PASSE BEM, DORIVAL



 

A avaliação de Dorival Júnior é uma declaração de intenções:

“Fiquei muito feliz com primeiro gol, trabalho de passe, quebra de primeira linha, aceleração, aquilo que trabalhamos toda semana. O trabalho qualificando passe vem sendo feito, com um ou outro chutão, mas vamos chegar no momento que nem sei isso vai acontecer. Equipe pode dar resposta ainda melhor que deu hoje.”

O técnico santista evidentemente se refere ao primeiro gol de seu time no clássico com o Corinthians, uma jogada que se desenvolveu de uma área à outra, de pé em pé, sempre pelo chão. E como em quase tudo o que acontece em campo, o resultado final é uma combinação das virtudes de um lado e dos defeitos do outro. Ou, melhor: dos defeitos defensivos provocados ou explorados pelas virtudes de quem tem a bola.

A jogada começa com o goleiro Vanderlei fazendo um passe para Renato, que está de frente para o próprio gol. A primeira vantagem para o Santos já se nota no instante em que o volante domina: os dois jogadores mais avançados do Corinthians, que estão ali para a pressão inicial sobre a bola, foram superados logo no primeiro passe (“quebra de primeira linha”).

A sequência evidencia o que talvez seja o mais grave erro de marcação do time de Tite: a liberdade concedida a Renato, muito semelhante ao que se deu com Lucas Lima, na jogada do primeiro gol do Santos no jogo de volta das oitavas de final da Copa do Brasil do ano passado.

Entre dominar, girar, avançar pelo próprio campo e dar o passe profundo, Renato desfrutou de 4 longos segundos (Lucas Lima teve ainda mais conforto em Itaquera: 6 segundos).

Quando Renato se aproxima do meio de campo, perseguido por um marcador, a última linha corintiana está subindo no sentido oposto, para diminuir o campo. Há quatro jogadores do Santos contra quatro defensores, uma situação comum que – ainda – não representa um problema. Dois movimentos, um provocado pelo outro, alteram dramaticamente o cenário: do lado direito, Gabriel recua aparentemente para se oferecer como opção, mas seu gesto é apenas um disfarce. A ideia é criar a dúvida na cabeça do lateral (Arana) e precipitar um erro de posicionamento que pode ser aproveitado.

Lembre-se: a jogada toda é treinada, não é fruto do acaso.

Arana avança para pressionar Gabriel, que se desloca para o centro. No momento em que a linha de quatro defensores se desestrutura, o Corinthians se vê em sérios problemas. Pois Lucas Lima (perfeitamente entre linhas) acelera para receber, em profundidade, o passe que Renato planejava fazer desde o começo do lance.

A defesa do Corinthians começa a correr de frente para o gol de Cássio, e o maior sinal de desequilíbrio se percebe do “lado fraco”, ou seja, onde a bola não está. Fagner tem de lidar com dois santistas, Serginho e Ricardo Oliveira, ambos mais avançados em relação a ele. É um dilema: Fagner precisa escolher um, o que é uma aposta sempre arriscada. Mas não escolhe nenhum, a pior decisão possível.

E o gol, que poderia ter saído no chute de Serginho, se oferece para Ricardo Oliveira, no rebote de Cássio.

Como diz César Luis Menotti, “o futebol é bola, espaço e engano”, frase exemplificada pela jogada do 1 x 0 na Vila Belmiro.

O engano é fatal porque se alimenta da questão de sobrevivência defensiva que é a necessidade de antecipação. Defesas lidam com a obrigação de fazer a leitura mais rápida possível do lance que se desenrola, enquanto ele se desenrola. Às vezes, um segundo permite um movimento que será a diferença entre um passe interceptado e um adversário em posição de mexer no placar.

É provável que, por trás do sucesso da jogada rápida que resultou no primeiro gol santista, haja a surpresa pela variação de ritmo. Até aquele momento, o Santos era um time trocador de passes. De repente, converteu-se em um velocista.

Esse jogo de gato e rato leva a tentativas de adivinhação tão perigosas quanto a capacidade de elaboração do time que tem a bola, uma situação que evidencia uma das vantagens do futebol de posse.

