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Corinthians e Audax fizeram um jogo exemplar na noite de sábado. Os dois times quiseram ganhar a seu modo, levando para o gramado de Itaquera suas respectivas identidades futebolísticas e produzindo um encontro disputado até o final. O Audax “ousou” ir à casa do campeão brasileiro e discutir a posse (dados da Footstats: 51,8% a 48,2%), equilibrar o número de passes (358 a 331) e, embora com menos finalizações (7 a 6, no alvo), fazer dois gols de rara beleza. Ousou, também, ao ocupar o campo de ataque aos 40 minutos do segundo tempo, quando qualquer outra equipe pequena estaria mais do que saciada com o 2 x 2. O futebol corajoso de Fernando Diniz abriu mais alguns olhos sonolentos.

Mas, por algum motivo, a ascensão de um técnico com ideias desafiadoras e as palmas a uma classificação inesperada não são suficientes. É preciso sucumbir à cultura do consumo instantâneo e, desprezando qualquer rascunho de coerência, manter o movimento dos cavalos no carrossel: alguém tem de estar por baixo, sempre. Como se não fosse possível aplaudir quem merece sem oferecer uma cabeça, mesmo que pareça ilógico. Como se um trabalho só tivesse mérito por intermédio da exposição do demérito de outro, mesmo que seja necessário recorrer à ficção. Ao final de uma decisão por pênaltis, Itaquera é “um problema”, o Corinthians “não está pronto”, Tite já não merece tantos elogios. Eis o poder transformador de um empate em casa com um time de virtudes gritantes. Se o futebol é dinâmico, a análise é efêmera, como um vídeo no Snapchat.

Não é absolutamente natural que um time de quatro meses de vida tenha dificuldades diante de adversários mais fortes e/ou situações de maior pressão? Os jogos contra Santos, Palmeiras e Cerro Porteño (no Paraguai) evidenciaram aspectos em que o Corinthians tem muito trabalho a fazer. Não são necessariamente fraquezas, e não faz sentido mencioná-los como defeitos que já deveriam ter sido corrigidos. O futebol não é assim. No sábado, o Audax – entre outras coisas – preocupou-se em fechar a saída com Fagner pela direita, uma herança do Corinthians de 2015 que times menos preparados não foram capazes de combater. A falta de uma solução imediata e igualmente fluida para esse problema não significa uma derrota tática. O Corinthians jogou, por momentos exatamente como queria, mas não esteve em seu melhor nível. Levando em consideração a própria imaturidade coletiva, o empate não deveria gerar vaticínios.

Mais grave ainda é a crítica resultadista que não interpreta o resultado corretamente, como se nota nas “teses” sobre os encontros com Palmeiras e Audax, em que falhas em pênaltis foram determinantes. Se tanto, Tite deveria estar preocupado com seis cobranças desperdiçadas em nove oportunidades (incluindo a série de sábado), uma tendência perigosa. Mas é evidente que o funcionamento do time é o que ocupa seu tempo, como ele deixou claro na última entrevista antes da semifinal: “O Corinthians não pegou nenhuma decisão ainda. O time não é maduro, é um grupo novo. Maturidade não se pega individualmente. É o conjunto que forma uma equipe experiente”, disse o técnico. Tite também disse, um par de vezes, que seu time já saltou algumas etapas em relação ao que ele esperava, comentário que deve ser lido como a constatação de uma surpresa.

Saibamos valorizar os frutos colhidos pelo método de Fernando Diniz e reconhecer devidamente o significado da campanha do Audax, finalista do Campeonato Paulista. É um trabalho que tem luz própria e todo o direito de almejar o título na decisão contra o Santos. Por outro lado, uma disputa de pênaltis em abril não é ocasião apropriada para cravar verdades sobre um time de futebol ou seu técnico. Itaquera seria “um problema”, o Corinthians estaria “pronto” e Tite mereceria glórias eternas se seu time tivesse vencido nos pênaltis?

(publicada em 25/4/2016, no LANCE!)



  • Maria A Iorio

    Coerência nunca lhe falta. Por isto tem o meu respeito e admiração. Sou Corinthiana mas parabenizo o Audax – que faz jus ao nome. Esse embate será muito importante na evolução do meu time.

  • São os frígidos da bola de nossos tempos, André. Assistem a Corinthians x Audax, e dizem “Tite perdeu” antes de “Diniz ganhou”. Orgulham profundamente os seus antepassados de 54, 74 e 82.

  • RENATO77

    Perfeita análise.
    Sobre a final, arrisco dizer que o SFC resolverá a parada já no jogo de ida. Assim como o SCCP poderia ter feito nos primeiros 45 minutos da semifinal. O Audax fará jus aos que dizem que seu esquema é “suicida”. Individualmente é fraco para jogar nesse sistema. Jogou alguns níveis acima do que pode, tanto contra o SPFC como contra o SCCP.
    Abraço.

  • Gustavo

    Isso tudo sem contar a surra que o Audax aplicou antes no meu SPFC. Eles honram o nome, são audazes mesmo.

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