Errando



Eis o que Dunga disse em setembro de 2014, ao comentar a troca do capitão da Seleção Brasileira:

“Apesar da pouca idade, Neymar é experiente e tem uma boa postura, sempre agregando o grupo”.

À época, o tema gerou repercussão extra porque o usuário da faixa, Thiago Silva, não foi comunicado da decisão. É importante lembrar disso pois a possibilidade de Neymar deixar de ser o capitão, como ficou evidente na participação do técnico da Seleção na edição de ontem do Bem Amigos, no SporTV, evidencia o erro cometido após a Copa do Mundo. 

E é um erro ainda mais difícil de compreender tendo em vista que o autor usou a faixa de capitão por tanto tempo. 

Dunga foi um líder em campo, não há como contestar. Entre tantos aspectos relacionados à imagem de um capitão, não há nenhum em que sua figura não se encaixava: representação de um grupo de jogadores, personificação da influência sobre os companheiros, respeito conquistado, não imposto. 

Em qual dessas áreas é possível enxergar Neymar?

Exato, nenhuma. 

A explicação para a escolha aumenta o nível de equívoco. Refletindo sobre os motivos da eleição do craque do Barcelona para o posto, Dunga disse o seguinte, ontem:

“Achei (inicialmente) que a questão da faixa daria uma maior segurança para ele – maior visibilidade não, porque ele já tem -, se sentiria perante os demais um personagem que é importante pela qualidade técnica dele (…)”.

A liderança técnica de Neymar é indiscutível. O único jogador brasileiro na atualidade que pode ser qualificado como “fora de série” é, como se sabe, um dos melhores atacantes do mundo. Parece claro que Neymar sempre teve noção da própria qualidade e da própria importância para a Seleção. O que a faixa de capitão altera nesse aspecto?

E mesmo que Neymar precisasse de um afago para se sentir “mais seguro”, faz sentido torná-lo capitão por isso? A presença de um capitão é uma questão pessoal ou coletiva?

Neymar não é um líder, provavelmente nunca será. O que se deu na última edição da Copa América é uma amostra suficiente. Sua conversão em capitão parece ter sido uma decisão tomada pelos motivos errados, entre os quais provavelmente está o banimento – mal explicado até hoje – de Thiago Silva. 

Mas isso não é o mais preocupante. Também durante o Bem Amigos, Dunga foi capaz de retornar à idade de Neymar (mencionada em 2014 como um não-fator) para justificar a reavaliação da situação:

“A gente tem que entender que Neymar tem 22 anos. Ele tem uma responsabilidade em que as pessoas esperam que vá resolver sozinho, mas ninguém resolve sozinho”.

Detalhe: Neymar tem 24 anos. 

Quanto à expectativa de que ele “resolva sozinho”, aí está o cerne do problema. Um problema de jogo. Neymar foi colocado na posição de salvador pela mais absoluta ausência de sentido coletivo na Seleção Brasileira. Enquanto não houver uma equipe na qual ele possa ser o jogador decisivo, Neymar estará sobrecarregado em todos os aspectos. Ainda mais como capitão. 

Tirar a faixa de seu braço não resolverá o dilema de jogo do Brasil. O maior equívoco de todos é a criação de mais uma história relacionada a esse assunto, como se ela tivesse algum impacto no que é mais importante. 

Neymar é um capitão sem time. 



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