportivo brasileiro nos últimos tempos – e a concorrência é pesada neste campo – o presidente do Corinthians, Roberto de Andrade, justificou sua autorização à dura de “torcedores” organizados em jogadores com uma pérola: “a torcida faz parte do futebol”. No dia seguinte à agressão de um jogador do Flamengo em um jogo de basquete do clube, a diretoria rubro-negra recebeu organizados para uma “reunião”. É assim que a cartolagem nacional quer ser percebida como gestores capazes, expondo jogadores profissionais de futebol ao constrangimento de ser cobrados, dentro do ambiente de trabalho, por desocupados que pretendem ser influentes. E de fato conseguem, pois aqueles que deveriam estabelecer os devidos territórios e fronteiras sempre encontram explicações para a própria falta de firmeza.

(publicada em 28/5/2016, no LANCE!)



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