Coluna Dominical



PAULO SCHMITT PRECISA IR

Aqui vamos nós. Entremos novamente na espaçonave que viaja no tempo, com direção a dezembro de 2013, para reencontrar um momento formoso nos anais do que se chama de justiça esportiva no Brasil: o dia em que o Pleno do Superior Tribunal de Justiça Desportiva julgou o “Caso Héverton”. Foi o ápice da jactância dos nobres auditores, alimentados por holofotes e câmeras ávidas pela decisão dos times rebaixados no Campeonato Brasileiro daquele ano, vinte dias após seu encerramento.

Acalme-se. Não revisitaremos o episódio em si, até hoje envolto em mistério. O ponto aqui é um exame do que se viu naquela sessão, especialmente à luz do que sabemos hoje sobre um dos protagonistas do julgamento, o procurador-geral Paulo Schmitt. Os e-mails revelados pela reportagem de Gabriela Moreira, na ESPN, desnudaram a forma como Schmitt opera em seu cargo e expuseram a farsa da independência do tribunal em relação à Confederação Brasileira de Futebol. O tema sempre foi um gatilho de extrema irritação para Schmitt, motivo de explosões indignadas em legalês mal empregado, o tipo de reação que pretende intimidar o interlocutor. Agora se compreende por quê.

A princípio, o material sobre as trocas de mensagens entre Schmitt e Marco Polo Del Nero causa uma espécie de conformismo. É a comprovação do que sempre se suspeitou: o STJD não é mais do que um departamento da CBF, um acessório que faz as vontades da confederação em um jogo de movimentos pretensamente confiáveis cujo desfecho sempre agrada à cartolagem. A contrapartida para o procurador é o status de eminência nos corredores, as oportunidades geradas por ele (como um contrato milionário de assessoria jurídica para Confederação Brasileira de Basquete, entidade prejudicada por uma gestão financeira suicida) e benesses como ingressos para os jogos da Seleção Brasileira na Copa de 2014 e viagens a Nova York .

Mas a forma desavergonhada como Paulo Schmitt serve à CBF – ou seja, trabalha por seus próprios interesses sob a pele de alguém que defende “o que é justo” – excede o que é aceitável, mesmo que não surpreenda. Supõe-se que, no STJD, haja quem se comporte com honradez e não compactue com a troca de favores com o poder patrocinada por Schmitt. Essas certamente são as pessoas mais atingidas pelas revelações desta semana, por se perceber atuando em um teatro enquanto o procurador-geral deglute cachorros-quentes no Central Park (a maneira como Schmitt se comporta não sugere o perfil de quem frequenta restaurantes recomendados pelo Guia Michelin) e manda a conta para o Marco Polo que não viaja. Infelizmente não se deve esperar que a corregedoria do tribunal as represente.

Os doze maiores clubes do Brasil assinaram um pedido de afastamento de Paulo Schmitt, prova de que a desfaçatez une até quem não é capaz de se sentar à mesa para discutir questões fundamentais, como, por exemplo, organizar o Campeonato Brasileiro. O procurador poderia poupar o tempo de todos e se despedir em silêncio, embora esse tipo de atitude não seja do feitio do esperto brasileiro médio. De modo que sua retirada da cadeira de facilitador da CBF depende do aumento da pressão do ambiente do futebol e/ou de novas revelações. Exatamente agora, Schmitt está telefonando para dirigentes de clubes em busca de proteção, pedindo que não se juntem aos que já assinaram a solicitação. É preciso esperar a tinta no papel, mas o que se pode dizer por enquanto é que a gestão do procurador não tem sido bem sucedida.

Naquele dia, em dezembro de 2013, Paulo Schmitt usou seus quinze minutos de fama para fazer uma defesa enérgica da lisura do STJD. Passou longe da conformidade com as regras do idioma, mas tentou esboçar alguma erudição ao citar um ser humano extraordinário. “Sugiro que façam como Nelson Mandela, tão sofrido, aconselhou a seu povo: perdoem, mas não esqueçam”, pediu Schmitt. O futebol deve fazer o inverso: não perdoá-lo e esquecê-lo.

(publicada em 2/4/2016, no Lance!)



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