BAUZA E A SIMPLICIDADE



Edgardo Bauza disse algo intrigante em sua entrevista coletiva, na terça-feira. Os telejornais esportivos da noite exibiram o técnico do São Paulo oferecendo um raciocínio que parecia um lema: “Não me interessa jogar melhor do que o rival. Me interessa ganhar”.

Como filosofia, é uma forma atrasada e insustentável de ver o futebol, uma vez que só o hábito de produzir bom jogo leva à oportunidade de vencer com frequência. Ocorre que não foi isso que Bauza disse. Ou mais precisamente, não foi apenas isso.

Recuperando o vídeo da entrevista, percebe-se o contexto em que o treinador argentino manifestou sua visão: “Estamos nas instâncias decisivas [da Copa Libertadores]… e, nessas instâncias, como já disse outras vezes, não me interessa jogar melhor do que o rival. Me interessa ganhar.”

Uma pausa para respirar após “… outras vezes…” deu aos editores das TVs o ponto preciso para marcar o início da declaração, o que infelizmente terminou por sugerir ao telespectador um pensamento distinto do que Bauza pretendia.

Na resposta, ele comentava o momento do São Paulo antes do jogo contra o Toluca, a ausência de Calleri, a possível ausência de Kardec que geraria a presença de Centurión, a questão no gol… e tentava mostrar que havia algo mais importante do que as dúvidas na escalação ou seus impactos no desempenho do time no primeiro jogo das oitavas de final.

Independentemente das circunstâncias, o São Paulo não poderia se esconder da tarefa que se apresentava. 

O raciocínio de Bauza também evocava as particularidades do “futebol de nocaute”, em que permanecer em pé após dois jogos é um objetivo que pode ser planejado em um cenário completamente diferente do de um campeonato longo. Ele falava em competir. 

A frase fica mais interessante quando confrontada com a atuação do São Paulo nos 4 x 0 sobre o time mexicano, em uma noite na qual o torcedor viu seu time fazer de tudo, e certo, na elaboração do que é correto qualificar como sua melhor exibição em anos, não apenas neste.

É perfeitamente possível derrotar um adversário – melhor ainda se estiver desfalcado, como o Toluca estava – por, digamos, 2 x 0, em casa, com o estádio cheio e um gol de bola parada e outro no contra-ataque, sem necessariamente jogar melhor. 

Bauza já venceu incontáveis vezes com esse expediente. 

O que o São Paulo fez ontem à noite está longe disso. A diferença de gols ajuda a marcar a distância entre ganhar porque o futebol permite e ganhar porque o futebol constrói. Mas o que realmente distingue as situações é como – e o quanto – se joga. 

De volta à mesma sala de imprensa do Morumbi, Bauza foi exemplar ao comentar a vitória como um ponto de partida. Sua simplicidade ao falar sobre o caso de Centurión (que poderia nem ter jogado) como “uma dessas coisas do futebol” nos ajuda a nem sempre buscar explicações para tudo. 

Sua melhor frase no pós-jogo foi sobre “presentear o tocedor com uma partida como essa”, o que é muito mais do que vencer. 

O resultado é como uma passagem de avião. O que nos faz sonhar com a viagem é o jogo. 



  • Gustavo

    Essas manipulações da imprensa devem derrubar muito técnico por aí. Não acho que exista conspiração, mas há uma boa dose de irresponsabilidade. No mais, André Kfouri olhando o futebol com um microscópio.

    • André Kfouri

      Na questão da edição nesse caso, nada mais do que um equívoco. Um abraço.

  • Alex Bourgeois

    Bauza exerce liderança indiscutível. Isso com certeza é um diferencial para jogadores e muito importante num torneio de mata a mata. O problema é que se não houver um esquema tático e uma estratégia bem definida num torneio longo com 38 rodadas como o Brasileirão, e pelo nível dos adversários, me parece que terá muitas dificuldades!

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