MÉRITO x MERCADO



 

É preciso desfazer o mal-entendido que domina o debate sobre as premiações para homens e mulheres no tênis profissional.

Não, não me refiro – em relação ao mal-entendido, que fique claro – à infeliz declaração do ex-executivo do torneio de Indian Wells, e nem ao comentário adicional de Novak Djokovic. Mas, para que todos estejamos na mesma página, eis o que aconteceu:

Domingo passado, na posição de CEO do Masters 1000 californiano, Raymond Moore ultrapassou o limite das opiniões que não devem ser expostas, porque estão erradas em diferentes aspectos, e disse que “se eu fosse uma tenista, eu me ajoelharia todos os dias e agradeceria a Deus por Roger Federer e Rafa Nadal terem nascido, porque eles têm carregado esse esporte”.

(não posso esquecer de voltar às declarações de Moore mais adiante, porque essa não foi a maior tolice que ele cometeu.)

No dia seguinte, o melhor tenista do mundo acrescentou o que pensa sobre o assunto, de certa forma se colocando ao lado de Moore em relação à divisão do dinheiro dos torneios. Disse Djokovic: “Eu acho que a ATP deve lutar por mais porque as estatísticas estão mostrando que nós temos muito mais espectadores nos jogos de tênis entre homens”.

Desde então, Raymond Moore perdeu seu cargo (porque ele não é Djokovic e não pode dizer o que quiser), e Djokovic pediu desculpas por um comentário “que não reflete o que ele realmente pensa” (porque ele é Djokovic e precisa avaliar a repercussão do que diz).

O problema é que está tudo errado. Tudo. E incomoda – para não dizer mais – que a conversa tenha sido transportada apenas para o terreno do sexismo e da igualdade de tratamento, quando, além disso, existe uma colossal confusão sobre o que se está discutindo.

A questão sobre os prêmios em dinheiro distribuídos pelos torneios (em inglês: “prize money”, ou seja, o que se paga por vitória nos eventos de tênis profissional) não tem a ver com gênero, nem com mercado, nem com ingressos, e, muito menos, com audiência.

Tem a ver com conceito. E enquanto o conceito não for compreendido, a conversa continuará tomando caminhos equivocados.

Moore disse, essencialmente, que as mulheres – que lutaram por muitos anos para receber os mesmos valores que os homens – estão ganhando dinheiro nos torneios às custas das verdadeiras estrelas do tênis. Djokovic disse que, por isso, os homens devem ganhar mais.

Uma das perguntas centrais aqui, claro, é: por quê?

Existem basicamente dois “argumentos” (entre aspas, pois não são argumentos legítimos, são apenas opiniões mal informadas) lançados para justificar mais dinheiro para os homens:

1 – O usado por Djokovic; “nossos jogos geram mais interesse”.

2 – O usado de maneira infame pelo tenista francês Gilles Simon, em 2012; “nós ficamos mais tempo na quadra”. (nos torneios mais importantes, a chave masculina é disputada em melhor de cinco sets, enquanto a feminina se dá em melhor de três).

Ocorre que os prêmios por vitória em torneios de tênis não estão relacionados ao interesse gerado pelos jogos, ou à duração deles. Estão relacionados ao mérito esportivo e ao valor associado a ele em eventos que reúnem os melhores atletas da modalidade.

O “argumento” do interesse se perde quando comparamos um jogo entre dois homens relativamente desconhecidos com uma aparição de Serena Williams na quadra central. Ademais, o mesmo raciocínio nos levaria a fazer um adendo ao comentário de Raymond Moore: se as mulheres devem agradecer a Federer e Nadal por eles existirem, TODOS os homens que não se chamam Djokovic e Murray têm de fazer o mesmo.

E aí, então, como ficaremos em relação à divisão do dinheiro?

A declaração de Djokovic sobre “mais espectadores” aumenta a confusão, pois induz o debate a uma relação fictícia com audiência e direitos de transmissão. Os torneios de tênis mais importantes do mundo (os 4 Grand Slams) são comercializados, cada um, como um evento só. Não se paga X para transmitir a chave masculina e Y para mostrar a chave feminina. Mesmo que haja números que comprovem que a audiência dos homens é maior (não precisamos deles para tratar de “prize money”), o confronto entre as chaves inexiste.

