Coluna Dominical



ERRO FATAL

O futebol brasileiro já teve um técnico demitido antes da segunda rodada de seu principal campeonato. Claro, as razões da saída de Diego Aguirre do Atlético Mineiro não têm nada a ver com o BR-16, mas a troca de comando e o início de um trabalho com a competição em andamento obviamente cobrarão um preço. Pode dar certo, é jogo, mas será casual. As temporadas passam e a exigência do resultado imediato mantém o moedor de treinadores ligado sem descanso.

Qualquer pessoa que entenda que um total de vinte e nove partidas é suficiente para julgar uma equipe de futebol não sabe o que diz. É um caso clássico de ignorância da ignorância, o mais absoluto desconhecimento do assunto. Não se discute que, em cinco meses, o Atlético de Aguirre teve desempenho irregular e resultados frustrantes, mas daí a justificar a interrupção da formação do time, com um campeonato inteiro por disputar, é mais um exemplo de gestão de arquibancada aplicada ao futebol de elite. É assim que o andar de cima acha que exerce o profissionalismo.

A devolução de Aguirre ao mercado está baseada no “conceito” de que o elenco do Atlético já deveria ter produzido colheitas melhores, conforme declarou o presidente Daniel Nepomuceno no dia seguinte à eliminação na Copa Libertadores. O raciocínio ignora que a diferença entre a queda e as semifinais provavelmente foi uma falha de Victor em uma cobrança de escanteio, o que evidencia, uma vez mais, o potencial devastador do resultadismo cego. Alguém dirá que o treinador uruguaio saiu porque quis, como se estivesse de acordo com o próprio fracasso. E assim o carrossel segue em movimento.

Não é verdade que o Atlético perdeu para um time tecnicamente inferior. O São Paulo fez duas atuações mais eficientes – nas quais foi absoluto no aspecto mental, tão importante quanto qualquer outro – e um decisivo gol qualificado. O confronto de quartas de final foi o encontro de um time turbinado por convicções com uma equipe atormentada por dúvidas. Mesmo assim, o equilíbrio foi notável e a classificação de um ou outro teria sido justa. A quinta-feira deveria ter sido o dia para reafirmar a crença no trabalho e no planejamento de uma – ao menos uma – temporada que ainda não está na metade. O dia para dar a Aguirre o suporte que ele jamais teve.

Mas as práticas amadoras, poderosas, garantem a sequência do teatro do futebol brasileiro: o público faz uma projeção com base no que deseja, e quando deseja; a crítica frequentemente alimenta ideias equivocadas, por falta de conhecimento; e o técnico tem de obedecer. Como o jogo funciona de outra forma, Aguirre antecipou o destino inevitável. Uma história semelhante aconteceu no Internacional no ano passado, embora Aguirre tivesse conquistado o campeonato estadual e sobrevivido até agosto. O infame “fato novo” evocado por Vitorio Piffero gerou um 0 x 5 no Gre-Nal e um quinto lugar no Campeonato Brasileiro. Lições? Nada. O método “desligar e reinicializar” é irresistivelmente tentador, ainda que o defeito no sistema operacional seja grave.

SOFRENDO

A principal influência de Edgardo Bauza no São Paulo não é de jogo, mas de mentalidade. O técnico argentino fez um time brasileiro, historicamente associado ao futebol vistoso, aprender e gostar de sofrer em campo. Em um torneio como a Libertadores, está claro que essa postura ajuda a seguir adiante.

VENCENDO

Épica virada do Atlético Nacional sobre o Rosario Central, no encontro dos dois melhores times da Libertadores. Os minutos se esgotavam e os colombianos trocavam passes no campo de ataque, afobação zero, até o gol da classificação às semifinais, nos acréscimos. O adversário do São Paulo por um lugar na decisão é uma imponente combinação de técnica e força.

PEGANDO

Na classificação do Boca Juniors, uma exibição de como pegar pênaltis, cortesia do goleiro Orión. Até esperar uma cobrança no meio do gol ele esperou.

(publicada em 21/5/2016, no LANCE!)



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