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(publicada em 28/3/2016, no Lance!)

O PROBLEMA NÃO É DAVID

Em abril do ano passado, um dia depois de levar duas canetas de Luis Suárez em um jogo entre PSG e Barcelona, David Luiz foi severamente criticado por Glenn Hoddle, ex-técnico da seleção inglesa. Hoddle chamou o zagueiro brasileiro de “playground player” (algo como “jogador de pelada”, em tradução livre), em uma referência a defeitos de posicionamento aceitáveis apenas em um nível de futebol no qual a organização não tem importância. “Ele é um talento”, disse Hoddle, em uma de suas aparições como comentarista de televisão, “mas o futebol de alto nível não é isso”.

Ser o defensor mais caro da história do esporte não garante a David Luiz um bônus de paciência quando falha. Ao contrário, há uma tendência ao exagero na análise de sua responsabilidade a cada vez que seu time sofre um gol. O hábito de ser flagrado longe do lugar onde deveria estar certamente não o ajuda, mas isso não significa que David seja uma espécie de reserva de mercado de erros defensivos. A atuação de um time de futebol é um entrelaçado de ações no qual a última foto nem sempre é a mais significativa.

O primeiro gol do Uruguai na sexta-feira passada é um exemplo apropriado. A falha grave na jogada foi de Filipe Luís, que, mal posicionado, permitiu o cabeceio de Carlos Sánchez para trás. A imagem de Cavani desmarcado dentro da área emite um alerta estridente, e converte David Luiz no sujeito que é pego tentando sair da loja sem pagar pela mercadoria. Mas neste tipo de situação, o manual – isso não é uma opinião – pede que o zagueiro proteja um possível rebote do goleiro e, principalmente, a região mais próxima do gol.

Aproximar-se demais do atacante é assumir o risco de ser batido por um adverário mais rápido, no caso de um cabeceio para a frente. O pecado de David foi aparentemente não saber onde Cavani estava, o que diminuiu sua chance de bloquear o chute, mas o fato é que, se Filipe cumprisse sua obrigação, nada teria acontecido. No gol de Suárez, sim, é nítido que David optou por não travar a finalização, apostando no corte do uruguaio para o pé direito. Uma decisão infeliz, provavelmente ativada pela memória da dor provocada por duas canetas na mesma noite em Paris. Como dizia o já saudoso Johan Cruyff, “o futebol é um jogo que se joga com a cabeça”, e às vezes ela pode ser infiel.

A tentativa de transformar David Luiz – um dos poucos poupados no “1 x 10” (não esqueça da Holanda) – no resumo dos problemas do Brasil de Dunga é especialmente vil, porque seria uma ótima notícia se a questão estivesse restrita aos equívocos, reais ou virtuais, de um jogador só. Mas a maneira como a Seleção Brasileira entrou em pane após a inserção de Álvaro González, no descanso, evidencia dramas muito mais sérios. O Uruguai foi indiscutivelmente superior no aspecto coletivo, assim como o Chile havia sido, e não apenas por uma metade, no encontro em Santiago. O segundo tempo em Recife corrompeu a impressão de um time em evolução causada pela primeira meia hora de jogo.

Dunga – e o futebol que ele enxerga – é quem tem de responder por isso, mas o técnico não pode ser responsabilizado por ter sido escolhido. Entre os comprovados crimes de José Maria Del Nero (ou Marco Polo Marin, como queira) está a atrocidade cometida apenas duas semanas após o epitáfio do Mineirão, quando o comando corrupto do futebol brasileiro ignorou a oportunidade de convidar os melhores técnicos do mundo para dirigir a Seleção. Havia motivo, tempo e, claro, orçamento para realizar um diligente trabalho de prospecção. Em quinze dias, o que se fez? Dunga.

A narrativa das Eliminatórias “mais difíceis da história” é conveniente, pois torna palatável a tese de que nada é suficientemente ruim e concede ao treinador o vergonhoso alvará para cobrar “mais virilidade” da Seleção Brasileira de futebol. O que falta é jogo. Até na pelada ganha o time que tem mais a dizer.



  • Silva

    André,

    Parabéns, você fez uma leitura ampla da situação, seria bom que muitos que andam sacrificando o David Luis lessem seu texto, daria no mínimo para refletir. Outra coisa, hoje eu se tivesse que contratar uma dupla de zaga para meu time, podendo escolher no futebol mundial, optaria por Thiago Silva e Sérgio Ramos. Você contrataria quem?

    Abraços.

  • José Henrique

    Concordo integralmente com o texto. Não se pode mesmo sacrificar David Luiz, porém ficou bem evidente que Miranda não conseguiu marcar Soares. Ao contrário, usava os braços pernas e tudo mais para se enroscar com o atacante e perdeu todas. David Luiz deveria mudar para a posição de volante.

  • Daniele

    André, parabéns pela sua lucidez, só digo isso. A imprensa esportiva precisa de mais caras como você. Obrigado por isso. Continue assim!

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