Se algum dia houver separação na comercialização dos torneios (a WTA jamais aceitará, e com absoluta razão), e os direitos sobre a chave masculina valerem mais, os homens poderão pleitear uma parte do montante, mas como “direito de imagem” ou “direito de arena”, como se diz no futebol. Jamais como um aumento do prêmio por vitória, pois o valor pago a um(a) tenista quando ele(a) vence um jogo independe do número de espectadores sentados ao lado da quadra ou em frente à televisão.

Quanto ao “argumento” do tempo na quadra, por favor… é necessário explicar que tenistas não são remunerados por horas trabalhadas? Que culpa as mulheres têm pelo regulamento dos torneios determinar uma disputa diferente?

Alguém poderá dizer que a solução é igualá-los, impondo a melhor de cinco sets à chave feminina. Neste caso, boa sorte: os Grand Slams não caberão em duas semanas, e ainda nem entramos na questão das diferenças físicas entre homens e mulheres, e o impacto no nível técnico dos jogos.

Para contexto: quando Simon mencionou o tempo na quadra, ele se referia a uma antiga reclamação. Os homens – não todos – dizem que, por jogarem apenas três sets na chave de simples, as mulheres têm mais tempo para disputar a chave de duplas e, consequentemente, faturar mais em “prize money”. De modo que, na verdade, o que ele diz não é “devemos ganhar mais”, e sim “elas devem ganhar menos porque têm mais chance de ganhar mais”.

De uma forma ou de outra, está errado.

Finalmente, chegamos ao “mercado”, equivocadamente lembrado para dar suporte a um raciocínio torto. As tendências mercadológicas já aplicam óbvias diferenciações no tênis, mas elas não se verificam – e nem deveriam se verificar – no valor pago por vitórias em torneios.

Nos cachês que atletas cobram por seu tempo, em jogos de exibição ou aparições em eventos das mais variadas características, já existe uma evidente distinção na remuneração de homens e mulheres. Pois esse aspecto, sim, está relacionado a interesse e/ou popularidade.

Os valores pagos por vitórias em torneios profissionais de tênis devem ser iguais nas chaves masculina e feminina, pois o mérito esportivo é exatamente o mesmo.

O mercado age para valorizar A ou B onde suas leis se aplicam.

E sobre a maior tolice de Raymond Moore (não esqueci…), aqui está o que ele disse em referência a Eugenie Bouchard e Garbiñe Muguruza: “Elas são atraentes fisicamente e competitivamente. Elas podem assumir o manto de liderança quando Serena decidir parar. Elas [a WTA] têm algumas jogadoras muito, muito atraentes”.

Isso é sexismo. Essa é uma caracterização distorcida e preconceituosa de mulheres no esporte. Deveria bastar para que o ex-CEO de Indian Wells perdesse o emprego.



  • Batendo palmas.

  • Rodrigo Mesquita

    A imprensa sempre coloca algo a mais na sopa. A conta é simples, em qualquer negócio no mundo quem fatura mais ganha mais, simples assim. E Djokovic falou apenas isso e ainda justificou falando em estatísticas. Não é questão de ser homem ou mulher, a questão é quem traz mais dinheiro. Na mundo da moda o homem não vale nada, na maioria dos esportes os homens recebem mais porque atraem mais interessados, infelizmente é assim. Serena é um ícone do esporte, mas quantas pessoas viajarão do Brasil para Miami esta semana para vê-la? Quantas verão Federer, Djoko e Nadal? Quantas mulheres do circuito já afirmaram não gostar de assistir aos jogos femininos? Quantas pessoas assistem um jogo de primeira rodada da Serena? O que o senhor diretor de IW falou já é outra história porque desmerece tudo o que as mulheres fazem no tênis, mas quem deve ganhar mais é quem vende mais, sendo homem ou mulher. Uma vitória tem o mesmo valor que a outra, mas uma atrai mais dinheiro, é assim em todos os esportes e até dentro do mesmo gênero.

    AK: Não, não é. E mesmo se fosse, Serena, sozinha, “vende” mais do que a enorme maioria dos homens. Absoluta confusão de conceitos.

  • Antonio Carlos

    E o que seria o valor associado ao mérito esportivo senão o interesse do público? Qual o retorno esperado pelos patrocinadores senão a audiência? E pq vc diz que a WTA, logicamente não aceitaria a separação?

