Coluna Dominical



ZONA DA MORTE

Como ficou evidente na passagem do São Paulo por La Paz, o futebol na altitude é um jogo completamente diferente. Os times visitantes são vítimas das condições a que são expostos e se convertem em versões irreconhecíveis de si mesmos. Há momentos em que jogadores não adaptados se assemelham a bêbados em campo, uma impressão que não está muito distante da realidade.

Mas existem exemplos de expedições bem planejadas e bem sucedidas ao sótão da América, em que times não se prepararam apenas para suportar os desafios fisiológicos e técnicos, mas tomaram providências para derrotá-los. São histórias construídas pela aplicação de conhecimento, pelo treinamento de possibilidades e pelo entendimento de competição. Aspectos que revelam como certos jogos de futebol começam a ser disputados muito antes do primeiro apito. É fascinante.

O Grêmio escreveu uma dessas histórias, quando esteve recentemente em Quito (2.850 metros acima do nível do mar) e venceu a LDU por 3 x 2, assegurando a classificação para as oitavas de final da Copa Libertadores. O processo de aprendizado dos jogadores para ser competitivos na altitude começou ainda em Porto Alegre, com uma sugestão do fisiologista José Leandro: treinar com bolas calibradas com gás hélio. De acordo com o preparador de goleiros Rogério Godoy, bolas nessas condições se tornam ainda “mais rápidas” e assumem um comportamento mais traiçoeiro do que se dá em locais de ar rarefeito. Ao extrapolar a dificuldade real, o treinamento é útil especialmente para goleiros.

No Equador, assim como fez em Toluca de Lerdo (México, 2.667m), o Grêmio praticou exercícios de gesto motor: ênfase em cruzamentos e finalizações de média e longa distância, para ajustar o reconhecimento à velocidade e à trajetória da bola. Além de preparar goleiros, o treinamento no local da partida fornece informações valiosas aos jogadores de linha quanto à maneira correta de bater na bola para obter o resultado esperado, experiência que aumenta em importância a partir do momento em que a estratégia de jogo prevê uma postura reativa: não é possível ser eficiente se há falhas de origem técnica.

O rendimento na derrota no México serviu como parâmetro para o encontro em Quito, para onde o time gaúcho viajou com seis dias de antecedência. Eduardo Cecconi, analista de desempenho do Grêmio, conta que, no ano passado, o time demorou cerca de 47 segundos, em média, para tomar a bola do adversário. Contra o Toluca, precisou de 70 segundos. A recuperação em até 5 segundos (11,5% em 2015, ou seja, pouco mais de uma retomada a cada dez perdas) caiu para 5,45% em Toluca. Na derrota por 2 x 0 na abertura do grupo 6 da Libertadores, o time gaúcho teve 48% de posse, com 440 passes certos, números inferiores aos habituais. Também finalizou pouco e mal: seis no total, só duas no alvo.

A comissão técnica entendeu que uma abordagem diferente elevaria as chances de vitória contra a LDU. O técnico Roger Machado pediu paciência aos jogadores, pois o time abdicaria de seu modelo tradicional e teria de ser extremamente organizado. Na altitude, optou por abrir mão de circulação de bola e pressão, proposta que exigiu sabedoria dos jogadores para sustentar um posicionamento distinto. O time que, no âmbito doméstico, se esforça para ter a bola, precisou lidar com a “abstinência” contra a LDU. Trocou volume por objetividade e precisão. Deu certo.

Defendendo no chamado “bloco baixo”, mais recuado do que o normal, o Grêmio aceitou ficar menos tempo com a bola. O índice de posse foi de 31%, com apenas 228 passes certos, mas o modelo produziu oito finalizações: cinco no alvo, três na rede. A recuperação de bola (67 segundos, 3,9% em cinco segundos) se mostrou semelhante à do jogo contra o Toluca. Apesar da diferença de altitude em relação a La Paz (3,660m), o protocolo do Grêmio reduziu distâncias e tornou possível falar em vitória nesse tipo de ambiente. Não existe futebol sem inteligência.

(publicada em 23/4/2016, no LANCE!)



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