Telê Santana



Não gosto de escrever em primeira pessoa. O risco de aparentar um exercício de autorreferência é suficiente para me impedir, por isso invejo quem tem a capacidade de fazê-lo com simplicidade. Infelizmente são raros.

Mas há situações em que não há como evitar. Ou melhor, há situações em que a primeira pessoa é quase obrigatória, como se verá mais adiante.

Telê Santana foi muito além do que se espera de um técnico de futebol. A palavra “legado”, sequestrada, distorcida e banalizada por políticos do esporte, é necessária quando se fala na obra do ex-jogador e ex-treinador que nos deixou há exatos dez anos.

O legado de Telê é o que o futebol tem de mais precioso: o encanto que nos ata a esse jogo e não nos abandona nunca mais. É como uma revelação ou o dia em que descobrimos um sentimento totalmente novo. Pessoas são responsáveis por esses momentos e Telê foi uma delas.

Nasci em setembro de 1973, portanto tinha oito anos quando a Seleção Brasileira de 1982 se converteu em um paradigma do futebol bem jogado para todo o sempre. Na trajetória do que se convencionou chamar de “jogo bonito” e se entende como futebol de posse, passe e ataque, a contribuição daquele time equivale a um mestrado.

Telê, o mestre, supervisionou a formação futebolística de uma geração que teve a benção de começar a se interessar por futebol naquele pequeno intervalo de tempo. Seu impacto é perene, até para os infelizes que jamais o compreenderão.

Dunga, por exemplo, disse em sua última entrevista que o “ressentimento” causado pelo título mundial de 1994 é um dos motivos de sua rejeição. É triste que ele, logo ele, reduza a conquista da Copa dos Estados Unidos a algo tão insignificante. Primeiro porque o Brasil de 1994 era tecnicamente superior a seus adversários e foi campeão com méritos. E depois porque a maneira como aquele time é lembrado, no que diz respeito ao futebol que praticava, é responsabilidade dele – do time – e não das pessoas. 

Não é uma questão de ressentimento, mas de sentimento.

A mágoa, se existe, está em quem não entende por que a Seleção de 1982, que “não ganhou”, está há mais de três décadas no coração das pessoas pela conexão com um jogo sublime. 

Este é o legado de Telê. Este é o motivo pelo qual ele nunca será esquecido. 

***

Reproduzo um episódio que aconteceu em 1995 e abre uma pequena janela para a personalidade de Telê Santana. É uma história que contei no blog que tive no antigo portal IG, mas não aqui.

O canal de televisão em que trabalho, a ESPN Brasil, iniciava suas operações naquela época, sob o nome de TVA Esportes. Fazíamos um jornal, “30 Minutos”, exibido nas noites de segunda e sexta-feira. Telê, então técnico do São Paulo, era um dos colunistas. 

O acordo com ele era simples: se quiséssemos gravar seu comentário, teríamos de chegar ao CT do São Paulo meia hora antes do treino começar. Era uma condição indiscutível. Só com essa antecedência ele poderia nos receber, sentar-se diante da câmera e nos oferecer alguns minutos de suas opiniões, sem comprometer sua razão de vida: ensinar. 

O treino, a pontualidade e o profissionalismo eram sagrados para Telê. 

Assim como o campo. 

E naquela sexta-feira, não me recordo exatamente por que, chegamos tarde ao CT. 

Olhei para um dos gramados e lá estava ele: chuteira, calção, camiseta e boné, brincando de enrolar o cordão do apito no dedo. Os jogadores se aqueciam para iniciar o trabalho, enquanto Telê caminhava, olhando para o chão, no meio do campo. 

Temendo pelo pior, liguei para a redação. “Se vira, moleque. Precisamos do comentário dele hoje”, disse Roberto Salim, um de meus professores.  

Eu tinha uma entrevista marcada longe dali, não poderia esperar o treino terminar. Mudar o horário até era uma opção, mas precisava ao menos saber se Telê toparia gravar o comentário na sequência. 

Parênteses: aquela época era uma espécie de elo perdido na cobertura dos clubes. Não éramos tantos jornalistas, não havia salas de imprensa ou painéis com as marcas de patrocinadores. Ficávamos à beira do campo, fazendo o possível para não atrapalhar. O início dos alongamentos era o sinal do fim do treino, quando simplesmente entrávamos no campo e abordávamos os entrevistados. 

Acredite: certos jogadores falavam por horas.

No São Paulo, Telê tinha uma regra dourada para repórteres: NÃO. PISE. NO. CAMPO. (enquanto o treino não terminar).

Eu estava a um passo de desrespeitá-la. Era urgente saber se poderíamos esperar, e não havia outra maneira de descobrir. 

Passei por cima da linha, dei dois ou três passos, sentindo-me sobre um campo minado. Ainda de longe, Telê percebeu e se virou de costas. 

Foi o primeiro sinal de reprovação. 

Aproximei-me, já com escusas: “Bom dia, seu Telê, eu sei que não poderia estar aqui…”

Ele me interrompeu: “Bom dia. Você está atrasado”.

Eu me desculpei novamente, dei-lhe a razão que ele evidentemente sabia que possuía. Perguntei se ele teria tempo para gravar o comentário após o treino. Ele tinha. 

Agradeci e comecei a me afastar. Telê me chamou. Virei-me e, pela primeira vez, estávamos frente a frente. 

“Você sabe que não pode entrar no campo, aqui não se pemite isso”, disse ele. 

“Claro, seu Telê. Desculpe”.

Comecei a fazer o caminho de volta, na direção da linha lateral. Silêncio. Aquela linha era a minha salvação. Se conseguisse chegar ao “outro lado”, nada me aconteceria. 

Faltavam poucos passos quando ele gritou: “E QUEM TE DEU AUTORIZAÇÃO PARA ENTRAR NO CAMPO?! QUE BAGUNÇA É ESSA?!”

Imaginei os jogadores rindo, mas não tive coragem de olhar. 



  • Anna Barros

    Telê Santana foi o melhor treinador que vi atuar. De uma seleção inesquecível, a de 82. Que tantos execraram porque simplesmente a seleção italiana foi superior naquele fatídico dia de Tragédia no Sarria, 5 de julho de 82. Seus títulos mundiais pelo São Paulo o redimiram. Inesquecível. Entrou para a História. Ótima história! Grande abraço e bom feriado, Anna.

  • Alisson Sbrana

    Uma salva de palmas pela história. Outra para a forma de contá-la. Uma reverência à Telê.

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