O árbitro compreensivo



Luis Suárez fez um gol decisivo na final da Liga dos Campeões do ano passado, e muitos gols decisivos antes desse. Mas em nenhum outro jogo, desde sua estreia pelo Barcelona, o atacante uruguaio foi tão importante quanto na vitória de ontem sobre o Atlético de Madrid.

E não apenas porque Suárez foi o autor dos dois gols da virada de seu time, mas pela maneira como esses gols foram marcados. O jogo no Camp Nou foi um vídeo ilustrativo da razão pela qual ele foi contratado.

Quem acompanhou o Barcelona na época de Pep Guardiola certamente se lembra dos últimos jogos da temporada 2011/12, especialmente as semifinais da Liga dos Campeões, contra o Chelsea. A ocupação do campo do oponente, o assalto à área de Petr Cech, o número de finalizações, o número de cruzamentos e… a ausência de gols.

O time era capaz de mover a bola como queria, fazia inversões de lado para desorganizar a defesa, usava os laterais como pontas mas falhava em dois objetivos: não criava profundidade e não gerava perigo com bolas alçadas na área.

O problema da falta de profundidade tem uma explicação simples: quando praticamente o time inteiro está no último terço do campo, é dificílimo – para não dizer, impossível – gerar espaço para um passe vertical em que um jogador possa correr para encontrar a bola (ver: Bayern x Juventus, semanas atrás).

A questão dos cruzamentos inofensivos é ainda mais lógica: o Barcelona não tinha um jogador que representasse uma ameaça dentro da área e pudesse finalizar as jogadas pelas laterais – recurso mais inteligente diante de paredes formadas para proteger o frontal da área (ver: idem).

Suárez mudou tudo, e o jogo contra o Atlético exemplifica essa mudança.

Dois gols em lances construídos pelos lados, assinados por um 9 em sua posição clássica. Dois gols que não poderiam ser maiores, tendo em vista a notável queda de desempenho do Barcelona.

Na Espanha se diz que o time não está “fino”, ou seja, não tem mostrado a precisão habitual. Errático, desconcentrado. Em relação à derrota para o Real Madrid, no fim de semana, observou-se um senso de propósito mais elevado, o que se explica pela importância da ocasião. Mas o jogo perdeu fluência e alguns futebolistas – Neymar é um deles – estão abaixo do rendimento normal.

Mesmo com um jogador a mais, enfrentando um time que consegue praticar futebol defensivo quase tão bem quanto o Barcelona faz o oposto, a virada dificilmente seria alcançada se Suárez  não estivesse em campo.

E assim chegamos ao momento que, para tanta gente, é a suprema razão do resultado do jogo: a expulsão de Fernando Torres, aos 35 minutos do primeiro tempo.

Assim como há pouca discussão em relação à justiça do primeiro cartão amarelo, parece claro que Torres optou por viver perigosamente quando fez a falta que lhe valeu o segundo.

(Nota pessoal, apesar de não gostar de escrever em primeira pessoa: no momento da falta em Busquets, minha reação foi “que bobagem ele fez…”, algo com que o próprio Torres concorda.)

A ação foi tremendamente arriscada, uma temeridade para quem já estava advertido. A propósito: se o cartão vermelho não existisse, Torres poderia ter visto três amarelos no jogo, todos por faltas classificadas como “desnecessárias”, ou “evitáveis”, como queira. E em cerca de meia hora…

Sua imprudência aumenta de tamanho ao lembrarmos que, para o tipo de estratégia do Atlético, é absolutamente crucial permanecer com 11 jogadores. A exclusão de Torres não apenas criou inferioridade numérica, como permitiu mais conforto ao Barcelona para avançar sobre o campo de ataque com menos preocupações defensivas.

Ao cometer uma falta limítrofe, para o chamado “cartão laranja”, o atacante do Atlético colocou em risco o plano de jogo de seu time, deixando-o nas mãos de quem ele jamais deveria estar: o árbitro.

E esse é o ponto: times que escolhem não ter a bola pretendem executar um plano que não só depende de circunstâncias, mas aposta que todas as circunstâncias lhes serão favoráveis. Quando algo acontece fora do roteiro, o plano desaba.

Precisam defender sem falhas, encontrar uma forma extremamente eficiente de usar a bola em algo como 35% do tempo, contar com um ou outro erro do adversário, ser contemplados pela sorte durante toda a noite e contar com uma atuação impecável da arbitragem.

Além de uma expectativa exageradamente otimista, esse planejamento chega ao limite de pedir a compreensão dos árbitros, como se dissesse “veja, decidimos correr todos esses riscos, será que o senhor poderia relevar alguns excessos de nossa parte?”.

Quando Guardiola diz que gostaria de ter 100% de posse, pois assim o controle sobre o que acontece em campo seria total, a ideia de limitar ao máximo a influência do acaso fica evidente. Ou deveria ficar, para quem tem interesse em compreender.

Mas então o árbitro deve ser compreensivo e não pode “estragar o jogo” com uma expulsão aos 35 minutos, pois o risco de perder um jogador faz parte da estratégia da equipe considerada tecnicamente inferior, que opta por se colocar nessa posição?

É isso?

E precisamos chegar a um acordo sobre qual “jogo” estamos falando.

É curioso que a indignação com a expulsão de Torres leve em conta apenas o impacto naquilo que o Atlético de Madrid pretendia fazer, ignorando o impacto naquilo que o Barcelona pretendia fazer. Pois é bastante claro que o time que tem capacidade de gerar 65% de posse investe no risco que o adversário é obrigado a correr para lhe tomar a bola. E no conflito dessa obrigação com as regras do jogo.

Pelo princípio da neutralidade, o árbitro não deveria ser compreensivo com essa estratégia também?

Do time que propõe, cobra-se objetividade e vitórias em sequência. Uma decisão controversa do árbitro (que, diga-se, ontem errou demais) se converte em tudo o que existe de errado.

Do time que não propõe não se cobra nada e se exalta a capacidade de sobreviver “contra tudo e todos”.

E assim, ignora-se a imprudência de Fernando Torres para responsabilizar o árbitro por não ter sido simpático a uma ideia de futebol que trafega no limite disciplinar do jogo.

Torres entrou em um cassino e apostou na roleta. Deu vermelho. Há quem prefira culpar a roleta.



  • Gustavo

    André, você é realmente bom nisso. Acabou de me apresentar um enfoque novo àquela partida em especial e a determinado estilo de jogo. A figura da roleta é perfeita. Já acho você o melhor jornalista futebolístico do BR, e você mal começou. Parabéns.

    • André Kfouri

      Agradeço pela leitura. Muito obrigado. Um abraço.

  • Joao Henrique Levada

    Muito bom, de novo, André.

    Parabéns!

    Mas fiquei com uma dúvida. Você está respondendo a alguma pessoa em especial? Ou talvez algum debate?

    De onde veio a inspiração pra este texto?

    Estou imaginando você no café (da ESPN?) e algum amigo de trabalho falando: “Poxa, o árbitro matou o jogo quando expulsou o Fernando Torres (…)”

    • André Kfouri

      Obrigado. É apenas minha leitura sobre a tendência a responsabilizar árbitros pelos equívocos de jogadores. Um abraço.

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