O ERRO FOI CRER



 

Há um aspecto simples no caso de doping de Maria Sharapova: uma substância proibida foi encontrada em seu sistema, por intermédio de um exame cujo resultado ela não contesta.

Pelas regras do esporte no qual ela construiu uma carreira de sucesso, Sharapova é culpada. Ela pode ser culpada por intenção ou por negligência, o que, à luz das regras, não faz diferença.

Mas faz diferença para as pessoas que acreditam na história que Sharapova contou em sua entrevista coletiva, segundo a qual, em linhas gerais, ela alegou desconhecer que um remédio que usava há dez anos havia entrado na lista de substâncias banidas para atletas profissionais.

Crer ou não crer é a linha que separa uma trapaceira de um ser humano passível de erros, como todos somos.

Ocorre que há pontos de interrogação no caso que Sharapova apresentou. Não são poucos e vem sendo, um a um, questionados por inconsistência ou “procedência duvidosa”:  a droga não é indicada para diabetes, o tratamento para problemas cardíacos é de quatro a seis semanas, o medicamento não foi aprovado para uso no país em que ela vive… Sharapova também disse não conhecer a palavra meldonium, que aparece na caixa do medicamento que ela assumiu utilizar.

Acima de tudo, há uma série de razões para um esportista incluir o meldonium em sua rotina de preparação: diminuição de ureia e lactato no sangue, melhora da economia de glicogênio (molécula que oferece energia para os músculos), aumento da capacidade aeróbica, melhora das funções cardíacas e da recuperação após períodos em carga máxima e sub-máxima de esforço.

A questão é que a substância é vetada desde janeiro de 2016, algo que não pode escapar à atenção de qualquer atleta e/ou das equipes que os acompanham.

O fato de ter convocado uma entrevista coletiva de interesse mundial e admitir que “cometeu um erro” tem sido visto como prova de coragem de Sharapova, uma leitura que esquece que ela teria de se manifestar de uma forma ou de outra. O resultado do exame evidentemente seria divulgado. Ela decidiu se antecipar.

No comportamento padrão de atletas flagrados, um ato de verdadeira coragem seria aparecer diante das câmeras e dizer: “O resultado está correto e aceito a punição. O esporte que escolhi me estimula a procurar todo e qualquer tipo de vantagem para vencer ou mesmo competir. Utilizei essa substância intencionalmente, para ganho de desempenho”.

Sem histórias, sem “mas…”, sem atenuantes.

O aspecto bem mais complicado do caso é ser mais um em que uma estrela do esporte se vê abandonada após ter, comprovadamente, infringido as regras.

Sharapova já sentiu a repercussão na imagem corporativa que ela representa, com a suspensão dos contratos de dois de seus principais patrocinadores. Um deles é a Nike, que quer se distanciar de uma atleta flagrada no controle de doping, mas não se preocupa em se manter associada a uma confederação de futebol com problemas com o FBI.

Um dos motores da indústria do esporte é a celebrização do sucesso. Marcas investem fortunas na exploração de vencedores, sem se importar com os métodos que utilizam para vencer. Quando o mundo conhece o lado obscuro dessas carreiras tão bem sucedidas, as mesmas marcas se apressam em desaparecer.

As empresas sempre podem dizer que não sabiam, repetindo, por incrível coincidência, o argumento dos atletas.

A maior crueldade do doping é parecer prevalente a ponto de sugerir a conclusão mais ignorante possível: a de que o correto seria liberar o uso, pois, já que todos estão “sujos”, pelo menos descobriríamos quem é o melhor.

Além do perigo fora do ambiente do esporte profissional (desde ontem, a procura de atletas amadores por meldonium certamente será muito lucrativa para seu fabricante), uma barbaridade como essa ignora como é o impacto de drogas no organismo humano.

Simplificando ao máximo: da mesma forma que um determinado remédio para dor de cabeça “funciona” para alguns e “não funciona” para outros, as drogas para ganho de desempenho têm ações distintas de pessoa para pessoa. Como o objetivo de usá-las é melhorar funções que o organismo executa, o resultado varia conforme a capacidade de cada organismo de “ser melhorado”. O benefício não é igual para todos e não traça uma “linha de justiça” em que o vencedor terá treinado mais, se sacrificado mais ou sido superior tecnicamente.

O doping não nivela a balança de forças, ao contrário: sempre haverá quem não se dopa por excesso de princípios ou ausência de condições, e por isso não consegue competir; há diferenças de orçamento que alteram as possibilidades; e mesmo para quem usa as mesmas substâncias, o ganho em desempenho é diferente.

Maria Sharapova é apenas a última estrela do esporte a emprestar seu rosto aos dramas inconfessáveis de uma indústria corrompida como são todas em que a competição, a vaidade e o dinheiro se revelam em altas quantidades.

Haverá quem acredite que ela apenas errou. Haverá quem duvide de sua sinceridade. E haverá quem ache que o erro foi ter sido pega.



  • Elcio

    E o seu erro é seguir seu pai, e ficar metendo o pau na CBF em qualquer post. Para que comparar o abandono da Nike a Sharapova com o patrociínio da CBF? Tudo em excesso enche o saco!

    AK: Eu responderia sua pergunta se você fosse uma criança querendo entender o mundo. Não me parece o caso.

  • Sidney

    Belo texto André, que Sharapova cumpra sua punição e que sirva de exemplo para que outros não cometam o mesmo erro.
    Também não consigo entender a postura da Nike, acho muito pior apoiar/financiar uma entidade problemática do que patrocinar um atleta que cometeu uma fraude,
    Um off topic: Teremos alguma cronica sobre a aposentadoria de Peyton Manning? Você que o acompanhou algumas vezes da sideline deve ter uma visão interessante sobre esse gênio.

    Abs

    • Felipe

      Espero ansiosamente por um texto sobre a aposentadoria de Peyton Manning. Certeza que se vier, será brilhante como sempre!
      Abs

  • Teobaldo

    No episódio Sharapova, apesar dos “mas…” bem citados por você, AK, a postura da moça foge dos padrões de, primeiro, negar e, segundo, culpar algo ou alguém. Enfim, foge dos padrões, o que já é positivo. Tenho uma dúvida: se determinado atleta necessita, para manter sua saúde equilibrada, de um remédio que contenha um componente entendido como proibido, ele fica alijado das competições? Um abraço!

    AK: Não. Ele tem que explicar seu problema para ser autorizado a usar a medicação. Um abraço.

    • Teobaldo

      Grato pela resposta.

      AK: A você, pela leitura. Um abraço.

  • José Henrique

    Com relação a postura da Nike, acho que antes de qualquer opinião deveríamos procurar saber sobre as cláusulas de um contrato, tanto com atletas como com pessoas jurídicas antes de condenar a empresa. Acho pouco sensatas críticas nesse caso.

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