COLUNA DA TERÇA



 

(publicada em 14/3/2016, no Lance!)

CUCA VERDE

Há uma história relativamente conhecida sobre o período de Cuca no Botafogo. O time estava desfigurado para um jogo fora de casa, sem seis ou sete titulares. Cuca seria obrigado a escalar jogadores inexperientes, em uma formação de emergência que não se conhecia bem e da qual não se poderia esperar muito. Investindo no aspecto motivacional, ele preparou uma surpresa para injetar espírito de luta no time: mandou um assistente a um açougue, para comprar um coração de boi.

A surpresa só foi revelada no vestiário, ao final da última conversa de Cuca com os jogadores. O frequente discurso sobre entrega e “coração” ganhou uma nova versão quando ele apanhou um saco plástico e tirou o órgão para mostrá-lo, com palavras inflamadas, aos atletas. Levado pela empolgação em uma atuação teatral para convencê-los, Cuca apertou o coração bovino com força exagerada, enquanto gritava que o time teria “de sangrar!” em campo. O sangue espirrou por acidente, sujando-o e tornando o espetáculo um pouco mais realista do que ele planejou. Houve quem se assustasse com a cena, certamente um efeito indesejado.

É fácil relacionar um episódio como esse ao comportamento de alguns times dirigidos por Cuca, motivados além da conta, à imagem de seu técnico. O perfil de treinador sanguíneo e emocional incomoda aos que entendem que a posição requer controle, da mesma forma que a serenidade de Oswaldo de Oliveira, por exemplo, molesta quem prefere uma postura mais eloquente na área técnica. Jogadores dirão que as diferentes personalidades de treinadores significam apenas maneiras distintas de comandar. O que se vê por noventa minutos, à frente do banco, é uma pequena parte de um trabalho cuja carga mais importante se dá na preparação.

De todo modo, a preleção do coração ensanguentado aconteceu há quase dez anos. O Santos, o Fluminense, o Flamengo, o Cruzeiro, o Atlético Mineiro e os chineses conheceram um profissional que, independentemente do nível de sucesso, prosseguiu em sua trajetória acumulando experiências que ensinam. O treinador passional, em essência, servirá bem ao Palmeiras pois se identificará com o clube e a coletividade, que compartilham essa característica. O exagero para a vitimização (palavra que talvez não exista, mas que descreve um comportamento real), no entanto, se somará a uma corrente que mais atrapalha do que ajuda.

Quem manda é o futebol, e nele, Cuca tem conhecimento e proposta. O título continental com o Atlético Mineiro, calcado no jogo ofensivo aparentemente descontrolado, na simbiose quase religiosa com a torcida que aprendeu a chorar de felicidade, e na conversão de Victor em uma entidade superior, é a fotografia mais importante da carreira de Cuca. Mas o Botafogo que iniciava partidas com a defesa de três, quatro meiocampistas e três atacantes extremamente móveis, produzia um futebol fluido, ofensivo, técnico e estético. Em jogo, é sua melhor obra.

É difícil prever como o Palmeiras jogará com Cuca. O elenco sugere um estilo mais direto, o que, quando treinado e executado apropriadamente, é muito diferente do que se viu com Marcelo Oliveira. E como acontece com todo trabalho que se inicia com a temporada em andamento, o imediatismo é uma ameaça poderosa. Para a decisão de quinta-feira, no Uruguai, há pouco mais a oferecer do que um coração não mão.

SENSIBILIDADE

Cenas tristes, porém belas, ontem em Dortmund (Alemanha), onde 81 mil pessoas ficaram em silêncio durante o jogo entre Borussia e Mainz, por causa da morte de um torcedor, por infarto. A colossal “Muralha Amarela”, a tribuna sul do estádio Signal-Iduna Park, onde cerca de 25 mil torcedores fazem o mais impressionante espetáculo do futebol, entoou “You will never walk alone”, desta vez como homenagem póstuma.



  • Caio

    Das coisas mais bonitas que eu vejo num estádio de futebol é , quando acontece, o absoluto respeito ao minuto de silêncio.
    Daqueles que se ouve o vento, eventualmente e no maximo mais um pássaro…

    Difícil homenagem melhor. Impossível respeito e educação maiores.

  • Gustavo

    Ainda bem que nos resta a Alemanha, André.

    É um refúgio onde podemos encontrar esses espetáculos de emoção e talento que antes enchiam nossos estádios.

    Abraço,

    Gustavo

  • Ricardo

    Gosto dos trabalhos e ‘estilo’ do Cuca. O time do SP campeão da Libertadores em 2005 foi ideia dele.

  • José Henrique

    Cuca quando o time dele perde, gosta de arrumar desculpas, culpar juízes, e dar soquinhos na mesa em entrevistas após derrotas. Ele nunca perde.

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