E QUE VIVA O FUTEBOL DE ATAQUE



 

Começando pelo intervalo.

Não, não será possível.

O que aconteceu antes não foi um “primeiro tempo perfeito” da Juventus no estádio do Bayern. Foi mais do que isso.

Não é necessário ser um mestre-estrategista para compreender a intenção dos italianos diante da perspectiva de muito sofrimento e poucas oportunidades. Também não é necessário ser um especialista no futebol daquele país para descobrir que este é exatamente o cenário em que uma equipe como a Juventus se torna mais perigosa, pois é o tipo de situação que evoca seu caráter e décadas de especialização (mais sobre isso adiante).

Uma parte do plano era proteger a área de Buffon da maneira mais inteligente para funcionar como as cordas de uma raquete de tênis, suportando as investidas do Bayern e devolvendo a bola a cada agressão. Outra parte era ser um estilingue para penalizar um time que é ousado a ponto de se posicionar quase que inteiramente no campo de ataque. A ocorrência de situações de um contra um é uma garantia e, com um pouco de sorte, você pode se ver sozinho diante de Neuer.

Eram nove jogadores divididos em duas linhas bem próximas, como duas redes de proteção. Pogba, Cuadrado e Morata representavam a ameaça do contragolpe, sem a qual a ideia primordialmente defensiva não faz sentido, pois a Juventus precisava de ao menos um gol.

É uma postura que tem mais a ver com sacrifício e concentração do que com diagramas, razão pela qual nem todos os times que a escolhem alcançam sucesso. A bola derruba sequências de números com efeito-dominó.

Mas havia uma terceira parte do plano de Allegri, algo que não se esperava que a Juventus fizesse pelo simples fato de… não ter feito: uma ou outra pressão sobre a saída do Bayern, de forma a incomodar e posicionar jogadores em uma região mais alta do campo, onde um desarme pode ser valioso.

O objetivo era ao menos um gol… e a Juventus conseguiu dois.

O primeiro foi um presente de Alaba e Neuer, logo aos cinco minutos, que Pogba agradeceu. Uma anomalia vista àquela altura como uma injeção de emoção ao confronto, tal era a impressão de favoritismo do Bayern.

O segundo foi uma preciosidade de Morata e Cuadrado. O espanhol se transformou momentaneamente em Messi, rasgando o campo e iludindo marcadores até oferecer o gol ao colombiano, que adicionou uma finta desconcertante em Lahm e uma finalização impecável.

Duas notas sobre o lance: 1) sua origem foi outro erro de Alaba, quase na área italiana, em uma das centenas de tentativas do Bayern de descosturar a defesa da Juventus. E 2) o Bayern talvez seja o único time do mundo que permite que um adversário carregue a bola de uma intermediária à outra sem ser tocado. A corrida de Morata teve momentos da jogada de Maradona para Caniggia em 1990, com a diferença de que Dunga tentou derrubá-lo ainda dentro do grande círculo.

A Juventus teve um gol anulado incorretamente – lance difícil para a arbitragem humana – por impedimento, e só não foi para o vestiário com 3 x 0 por que Neuer impediu outro gol de Cuadrado, aos 43 minutos. Ao final do primeiro tempo, o obituário do Bayern de Pep Guardiola já estava escrito por aqueles capazes de chamar de “fracasso” uma eliminação para o vice-campeão europeu, esquecendo-se, certamente, de que estamos falando de futebol.

Mas voltemos ao intervalo.

A configuração teórica para a sequência do jogo não poderia ser mais clara. O Bayern precisava de pelo menos dois gols (uma proposta altamente improvável, mesmo que o adversário fosse qualquer outro time desta Liga dos Campeões), portanto seria ainda mais ofensivo. A Juventus não precisava de mais nada, e ainda poderia sofrer um gol, por isso deveria ser ainda mais hermética.

