COLUNA DOMINICAL



(publicada em 5/3/2016, no Lance!)

ROTEIRO

Na sequência final de “Dia de Treinamento”, há uma cena tensa no bairro de Los Angeles em que Alonzo (Denzel Washington) dá ordens como policial corrupto. Ele sai de seu carro, ferido após um acidente, certo de que conseguirá falar mais alto do que Jake (Ethan Hawke), o parceiro que se recusou a ser corrompido, e se safar com o milhão de dólares que deve para os russos. Afinal, ele sempre foi a lei naquela vizinhança, onde usa o medo para governar.

Mas a situação era diferente. A gangue local tinha desistido de matar Jake, a mando de Alonzo, após descobrir que ele salvou a prima de um deles de ser estuprada. O poder de Alonzo sangrava como seus ferimentos, embora ele ainda acreditasse que tudo ficaria do mesmo jeito. Na rua, com a gangue em volta deles, e com as senhoras e as crianças assistindo a tudo da calçada e das janelas das casas, Jake aponta a arma para Alonzo e lhe dá voz de prisão.

O momento que toda a vizinhança esperava havia chegado, o fim do reinado de um policial bandido. Mas Alonzo, confiante, desafia Jake a atirar nele, lembrando-o do que acontece com quem mata um oficial da lei. Jake não se mexe. Sentindo-se no controle, Alonzo ordena a gangue a matar o parceiro. Um dos membros pega um revólver, aproxima-se, olha para os dois e coloca a arma no chão. Alonzo deve se virar sozinho, ele diz. Incrédulo, mas ainda prepotente, Alonzo anuncia que vai pegar o revólver, o dinheiro, e Jake não fará nada. Ele se abaixa para recolher a arma, mas, antes de tocá-la, Jake lhe dá um tiro nas nádegas.

Alonzo finalmente nota que está em apuros. Pede que Jake lhe dê o dinheiro e o deixe ir embora. Jake arranca o distintivo pendurado no pescoço do parceiro e diz que Alonzo não o merece, quando o mesmo membro da gangue apanha o revólver no chão. Jake pode ir embora, ele diz, apontando a arma para a cabeça de Alonzo. Enquanto Jake se afasta, Alonzo grita seu nome, em vão. Então ele direciona sua ira para aqueles que sempre o obedeceram, em uma tentativa desesperada de ameaçá-los uma vez mais. “Vocês acham que podem fazer isso comigo?! Vocês, desgraçados, estarão jogando basquete na prisão quando eu terminar com vocês!”, ele grita. “Com quem vocês acham que estão se metendo? Eu mando aqui! Vocês só vivem aqui!”.

A gangue lhe vira as costas. As senhoras balançam a cabeça. Alonzo acende mais um cigarro, falando sozinho: “Eu ganho, eu ganho de qualquer jeito. Eu não posso perder”. Pelo vão da porta de uma das casas, ele vê Sara (Eva Mendes) levar seu filho para dentro, em uma simbólica imagem de reprovação. Alonzo está acabado, e sabe disso. Resta-lhe apenas o orgulho suficiente para sair dali, onde sua presença não é desejada, onde sua conduta não é bem vinda, onde as pessoas não querem mais ter de lidar com ele. Depois de anos de autoritarismo e manutenção de poder, seu tempo acabou.

Uma cena como essa, com o mesmo nível de tensão, está acontecendo no futebol brasileiro. Diante da postura dos clubes da Primeira Liga, Flamengo à frente, a CBF já chegou ao estágio das ameaças. Quem fará o papel do membro da gangue, colocará a arma no chão, e avisará a confederação que ela está sozinha?

TRANSFORMADOR

Se o jogo contra o Rosario Central fez diferença para a situação empregatícia de Marcelo Oliveira, o técnico do Palmeiras – mas não só ele, claro – está em dívida com Fernando Prass. E, frise-se, a dívida não foi contraída apenas nesta semana. Com atuações como a da noite de quinta-feira, e como a da decisão da última Copa do Brasil, Prass está assumindo um papel reservado aos goleiros históricos, aqueles de quem se espera a capacidade não de fazer defesas importantes em jogos decisivos, mas de salvar o time quando necessário. Se o segundo tempo do Palmeiras contra os argentinos deveria ser mais revelador do que o resultado do encontro, Prass manteve Marcelo empregado e o time em boa posição na Libertadores.



  • Marcelo Santos

    Excelente filme, com sequências tensas e ótimas interpretações. Torcemos para que os ventos de mudança estejam chegando ao esporte nacional, André.

  • Paulo Pinheiro

    André, desculpa o off-topic, mas gostaria de ver sua opinião (aqui ou em outra coluna) sobre a justificativa do Dunga pra não convocar mais o Jefferson.
    Sobre o assunto agora: a Liga precisa de mais tempo pra dar o soco na mesa. O torneio é incipiente e é preciso ter a confirmação do bom apoio que recebeu nas primeiras rodadas. Deixa o torneio terminar, um balanço ser feito pra se ter uma idéia da força da Liga. Se o torneio é lucrativo outros clubes brasileiros vão querer aderir e isso vai isolar a CBF (se esta não quiser ser parceira, claro).

  • João Henrique Levada

    Um bem humorado amigo palmeirense disse: Fosse Prass goleiro da Seleção na Copa, Brasil teria vencido a Alemanha por 1 x 0.

  • Anna

    Ótima analogia com Dia de Treinamento! Filme que deu o Oscar a Denzel Washington! Grande abraço, Anna.

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