CRUYFF, POR VALDANO



 

É de Jorge Valdano o texto insuperável sobre Johan Cruyff. Pelo manejo das palavras e pelo que tem a contar. O artigo no jornal mexicano Record está aqui, na íntegra, para quem lê em espanhol.

Abaixo, publico a tradução dos três parágrafos que considero meus preferidos:

 

Tinha uma velocidade endiabrada, mas adornava suas corridas com enganos: mudava de ritmo e de direção com uma astúcia letal. Parecia impossível pará-lo dentro do regulamento. A bola sempre se adaptou a seus freios e a seus arranques como se fosse um animal de companhia que fazia o que seu amo lhe ordenava. E se entrarmos no capítulo da personalidade, devo dizer que nunca vi ninguém governar as partidas com a autoridade de Johan. Movia os braços como quem dirige o trânsito, falava até durante um drible, pedia a bola como se ela fosse só dele. Ele mandava. Se permitia desafiar a autoridade de seu técnico modificando, no meio de um jogo, as posições de seus companheiros e sua própria, sem nenhum complexo. Mas também mandava nos árbitros, fazendo-os sentir o poder de seu talento, falando com eles entre cada jogada como se fossem seus empregados.

Eu o conheci quando tinha vinte anos e ele já era um jogador consagrado (nessa época, já tinha levantado três Copas da Europa com o Ajax e três Bolas de Ouro). Nós nos enfrentamos em um jogo da Copa do Rey e tivemos uma discussão sem importância. Ele me perguntou de onde eu era, depois meu nome e, finalmente, minha idade. Fez cada pergunta com seriedade, como se se interessasse de verdade. Eu respondi a tudo com a obediência que uma lenda de seu tamanho merecia, mas Johan, sem piedade, disparou para me matar: “Com vinte anos, deve-se tratar Johan Cruyff por ‘senhor'”. Não foi um bom começo, mas isso não modificou minha admiração.

Ninguém na história do futebol conjugou com tanto êxito sua carreira de jogador com a de treinador. Ninguém com tanta força para converter o bom futebol em uma cultura. Há exatamente uma semana vi o apaixonante Bayern-Juventus. Um jogo que escapou das mãos do Bayern. Perdia por dois a zero e Guardiola teve de tomar decisões muito arriscadas para empatar no tempo regulamentar e ganhar na prorrogação. No dia seguinte, comi com Pep e ele me disse algo extraordinário: “Quando a coisa estava pior, me perguntei ‘o que Johan faria nesta situação?'”. Não me ocorre uma homenagem melhor para terminar esse artigo.

 



  • Anna

    Lindo!!

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