Coluna Dominical



EFIALTES

No início de março, uma coluna publicada neste espaço relacionou a postura do Flamengo diante da FERJ/CBF à história do detetive interpretado por Ethan Hawke no filme “Dia de Treinamento”. A liderança – como mandatário do clube de maior representatividade no país – do movimento da Primeira Liga conferiu a Eduardo Bandeira de Mello um importante posicionamento de defesa dos clubes, controlados pelos cartórios do futebol de forma semelhante à que vemos na política.

Duas semanas depois da publicação, para legítima surpresa do colunista, o presidente do Flamengo expressou gratidão pelo texto, em encontro durante um evento da Editora Grande Área no Museu do Futebol, em São Paulo. Não era necessário. Louvar demonstrações de coragem que propiciam o avanço do futebol no Brasil não é mais do que a obrigação de quem ocupa a contracapa deste diário, embora o risco de arrependimento seja considerável. Ao ver Bandeira de Mello aceitar representar a CBF na próxima edição da Copa América, conclui-se que teria sido melhor escrever sobre outro personagem. Efialtes, talvez.

Uma rápida busca por nomes que já se prestaram ao cargo ornamental de chefe de delegação da Seleção Brasileira resultará em figuras junto às quais Bandeira de Mello se sentiria desconfortável. Ao menos essa era a impressão até dois dias atrás. De cabeça: Mustafá Contursi, Marco Polo Del Nero, Gustavo Feijó… gente de quem o presidente do Flamengo deveria se distanciar, tanto na forma de enxergar o futebol quanto pessoalmente. Evocando a educação que o caracteriza, o dirigente rubro-negro entende que seria indelicado recusar o convite, provavelmente sem se dar conta do tamanho da indelicadeza que comete com as posições que externou (cabe a pergunta, agora: são sinceras?) e com as de quem o acompanha na tentativa de modernizar o futebol brasileiro.

Os cartolas nacionais precisam decidir de que lado estão. Do contrário, seguirão protagonizando cenas constrangedoras, como fez Modesto Roma Júnior, na festa de lançamento do Campeonato Brasileiro de 2016. Horas depois de ver a convocação da Seleção Brasileira desossar seu time, o presidente do Santos criticou a CBF por só “pensar dentro da concha” (sic), na mais inverossímil das exibições de indignação de um dirigente nos tempos recentes. Roma Júnior, convém lembrar, estava presente à reunião em que os clubes paulistas decidiram apoiar a candidatura do coronel Nunes ao cargo de vice-presidente da CBF, atendendo ao desejo do Marco Polo que não viaja. Bradar em nome da autonomia dos clubes, agora, é uma falta de vergonha que banaliza a desfaçatez.

A não ser que Roma Júnior pense como Bandeira de Mello e acredite que as palavras e as atitudes não precisam ser coerentes. Que é bonito ser cordeiro nas salas de reuniões e posar de progressista diante das câmeras. Neste caso, é preferível que assumam suas fraquezas e se alinhem ao que lhes beneficia, mesmo que seja errado. Assim identificamos com quem estamos lidando. Efialtes ao menos se arrependeu.

CONVICÇÕES

Ninguém tem a última palavra no futebol. Este é um jogo em que se pode vencer com ideias modernas e execução correta, com ideias antigas e execução certa, e até, com a benção da sorte, com ideias obsoletas e execução defeituosa. A cultura do resultado e da insatisfação permanente não se preocupa com o processo, só com o final. Analisa o jogo no sentido contrário e glorifica os vencedores momentâneos, que serão os perdedores de amanhã, e assim seguimos. Para quem tem convicção do trabalho que realiza, é nas horas difíceis que elas são mais importantes. Tite e Roger Machado certamente sabem disso.

QUESTÕES

A quem Dunga se refere quando diz “Se eu chamo, reclama. Se eu não chamo, reclama também”? Aos clubes? Há clubes que reclamam quando seus jogadores não são convocados? Os que reclamam quando seus jogadores são convocados estão fazendo apenas jogo de cena?

(publicada em 7/5/2016, no LANCE!)



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