COLUNA DOMINICAL



 

(publicada em 19/3/2016, no Lance!)

O VALOR DA IDEIA

Foi um breve momento de lucidez sob incrível pressão, quase uma demonstração de estoicismo em uma situação em que o abandono de princípios seria mais do que compreensível. O tipo de ocorrência em que o “o quê”, o “quando” e o “onde” se encontram para nos fazer perguntar “como?”.

Aconteceu no segundo tempo do jogo entre Bayern e Juventus, mais precisamente no minuto 85 do esplêndido encontro da última quarta-feira, pela Liga dos Campeões da Uefa. Os italianos venciam por 2 x 1 e estavam a pouquíssimo tempo de chocar Munique. Sete jogadores da Juventus pressionavam próximos à área alemã, fechando os corredores de passes normalmente usados pelo Bayern para se mover da defesa ao ataque. Alaba, Kimmich e o goleiro Neuer se viram aprisionados em sua própria área, acompanhados da bola e da obrigação de retirá-la dali.

Tentaram sair pelo lado esquerdo, com a ajuda de Bernat, mas Sturaro e Lichtsteiner impediram. A bola voltou a Neuer, que a dominou dentro da pequena área, caçado por Mandzukic, e a fez chegar ao outro lado. Ainda dentro da grande área, Kimmich recebeu, fez um giro defensivo para evitar Mandzukic e devolveu a bola a Neuer. O goleiro a passou de primeira a Alaba, e nova tentativa pela esquerda foi feita, com Bernat. A Juventus repetiu a pressão, o Bayern repetiu a paciência. Bernat, Alaba, Neuer, Kimmich… da esquerda para a direita até que Mandzukic não estava mais tão próximo. (Uma parte da sequência está aqui, veja: https://twitter.com/DPY_PRODUCTIONS/status/710249740080959488)

Na transmissão da televisão inglesa, o comentarista se impacientou. “Isso é uma perda de tempo, você precisa levar a bola para frente…”, disse ele. Mas a torcida do Bayern não fez nenhuma objeção ao ver seu time trocando passes a poucos metros da linha de fundo, fazendo a bola passar duas vezes diante do próprio gol. Mesmo olhando para a eliminação que se aproximava, precisando desesperadamente de um gol para levar o jogo para a prorrogação, os torcedores alemães mostraram que compreendiam o que estava acontecendo. O time deles não entrega a bola ao adversário, por isso não reconhece a existência do que chamamos no Brasil de “chutão”. Independentemente da situação, a bola tem de viajar de pé em pé quando sai da defesa, e de preferência pelo chão. E assim foi, poucos minutos antes dos gols que empataram e viraram o jogo para 4 x 2.

A reação dos presentes à Allianz Arena é tão notável quanto a própria sequência de passes do Bayern, em um cenário em que quase todos os outros times do mundo enviariam a bola para longe, pelo alto, sem saber quando conseguiriam recuperá-la. Dirigidos por Pep Guardiola, um treinador obcecado pelo jogo coletivo e pela preservação da posse, os jogadores do Bayern “apenas” fizeram o que aprenderam e trabalham diariamente em treinamentos. O fato de não demonstrarem o mínimo sinal de pânico é um testemunho formidável da filosofia de futebol que praticam. Já a ausência de protestos vindos do lado de fora do campo sugere conhecimento, compreensão e apoio. É igualmente digno de aplausos.

CERTIDÃO

Ok, Guardiola e o Bayern são extremos radicais, e as vastas distâncias que separam o futebol brasileiro da elite do jogo transformam qualquer comparação direta em um exercício de injustiça. Mas a ausência quase completa de uma identidade – qualquer uma – em nossos clubes de futebol não incomoda a ninguém? A relação direta deste fato com a alta rotatividade de técnicos e o desprezo pelos trabalhos de médio prazo, ao menos, não é evidente? Quantos times brasileiros praticam um futebol em que elementos conceituais são reconhecíveis, de modo a constituir a maneira como essas equipes atuam? Três? Dois? A falta de uma estrutura coletiva a que se possa recorrer fica evidente nos jogos da Copa Libertadores, em que times brasileiros têm encontrado dificuldades diante de adversários com menos orçamento.



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