No LANCE! de hoje



DISTINTO

Não faz sentido estabelecer relações entre o Audax e outros times pequenos que se infiltraram em decisões de campeonatos estaduais, ameaçando a hegemonia dos clubes de longa tradição. Mesmo aqueles que furaram o bloqueio e conseguiram tocar o troféu que habitualmente vai para as galerias dos grandes, seja no Campeonato Paulista ou nos torneios de outros estados. Independentemente do que aconteça no próximo domingo, na Vila Belmiro, o time de Osasco permanecerá sem companhia no que representa em termos de jogo. O Audax é diferente.

Nos centros em que dois clubes repartem as atenções, os orçamentos e as conquistas, a aparição de um intruso é menos improvável; basta que um dos candidatos não esteja à altura do que se espera, como se deu neste ano no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, com quatro forças dominantes, é muito mais difícil ser Davi. É preciso voltar ao ano de 1966 para encontrar o último campeão carioca (Bangu) que não seja um dos suspeitos usuais. No Campeonato Paulista, o roteiro inicial sofreu alteração na história recente (três títulos conquistados por pequenos desde o ano 2000) porque o interior tem estrutura para competir e as fórmulas de disputa favorecem o inesperado. Mas nada se compara ao Audax.

Na era em que a disparidade financeira acentua a distância técnica entre os ricos e humildes do futebol, não há outro registro de um time pequeno que tenha cometido a ousadia de construir sua trajetória por intermédio do futebol bem jogado. Descompliquemos as coisas, desde já: bom futebol é o jogo coletivo, ofensivo, baseado em excelência técnica, manutenção e circulação da bola. Quem consegue reunir esses conceitos em um sistema de forma a estabelecer uma maneira própria de se comportar em campo, joga bem. Quem escolhe outras ideias, todas respeitáveis desde que não lancem mão da violência e/ou do antijogo, compete. Seja grande ou pequeno, rico ou humilde. No caso de times de baixo orçamento que se intrometeram nas fases decisivas de torneios estaduais, o Audax é o primeiro a recusar o jeito como se convencionou – pela mais pura falta de ambição – que pequenos devem competir.

Nesse sentido, também não é apropriado incluir o Leicester e o Audax na mesma sentença. Embora seja formidável acompanhar a mágica história do time inglês nesta temporada, uma parte substancial do milagre que pode se materializar hoje (desde que o Tottenham não vença o Chelsea) se deve à incapacidade de todos os favoritos locais. Ademais, o que diferencia o time dirigido pelo italiano Claudio Ranieri da equipe criada por Fernando Diniz é, sobretudo, a escolha do modelo de atuação: o Leicester se comporta como “time pequeno”. As aspas são fruto do trabalho de médio prazo feito pelo técnico do Audax; um time que joga futebol como protagonista diante dos que deveriam ser os principais atores do espetáculo. O empate de ontem em Osasco expôs o esforço defensivo que o Santos precisou fazer para aumentar suas possibilidades de vitória, o que, por si só, evidencia a dinâmica diferente que o Audax apresenta.

Há mais um aspecto que distingue o Audax do que vimos até hoje, algo que só o tempo poderá confirmar. Enquanto os demais pequenos bem sucedidos foram produtores de talento para clubes grandes, é possível que as peças da engrenagem de Diniz não funcionem tão bem em outras situações. A corrida pelos jogadores do Audax já começou, um processo natural e esperado, mas não garantido. O molde de cada um deles decorre das funções necessárias a uma organização coletiva particular, justamente a visão de um técnico que não trabalha do modo convencional. É lógico que são futebolistas capazes, que podem brilhar em equipes que pratiquem outro tipo de futebol, mas o fato de muitos terem sido escolhidos justamente pela rejeição que sofreram indica que o melhor do Audax é seu treinador.

(publicada em 2/5/2016, no LANCE!)



  • Alex L520

    também acho isso…

  • Anna Barros

    Belo trabalho de Fernando Diniz!

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