Coluna Dominical



CONTRAMÃO

Em longa entrevista ao portal UOL, Dunga ofereceu suas opiniões sobre os numerosos temas que acompanham seu trabalho como técnico da Seleção Brasileira. É necessário que alguém na posição dele tenha oportunidade e espaço para se comunicar com a opinião pública, em uma configuração mais generosa do que as coletivas que não permitem abordagens mais amplas. Mas é frustrante que trechos da conversa, apesar de aparentemente simples, sejam de difícil compreensão (e aqui não vai, de nenhuma forma, uma crítica ao material. Um exemplo, entre tantos: “Para fazer um curso na Europa você precisa ficar lá por seis meses. Tudo é válido. Mas se você ver o futebol amador, você está atualizado. Algumas essências que o futebol profissional tem menos.”).

Dunga está sentado em uma cadeira que permanece constantemente em alta temperatura. Ele dá sinais de compreender a natureza do cargo que ocupa, mas não exercita essa compreensão ao optar quase sempre pela interpretação contaminada do que se diz ou escreve a seu respeito. A conversão de críticas apropriadamente embasadas em ataques à pessoa, como se tudo e todos se resumissem a um eterno “não gostam de mim porque sou antipático”, revela uma relação equivocada com o caráter público de sua profissão e, talvez, um entendimento limitado do debate do qual ele parece querer participar. Quando o faz, porém, seria interessante que não fosse para revisitar os dramas da “Era Dunga”, ou o ressentimento provocado pelo título mundial de 1994, pois esses eventos não estão sobre a mesa de uma discussão séria sobre a Seleção Brasileira hoje. Servem apenas como desvios que não levam a lugar algum.

Ocorre que nos raros momentos em que Dunga menciona conceitos, o nível de preocupação se eleva vertiginosamente. Ao comentar – e assumir sua participação – o veto da CBF à possibilidade de parceria com a empresa belga que coordenou a reestruturação da seleção alemã, Dunga apresenta um argumento assustador. Textualmente, as palavras do técnico: “Outro item dizia que forma a equipe e depois a individualidade. Trabalho diferente. Tenho que ter o talento e depois a equipe.”. Ele não elaborou a respeito da maneira como prefere construir times de futebol, o que, a julgar pela ordem dos fatores apresentada, seria equivalente a uma explicação sobre o funcionamento da internet por discagem telefônica. O problema é que vivemos na era do Wi-Fi, e, enquanto há gente trabalhando no futuro, a Seleção Brasileira está ouvindo a agradável musiquinha do serviço de atendimento ao cliente, pois o número de conexão não funciona.

Imagine como seria o trabalho de Diego Simeone no Atlético de Madrid – embora seja um time que pratica o estilo de futebol oposto ao que o Brasil deveria perseguir – se seu método partisse do talento para a equipe. O Chile de Jorge Sampaoli teria alcançado o título da Copa América com essa orientação? Pense em que tipo de equipe o torcedor gremista veria atualmente se Roger Machado raciocinasse o futebol com esse nível de atraso. Calcule em que estágio estaria a reconstrução do Corinthians se Tite andasse à procura do talento, para depois encontrar a estrutura. O pensamento exposto por Dunga reside no tempo em que a quantidade de jogadores extraordinários carregava a Seleção por excesso de brilhantismo. O tempo passou, a fartura diminuiu e o Mineirão deveria ter sido um alarme inconfundível.

Dunga não é o responsável por todos os problemas da Seleção Brasileira. O ambiente na ex-sede José Maria Marin, onde as pessoas vivem olhando sobre os ombros e preocupadas se estão sendo ouvidas, evidentemente não colabora. Mas os desafios que estão no caminho do time exigem uma visão mais atualizada sobre futebol. Além de não identificar a complexidade do trabalho a ser feito, Dunga manobra no sentido oposto ao do próprio jogo.

(publicada em 16/4/2016, no LANCE!)



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