O dilema de Guardiola era mental: ele poderia enviar mais jogadores ao ataque, ou introduzir mais jogo pelo centro, ou determinar que seu time insistisse em abrir o campo, mas o relógio representava o maior problema. Nenhum time é capaz de marcar dois gols em apenas uma jogada.

Para Allegri, a noite se desenrolava animadora: a Juventus tinha de aguentar mais 45 minutos, com o luxo de poder falhar uma vez.

Aqui é preciso abrir um parêntese. A maestria defensiva dos bons times italianos não é coincidência. Desde a era do catenaccio, é um item de série do futebol do país, enraizado na mentalidade dos técnicos e jogadores quase como um aspecto cultural. Sim, é um método trabalhado em treinamento e aperfeiçoado ao longo dos tempos. Mas, acima de tudo, é uma forma de competir que é natural a essas equipes, é como se sentem confortáveis.

Elas recuam profundamente, em um posicionamento sustentado com inabalável disciplina, sem o menor traço de pânico ou dúvida. Como um lutador de boxe encurralado nas cordas, desviando-se da sequência de golpes, convicto de que nenhum deles atingirá seu queixo.

Vencendo por 2 x 0, na casa de um adversário ultraofensivo, um time italiano não apenas acha que tem boas chances de prevalecer. Ele tem certeza absoluta de que prevalecerá.

Guardiola subiu uma marcha em ofensividade ao trocar Benatia por Bernat na volta para o segundo tempo, e ordenou o assalto final quando Alonso saiu para a entrada de Coman, no minuto 60. Sem zagueiros de ofício, o Bayern operava em formação de invasão do campo adversário, movendo a bola à procura de uma fresta, enquanto o tempo passava.

Está nos manuais do futebol que as melhores estratégias contra o acúmulo de jogadores na frente da área são o chute de fora e as jogadas pelos lados. Muitos times confundem a segunda ideia com bolas erguidas de regiões intermediárias, que favorecem a defesa por causa do posicionamento. É preciso desorganizar o adversário para que um ataque pelo alto dê frutos.

O gol de Lewandowski nasceu de uma inversão de Bernat para Coman, na ponta direita. O francês conseguiu superar um marcador quase na linha de fundo e deu um passe para trás, onde estava Douglas Costa. O cruzamento do brasileiro, com a bola fazendo a curva na direção da segunda trave, foi feito quando a defesa da Juventus se ajustava, e encontrou Lewandowski desmarcado.

O empate é um exemplo ainda melhor. Uma tentativa de triangulação pelo meio foi quebrada, a Juventus recuperou a posse, mas Vidal conseguiu roubar a bola de Evra e acionar Coman. A zaga italiana saía no momento em que a bola foi perdida e, em um evento raro até então, teve de defender um cruzamento correndo de frente para Buffon. Muller, minuto 91.

O time menos alemão da história do Bayern empatou o jogo com germânicos (usei essa frase em minha coluna no Lance! de hoje, queira perdoar) e o venceu na prorrogação como latinos, com a entrada de Thiago Alcântara. Foi ele quem recuperou a segunda bola de um cruzamento e tabelou com Muller na jogada do 3 x 2. Movimento de futebol de salão orquestrado pelo atacante alemão.

Coman cruzou o campo para fazer o quarto, quando as considerações póstumas ao futebol de ataque já tinham sido selecionadas e deletadas, e um jogo inesquecível estava decidido.



  • Silva

    André,

    Parabéns pela análise técnica e tática do grande jogo. Foi impressão minha ou Buffon deveria ter saído no lance do primeiro gol? O quarto Gol era defensável? A idade pesa, com a atual dinâmica de jogo, acho que até os Goleiros terão carreiras mais curtas.

    Abraços.

  • thiago

    textaço, mandou bem

  • Gabriel Gobeth

    Primoroso, André. Parabéns.

  • Nilton

    Foi impressão minha ou eu vi aquelas duas linhas de 4 e 5 na frente da área, se tornando uma de 9 jogadores em cima da linha da grande área.

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