NO LANCE DE HOJE



 

(publicada em 21/3/2016, no Lance!)

O VELHO ESTÁDIO AGRADECE

É curioso que, no país dominado pelo ódio, um Fla-Flu tenha se transformado em uma tarde de futebol à moda antiga no Pacaembu. As maravilhosas fotos em preto e branco do velho estádio paulistano, da época em que se ia ao futebol para ver futebol na companhia de outras pessoas, transmitem o tipo de experiência que – respeitados o passar do tempo e as mudanças que ele traz – se viu ontem.

Torcedores de camisas distintas chegando juntos ao estádio, bebendo juntos do lado fora e assistindo ao jogo sem a necessidade de separação ou intervenção para conter problemas. Pense na raridade desse contexto e no que ele representa. É algo que perdemos a capacidade de entender. Agora pense que aconteceu em um jogo que simboliza o antagonismo, as visões contrárias, os pensamentos distintos e incapazes de coexistir. Para cada episódio de incompreensão proposital convertida em belicismo, cenário tão atual, diz-se que há “um Fla-Flu…”. E eis que o Fla-Flu legítimo, o original, uma das identidades do futebol brasileiro, transcorreu em um ambiente de absoluta tranquilidade.

Considere-se o fato de o jogo ter sido realizado do outro lado da ponte-aérea e, em tese, visto por rubro-negros e tricolores que vivem em São Paulo. Ainda assim são torcedores ditos “rivais”, e a distância já se mostrou incapaz de remediar a imbecilidade em confrontos levados a cabo em tantos outros lugares, o que vale para todos os times e torcidas. O Fla-Flu do Pacaembu, algo visto pela última vez em 1942 (0 x 0, também), não se diferenciou apenas pelo gramado em que foi disputado, mas por resgatar uma relação com o futebol que não deveríamos ter perdido. (aqui não se ignora, é claro, experiências semelhantes, especialmente no Gre-Nal.)

Unidos, Flamengo e Fluminense têm feito corajosa resistência ao anacronismo institucionalizado pela FERJ, um exemplo de emancipação que infelizmente – ainda? – não contagiou os chamados coirmãos dentro e fora do Rio de Janeiro. O público de mais de trinta mil pessoas no ensolarado Pacaembu reforça a representatividade de ambos e, de certa forma, ajuda a aliviar a sensação de solidão que acompanha aqueles que decidem lutar pelo que entendem correto, ainda mais quando se trata do indiscutível direito de cuidar da própria vida. Talvez seja uma leitura excessivamente otimista, e portanto equivocada, mas seria animador se o bom clima notado no estádio tivesse um pouco da compreensão, por parte do torcedor, do momento por que passam os dois clubes.

O clássico não foi bom, o que pode parecer uma anotação de canto de página diante de aspectos certamente relevantes, mas, ao final, é disso que se trata. O primeiro tempo sugeriu que o Fla-Flu chegaria a dezessete edições seguidas com ao menos um gol, mas o encontro perdeu cor na segunda metade. Se nem Emerson Sheik se deixou inspirar pelo estádio em que marcou os dois gols mais importantes de sua carreira, os demais em campo estão perdoados. Aos que estiveram do lado de fora, o Pacaembu agradece por uma tarde que não imaginava proporcionar novamente.

MICROFONE

O Corinthians precisa se manifestar sobre os problemas entre a Gaviões da Fiel e a Polícia Militar. E esclarecer se, como é aparente, os últimos episódios em Itaquera estão relacionados aos protestos feitos recentemente pela torcida organizada. De nada adianta ter um estádio de Copa do Mundo se manifestações pacíficas sofrem retaliação da polícia e o torcedor comum sofre com as consequências.

MICROFONE (2)

O São Paulo precisa se manifestar sobre os problemas no gramado de seu estádio, quase tão graves quanto os do time. E esclarecer se, como se comenta, a adequação das medidas do campo levaram a uma reforma mais extensa que, por economia, deu terrivelmente errado. Há muito que jogadores reclamam da superfície ondulada do Morumbi, mas não faz sentido que uma obra feche o estádio por tanto tempo, em pleno curso da temporada.



  • Marcus

    REalmente, vivemos em um país com ódio. Ódio mortal de políticos e partidos à República, a respeitar as instituições, a cuidar bem do erário, a respeitar a Constituição, como bem demonstram o processo do Mensalão, Petrolão e – cudiado – vem aí BNDES e outros (fundos de pensão? que, aliás, começaram em tempos de outros governos).

    que bom que a população enfim aprendeu a ter ódio daqueles que a vilipendiam. MEsmo que o ódio seja seletivo ao executivo federal. Processo e aprendizagem. Na nossa República presidencialista, onde o Presidente sempre foi visto como herói ou vilão, como super homem (ou mulher) que resolveria todos os problemas (e a CF concentra poder enormemente no executivo federal) não é desejável, mas é natural que isso ocorra. ônus e bônus. Lula foi tratado como santo, quando tudo ia bem (aparentemente). Hoje é tratado como vilão.

    A síntese de tudo isso me parece positiva.

    abraço.

  • Silva

    André,
    Acreditar que a PM (com todos seus excessos e equívocos, que são muitos) entro em conflito com a Gaviões por causa dos “protestos feitos recentemente pela torcida organizada”, é no mínimo…………….sei lá que adjetivo cabe aqui. Que tal sugerir que o Corinthians acabe com as regalias das (des)organizadas? Não seria mais prudente? Que tal sugerir que todos os clubes façam o mesmo? Eu já vi de perto estas torcidas, não conheço todas, mas do pouco que conheci, não encontrei ali uma virtude, uma razão para que elas existam. É um direito de torcedores se reunirem, formarem torcidas, vivemos num pais “livre e democrático”, mas a atuação dessas torcidas é extremamente nociva à sociedade, se não é possíbel proibir, que sejam ignoradas pelos clubes. Viu??????? André????????

    AK: Talvez você me leia há pouco tempo. Já escrevi sobre o tema em várias oportunidades. Mas entendo que essa questão com a PM é um assunto distinto, relacionado ao comportamento da polícia, algo muito mais amplo. Um abraço.

  • Anna

    Amei o Fla-Flu no Pacaembu. Melhor do que em Brasilia. Outros times cariocas deveriam seguir o exemplo da dupla vanguardista. Um belo espetáculo! São Paulo é a continuação do Rio e só se gasta 45 minutos de avião! Questão de logística e de se aproveitar o belo estádio! Adorei! Grande abraço, Anna.

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