No LANCE! de hoje



À PROVA DE MILAGRES

O maior feito do Leicester de 2015-16 foi romper a relação entre folha salarial e desempenho na liga mais rica do mundo. A parceria do dinheiro com a qualidade é uma verdade (quase) inabalável do futebol, especialmente nos campeonatos em pontos corridos, mais protegidos das ameaças do acaso e da balança da sorte. Ainda que uma temporada “milagrosa” não seja exemplo, a história da última edição do Campeonato Inglês pode estar sendo utilizada, neste momento, para estimular a ambição de competir com pouco. Em tese, uma competição nivelada como o Brasileirão deveria ser propícia para o surgimento de um pequeno intrometido. Mas a prática tem outros planos.

Mais do que a dificuldade de prever quem ocupará as primeiras e as últimas posições de um campeonato que começa em maio e termina em dezembro (já seria uma tarefa inglória se os elencos fossem mantidos durante todo o período e a Seleção Brasileira não entrasse em conflito com os clubes), a marca do Brasileirão é a diversidade de ambientes de disputa. Fatores como as características dos estádios, o estado dos gramados e os deslocamentos longos submetem equipes a condições de jogo que variam muito de rodada a rodada. A preparação para cada partida é afetada por tais aspectos, forçando adaptações constantes e exigindo dos clubes que pensam alto o desenvolvimento de personalidades distintas.

Antes de deixar o Cruzeiro para trabalhar no futebol chinês, Mano Menezes falava sobre um traço peculiar do principal campeonato do país: há lugares em que, por mais elaborado que seja o estilo de jogo de um time, é contraproducente tentar vencer com as mesmas ideias usadas em casa ou nos chamados estádios “neutros”, ou seja, onde o aspecto técnico sofre menos influência. O time local marca no campo de ataque, o gramado não favorece o jogo associado, erros não são perdoados. A solução é ser competitivo com futebol direto e luta pela segunda bola na intermediária do oponente, situação que não se encontra em outros campeonatos onde o futebol é importante como no Brasil. Mano se referia à Arena Condá, casa da Chapecoense, mas o cenário é comum no mapa do Campeonato Brasileiro.

Outra característica do Brasileirão é a quantidade de ocasiões em que um time enfrenta um igual, isto é, um adversário com quem compartilha objetivos. Trata-se de uma competição com poucas castas. Tomemos, como exemplo, o que se dá com as equipes normalmente favoritas em ligas europeias: na Espanha, um candidato ao troféu faz quatro confrontos diretos por temporada; na Alemanha, dois; na Inglaterra, oito. No Brasil, é razoável dizer que um time que inicia o campeonato pensando em título faz algo como quatorze jogos contra adversários que têm a mesma pretensão. As chances de cada um obviamente sofrem alterações no percurso, mas a postura, não. Pode-se pintar um quadro semelhante pensando nos times (oito?) que estipulam como meta a permanência na Série A. Não há área de descanso nesta viagem de oito meses.

Será interessante observar que tipo de futebol se estabelecerá no BR-16. Até agora, o campeonato foi influenciado pelo campo de força da última Copa do Mundo, com a procura do bom jogo por intermédio da superioridade técnica. Mas a coroação do Leicester na Inglaterra e o sucesso do Atlético de Madrid na Liga dos Campeões da Uefa contra Barcelona e Bayern, os dois principais expoentes do futebol elaborado, podem estimular outra prática. O jogo costuma obedecer a ciclos aos quais só os clubes convictos de suas filosofias podem resistir. Em ambientes como o Brasileirão, onde as filosofias são raras e as convicções flutuam, antigas tendências podem voltar à moda. Até dezembro, é seguro fazer apenas uma aposta: independentemente dos conceitos, o campeão estará entre os que mais investiram. Milagres teriam outro nome se acontecessem com frequência.

(publicada em 16/5/2016, no LANCE!)



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