COLUNA DA TERÇA



(publicada em 29/02/2016, no Lance!)

INÉDITO

É possível gostar de esporte e não gostar de basquete? Os monoesportivos dirão que sim. É possível gostar de basquete e não gostar da NBA? Aí é um pouco mais difícil, mas há quem veja a liga profissional norte-americana como uma espécie de Hollywood do esporte, um ambiente em que o espetáculo tem mais importância do que o encontro competitivo entre dois times.

Seja como for, e independentemente do motivo, se você não tem o hábito de acompanhar os jogos da NBA, o momento para começar é agora. Um rapaz chamado Stephen Curry tem boas possibilidades de convencê-lo em apenas alguns minutos. Curry é um jogador como a NBA nunca viu, e está fazendo coisas que ninguém jamais fez. Nesta temporada, que ainda tem cerca de quarenta e cinco dias até o início dos playoffs, ele não apenas está revolucionando o jogo por ser frequentemente melhor do que qualquer outro, mas por nos fazer crer em atuações impossíveis.

Curry protagonizou um momento inevitável na noite de anteontem. Seu time, o Golden State Warriors, disputava a prorrogação contra o Oklahoma City Thunder, com o placar empatado em 118 a 118. Os Warriors pegaram um rebote defensivo e Curry recebeu a bola do lado esquerdo de sua própria quadra, quando faltavam cinco segundos no cronômetro. Ele a levou ao ataque, parou e converteu um arremesso de três pontos. Quando a bola atravessou o aro, restavam seis décimos de segundo e o jogo estava decidido.

Encontros vencidos no expirar do tempo são comuns no basquete, razão pela qual se costuma dizer que é um jogo que “não acaba nem mesmo quando termina”. O que diferencia a forma como Curry encerrou a noite contra o Thunder é o local de onde ele arremessou a bola decisiva. Na NBA, a linha de três pontos fica a 7,2 metros da cesta em seu ponto mais distante. O tiro de Curry partiu de 9,7 metros. Sim, ele estava 2,5 metros antes da linha quando soltou a bola, e o fez porque quis. Esse tipo de arremesso, que podemos classificar como “da linha de cinco pontos”, lhe é cada vez mais natural. Uma anomalia executada com treino e confiança, uma ameaça para a qual as defesas não estão preparadas.

Curry é o melhor arremessador de três pontos que já vestiu um uniforme da NBA. No jogo de sábado, em que acertou DOZE (em dezesseis tentativas), ele estabeleceu o novo recorde de tiros desse tipo em uma temporada: 288, e ainda faltam vinte e quatro jogos. Na lista dos cinco jogadores que mais converteram arremessos de três no mesmo campeonato, Curry é o primeiro, o segundo e o terceiro. Sua mecânica particular, que vai do ato de bater a bola ao de arremessar em um movimento fluido e rapidíssimo, o converte em uma máquina de acertos em série. O arremesso de três pontos “convencional” é um gesto automático, que não parece lhe exigir o menor esforço. Agora, ele o converte de distâncias inéditas, criando um dilema para seu marcador.

O melhor é que Stephen Curry não está sozinho. O Golden State Warriors pratica um basquete coletivo exuberante, a caminho do segundo título consecutivo na NBA. O time californiano faz uma campanha sensacional, na qual venceu cinquenta e três jogos e só perdeu cinco, um ritmo que ameaça o melhor desempenho da história da liga. O Chicago Bulls da temporada 1995-96 – um time formidável, liderado por Michael Jordan e que tinha Steve Kerr, hoje técnico de Golden State, no elenco – somou setenta e duas vitórias e dez derrotas. Ver os Warriors é mais ou menos como ver o Barcelona. Curry não decepciona no papel de Lionel Messi.

A NBA está na televisão e pode estar na tela do seu computador, tablet ou telefone. As rodadas acontecem em praticamente todas as noites, e embora o fuso-horário imponha um desafio razoável, os jogos do Golden State Warriors costumam recompensar o esforço (ainda que seja difícil dormir depois de ver certas coisas). Poucos minutos de Stephen Curry e você se tornará um crente.



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