    AK: O valor associado ao mérito é aquele que o torneio destina à premiação. Não está relacionado ao interesse. Audiência e retorno dos patrocinadores não têm qualquer relação com premiação. A WTA não aceitará a separação se entender que seria uma desvalorização de seu produto.

  • Anna

    Achei as declarações de Djokovic infelizes. Sempre tive pé atrás com ele e agora só piorou. Enquanto houver declarações machistas, haverá machismo no mundo. Raymond Moore conseguiu ser pior ainda que Djokovic, em todos os sentidos. Boa coluna! Abraço, Anna.

  • ricardo pradas

    discordo em parte andre. no seu texto esta descrito a realidade. se serena e vanessa atraem publico mais que a maioria dos homens, o que é verdade, a WTA deveria ter coragem de negociar a parte. Infelizmente teriamos menor numero de compras das transmissões das chaves femininas e mesmo de duplas independente de gênero. eis a realidade.

    AK: Não. A realidade não é essa. Você está confundindo negociação de direitos com premiação.

  • Texto interessante e que me fez ponderar alguns pontos em relação à distribuição dos prêmios. Acho que minha visão (e a de alguns) era a de que os prêmios, por serem até certo ponto o “salário” dos atletas, deveria estar vinculado à geração de receita. Mas realmente, em uma competição envolvendo o mesmo “tier” de atletas no masculino e feminino, faz sentido a mesma premiação.
    Por outro lado, imagino que você não discorde que, embora toda modalidade deva incentivar a participação de ambos os sexos, o salário em competições distintas (NBA e WNBA, por exemplo) deve estar vinculado à receita. Como dito anteriormente, o ponto nesse caso é o salário, não prêmios.
    Por fim, uma única discordância: no início do texto você disse que “Raymond Moore ultrapassou o limite das opiniões que não devem ser expostas”. Na verdade, todas as opiniões devem ser expostas, justamente para que saibamos quem compactua com nossos valores e quem queremos ter por perto.

    AK: Prize money não é o equivalente a salário, pois está atrelado ao resultado. Salário independente de resultado. Nos esportes coletivos, em que existe folha de pagamento, é evidente que ela está vinculada à receita do empregador.

  • Bruno S.

    André, o seu texto beira o absurdo. Pela primeira vez discordo completamente de você. O seu argumento não se sustenta nem por um minuto. O fato de uma vitória num torneio masculino equivaler a uma vitória num torneio feminino, definição em si de mérito esportivo, não significa em nenhuma hipótese que devam ser recompensadas financeiramente da mesma forma. O mérito esportivo é recompensado esportivamente igual, pela passagem à fase seguinte. Basta você pensar em um novo torneio que deseje se firmar no circuito da ATP/WTA. Partindo do pressuposto que ambos atrairão os tenistas melhores ranqueados, um torneio exclusivamente feminino atrairá uma quantidade X de patrocinadores e interessados em seus direitos de transmissão. Se for um torneio exclusivamente masculino, o valor Y arrecadado será maior que X, ceteris paribus.
    Dessa forma, claramente o prize money no torneio feminino será inferior ao masculino.
    A linha deturpada de sexismo e politicamente correto interessa principalmente a quem detém um produto de menor qualidade e não tem interesse em “depreciar” seu produto.

    AK: Absurda – para usar seu termo – é a relação que você faz. Se o mérito fosse apenas passar à fase seguinte, não haveria necessidade de premiá-lo, e seria difícil convencer jogadores (homens ou mulheres) a participar de torneios. E me parece que você não leu o texto com atenção, pois eu menciono a hipótese de um torneio com duas chaves negociadas separadamente. Neste caso, como está escrito, os jogadores poderiam pleitear sua parte, o que nada tem a ver com prize money. Explique por que o prize money das mulheres em Wimbledon, por exemplo, deve ser menor do que o dos homens.

    • Bruno S.

      André, desculpe pela insistência, mas a relação que faço é simplesmente o isolamento do fator que você diz que é o determinante para o prize money ser igual, qual seja, o mérito esportivo.
      Você afirma que o mérito esportivo, a vitória, é o mesmo em ambos os casos e portanto merecedores da mesma recompensa. Eu afirmo que o mérito esportivo é o mesmo, mas em que nenhuma hipótese a recompensa precisa ser a mesma.
      O seu argumento equivale a falar que um gol que define o campeão brasileiro na final da série D vale o mesmo que um gol que define o campeão da Champions League. Ambos tem a mesma natureza, o mesmo mérito (por assim dizer), porém mais uma vez não há como equipará-los em termos de relevância financeira.

