Coluna Dominical



COMPETIDORES

O encontro entre São Paulo e Atlético Mineiro foi universalmente rotulado como uma exibição de futebol “ruim”, ou “feio”, dependendo da análise. A forma como qualificamos o que não nos agrada costuma obedecer a modelos pessoais que tendem a ignorar os objetivos dos que estão diretamente envolvidos, como se nossa aprovação estivesse em destaque na escala de prioridades de técnicos e jogadores. Não está. E para dificultar as coisas, termos como os mencionados acima podem sugerir sensações semelhantes, mas o jogo não os compreende assim.

O bonito e o feio dependem das preferências de cada um e, metáfora da vida, o futebol oferece um amplo leque de aparências a escolher. A estética, como fim, não faz parte da ideia de jogo de nenhum treinador, independentemente dos adjetivos usados para descrever estilos. A beleza não é um produto do que enxergamos, mas do que queremos enxergar, e tem pouca relação com o que é bom ou ruim. A qualidade do jogo é menos uma questão de ideias do que de sua execução, ponto de partida para qualquer leitura que se aproxime da realidade: o balanço entre o desempenho de um time e suas intenções.

A execução pode ser ruim mesmo com um plano de dominar a posse, marcar no campo do oponente e manter a bola distante da própria área. A execução pode ser boa com linhas recuadas, pouca elaboração e insistência em jogadas de bola parada. O mau futebol está em conceitos mal aplicados ou em propostas que subutilizem os jogadores disponíveis, críticas que não cabem ao jogo da última quarta-feira. O principal objetivo dos dois times era minimizar riscos e maximizar oportunidades, um dos motivos que explicam a posse praticamente dividida (49, 9% x 50,1%, de acordo com a Footstats) e o baixo número de finalizações certas (2 x 1). O que causou, sim, péssima impressão foi o mau comportamento dos dois times, vítimas de complexo de macho-alfa.

É interessante que Edgardo Bauza e Diego Aguirre tenham se manifestado de maneira elogiosa a respeito de suas equipes após o jogo. Houve quem tenha se consumido em desgosto ao ouvir ambos os treinadores falarem sobre uma partida que só eles teriam visto. Houve também quem duvidasse da sinceridade deles. Estratégias de comunicação à parte – não é producente que um técnico critique seu próprio time na metade de uma eliminatória em dois jogos, momento no qual a preparação para a partida de volta já se iniciou – Bauza e Aguirre nos apresentaram opiniões objetivas, baseadas no que foi estabelecido como meta para a noite no Morumbi: chegar ao Independência em condições equilibradas, sem que fosse necessário alterar drasticamente a forma de atuar. A regra do gol qualificado é responsável pelo mandamento “não permitirás que o confronto seja decidido no jogo de ida”, uma ideia compartilhada pelos dois times e uma discussão que fica para outro dia.

Por serem produtos inacabados, São Paulo e Atlético Mineiro esforçam-se em competir, o que é diferente de jogar. Além dos perfis dos times dirigidos por Bauza e Aguirre, o encontro nas quartas de final da Copa Libertadores enfatiza o instinto de sobrevivência e o aspecto pragmático do “futebol de nocaute”. O caráter decisivo do jogo em Belo Horizonte contribuirá para intensificar o que se viu no Morumbi, embora o time de Aguirre seja forçado a fazer as coisas acontecerem. Em um andamento normal, é razoável imaginar que a decisão passará pela reação do São Paulo ao sofrer o primeiro gol. Por outro lado, Bauza certamente está convicto de que pode repetir o que fez em casa e não tem absolutamente nenhuma razão para se arriscar.

O feio e o bonito seguirão sendo questão de gosto. O bom e o ruim, questão de execução. A diferença crucial em relação ao primeiro jogo é que não haverá um terceiro, o que impõe intenções diferentes.

(publicada em 14/5/2016, no LANCE!)



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