O Santos já era um time perigoso com a bola no ano passado, embora sua característica mais letal ficasse exposta quando Gabriel, Lucas Lima e Ricardo Oliveira abriam o campo de ataque e se deliciavam com o espaço para correr. A intenção de Dorival de fazer seu time controlar a posse é baseada nos melhores exemplos disponíveis, o Bayern e o Barcelona. O que obviamente não quer dizer que o plano é jogar como essas equipes, mas com esses conceitos.

A posse não é um objetivo, mas uma ferramenta. Uma ferramenta que estimula o desenvolvimento do jogo e o aprendizado individual e coletivo de um time de futebol. Equipes que têm a bola são equipes que pensam.

A manutenção do elenco do ano passado favorece o amadurecimento e o aperfeiçoamento de ideias. O Santos possui os jogadores para ser o que seu técnico deseja: um time de controle e de reação.

É uma combinação explosiva.



  • José Henrique

    Como o Corinthians perde muito pouco, é auspiciosa a aposta no jogador Alan Mineiro.
    Confesso que não esperava esse desempenho, principalmente em uma derrota.
    Assisti um trecho do jogo do Santos com o Red Bull, e ontem parecia que o Santos era o R.B. e o Corinthians o Santos. Até o placar foi igual.

  • RENATO77

    O gramado da vila foi molhado antes e no intervalo da partida. O escorregão de Yago no terceiro gol foi consequência dessa artimanha…ah, se fosse em Itaquera…

    kkkkkk…brincadeiras a parte, também vejo potencial nessa equipe do SFC.
    A questão é se Lucas Lima não sai na janela do meio do ano. Peça fundamental nesse time, tá sobrando no futebol brasileiro.
    Quanto ao SCCP, o segundo tempo deu uma certa esperança para um futuro próximo. No momento, o SFC é melhor.
    Abraço.

    • RENATO77

      Corrigindo….segundo gol….rsrsrs..

    • Marco

      Vale lembrar que em Itaquera, no jogo da volta da Copa do BR, o gramado estava muito mais molhado do que neste domingo… Essa “artimanha” também é usada, e muito, pelo SCCP e por muitos outros times…

      • RENATO77

        man, eu estava sendo ironico…rsrs….isso acontece em varios outros gramados…

  • João Henrique Levada

    Obrigado e parabéns por mais um excelente texto, André.

    Trabalho bem feito.

  • JOAQUIM DOMINGUES

    Quero ver o Santos tocar bola no meio campo e atacar sempre . se o Renato não tiver folego. para faze-lo que saia do time. DORIVAL E TREINADOR MEDROSO.

    • Leveny

      Quem toca não precisa correr, o que precisa correr é a bola.

      AK: Conceito absolutamente ultrapassado. Falsa verdade.

  • Gustavo

    Excelente texto, mais uma vez!

    Como santista, fico contente de ver que o Dorival busca implantar os conceitos mais modernos do futebol no Santos. No entanto, ainda vejo algumas lacunas a serem preenchidas para tal.

    Você não acha que para implementar esse conceito de controle jogo, assim como fazem Bayern e Barcelona, é necessário ter zagueiros com bom passe e mais técnicos do que os zagueiros santistas? Assistindo jogos das equipes européias citadas, vejo que os zagueiro participam com frequência do trabalho de circulação de bola no meio campo e da saída de bola da defesa para o ataque.

    Outra deficiência que vejo é a equipe do Santos muito espaçada em campo para implementar tal conceito com eficiência.
    Repare que quando o Santos ataca, os zagueiros permanecem na intermediária defensiva, quando poderiam avançar à linha que divide o gramado. E os volantes permanecem na linha que divide o gramado, quando poderiam avançar na intermediária de ataque para sufocar o rival. A retomada de bola imediata e no campo de ataque é essencial para impor o controle de posse.

    Abraço

    AK: Os conceitos só serão amadurecidos com os jogadores e os treinamentos certos. Mas nada acontecerá sem as ideias. Um abraço.

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