      AK: Minha nossa… Você está dizendo que a chave masculina do US Open equivale à Champions, e a chave feminina equivale à Série D? Sério? Estamos falando do mesmo torneio de tênis…

      • Bruno S.

        Claramente não é isso que estou dizendo.
        O exemplo, ilustrativo como deve ser, foi apenas para demonstrar que o mérito esportivo (vitória) não pode ser usado como argumento, ou único argumento, para equivalência de prize money.
        Se quiser uma comparação realista podemos dizer que a chave masculina do US Open equivale à Champions e a chave feminina à Premier League ou outra liga européia. Eu, por exemplo, como tenista e espectador prefiro assistir a uma chave masculina de um ATP 500 do que a chave feminina do US Open.
        Obrigado por incentivar o diálogo.

        AK: Eu que agradeço. Mas lembre que sua preferência pessoal não pode ser tomada como indicador em um contexto muito maior. E que o prize money de homens e mulheres nos torneios do Grand Slam é igual.

  • Lucleblon

    Que tal Federer e Nadal se ajoelharem para Billie Jean King em agradecimento a verdadeira revolução que ela causou no esporte? E o que dizer de Bjorn Borg, Chris Evert, John Mc Enroe, Jimmy Connors, Pete Sampras ? O esporte não nasceu agora; aos 64 anos, tenho paixão pelo tênis, vejo o Djoko como um dos maiores, mas apoiar o sexista Moore foi sua jogada mais infeliz.

  • Adriano

    Andre, boa noite.
    Gostei muito do texto, mas fiquei com uma duvida. O prize money deve ser igual para ambos os generos, correto? Me pergunto de onde sai o dinheiro para essa premiacao. Como funciona a arrecadaçao? Nao envolve patrocinios nem nada que possa ser relacionado ao potencial de venda de cada torneio (homens/mulheres)?
    Se a resposta for nao, o seu texto ao meu ver é perfeito.
    Um abraco!

    AK: “cada torneio”? Estamos falando de um torneio com duas chaves. Evidentemente o prize money sai da receita do evento. Um abraço.

    • Adriano

      Perfeito.

  • Alisson Sbrana

    Maravilha de texto. Acompanho o primeiro comentário nas palmas. E de pé, se colocarmos os diálogos aqui. É incrível como o sexismo impera no raciocínio de algumas pessoas, aparentemente instruídas. Não é difícil explicar as diferenças que as mulheres enfrentam em todos os níveis de competição na vida. Historicamente, num mundo dominado pela virulência física do homem (Deus é sábio?), nas estruturas machistas que se perpetuam, é fácil compreender porque podemos montar listas (tá na moda isso) de ídolos nos esporte, com mais homens do que mulheres.

    Esqueçamos Ronda Rousey, ou Marta, ou Hortência, pois essas devem ser aberrações a assombrar o mundo dos homens, pobre de nós. E lembremos que vivemos num país em que muitas pessoas, num estádio de futebol, se sentem à vontade em protestar contra a presidente da república gritando “Vaca”.

  • thiago

    Muito bom

  • ailton

    Bonito texto Allison só não se esqueça que havia muitas mulheres chamando a presidente de vaca também
    E em varios protestos as mulheres reproduzem este xingamento e outros piores homenageando a nossa presidente

    • Alisson Sbrana

      Sim, verdade, mas não me esqueci. Não falei que eram os homens. A sociedade é majoritariamente machista. Muitas mulheres não conhecem outra cultura, e não saem dela tão facilmente. É como aquele personagem do Samuel L Jackson no Django do Tarantino.

  • Ailton

    É Alisson, as pessoas procuram suas zonas de conforto e só saem dela se sentirem ameaçadas. A nossa sociedade é majoritariamente machista, mas tem um maior número de mulheres em relação ao número de homens, mais ou menos 5 milhões.
    Esta e outra mais são o grande problema da nação, a maioria nem sempre é bem representada.

    Abraços

    Boa páscoa

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