MESSI E OS QUILÔMETROS



O trecho em destaque abaixo faz parte da coluna de Tostão, publicada ontem na Folha de S. Paulo. Com sua habitual sabedoria, ele propõe uma questão sobre as atuações de Lionel Messi sob o aspecto da quilometragem percorrida:

Segundo as estatísticas, Messi foi o jogador que menos correu na vitória do Barcelona sobre o Arsenal. Foi também o melhor. Ele não foi o melhor porque correu menos, mas seria o fato um indicativo de sua sabedoria, de não perder tempo com o que não é importante? Ou seria uma deficiência técnica, por não voltar para marcar pela direita, não recompor, a palavra da moda, uma exigência de todos os treinadores? Recompor é preciso. Saber jogar bem não é preciso.

Não existe dúvida sobre a importância de correr no futebol de hoje. “Conceitos” como “quem tem que correr é a bola” não se aplicam à ideia de jogo em que equipes estão em constante movimento, idealmente como um corpo único que se molda às necessidades que se apresentam, às dificuldades impostas pelos adversários e aos próprios objetivos.

Mas como diz Juan Riquelme, com autoridade concedida pelo futebol raro que ele oferecia, “Correr, qualquer um corre. Jogar futebol é mais complicado”.  A questão é correr “certo”, o que depende de uma equação que envolve obrigações coletivas e características individuais. Também depende do que cada jogador é capaz de fazer.

Quando Tostão escreve sobre Messi “não perder tempo com o que não é importante”, ele está – uma vez mais – correto. Mas não é só isso. Messi pertence à classe de jogadores de futebol que também são ilusionistas. Aqueles que “não estão, mas estão”. A impressão de desinteresse ou ausência é equivocada, e até o fato de economizar energia para utilizá-la no momento adequado não explica tudo. Quando Messi parece não estar envolvido, ele está jogando a seu modo.

Note como são raros os gols de Messi nos minutos iniciais de partidas. Seu jogo tem fases, e a primeira delas é acessar a forma como o adversário está posicionado, à procura de informações sobre como pretende lidar com ele. É uma leitura que exige um período de observação, no qual o “não está, mas está” é mais evidente. Ao longo do jogo, Messi volta a avaliar as condições, analisa o que acontece em campo e toma decisões. A cada vez que se dedica a esse diagnóstico, é óbvio que ele não está correndo.

Abaixo, publico um registro compartilhado pelo treinador espanhol Enric Soriano, em seu perfil (@EnricSoriano_) no Twitter. São as palavras do preparador físico Lorenzo Buenaventura, auxiliar de Pep Guardiola, que conhece Messi profundamente. Trata-se de um trecho da participação dele em um congresso de técnicos realizado em junho do ano passado. Buenaventura relembra a semifinal da Liga dos Campeões em que o Barcelona eliminou o Bayern. Naquele jogo, Messi correu “apenas”  8 quilômetros, metragem semelhante à do jogo da semana passada contra o Arsenal, que Tostão menciona em sua coluna.


O último parágrafo é o mais importante. Para quem não está familiarizado com o espanhol, a tradução:

Como convida seu corpo a jogar? Caminhando, porque caminhando olha, para e diz: ‘agora vai acontecer isso’. Nós, os demais, ainda não vimos, faltam 30 segundos para que aconteça. Porra, a um cara que todos os times marcam com ajuda, que, às vezes, é marcado quando chega em uma área com um, dois ou três, se podemos, e que tem mais de 400 gols oficiais em todas as competições em 10 anos, queremos modificar o consumo de oxigênio porque um iluminado disse que [o problema] é que corre 8 km? Estamos loucos, hein, estamos loucos.



  • Fabio Sosa

    André, tenho observado que por mais que se fale de Messi, considero o conteudo pouco para a grandeza deste divino jogador. Como joga futebol, sua inteligencia, sua destreza, sua destreza, tudo isso que vemos ele praticar nos inquieta. Ao mesmo tempo que fico boquiaberto, passo a pesquisar textos pela internet que traduzam o que vejo, o que assisto, o que sinto. Um atleta como ele, compleição fisica atípica para o perfil de sua grandeza, pequeno, aparentemente lento e letal, imprimindo grande energia em seus arremates, suscita analises, conversas, divagações. Esta com mais de 500 gols marcados, uma marca fabulosa, porém o que mais chama atenção não é esta espuma toda, que são seus recordes, e sim sua forma de jogar este esporte, de ver e responder aos estimulos, de nos surpreender quando imaginamos que não mais poderá fazer nada para mudar o resultado. São nestes momentos que nos supreendemos e nos perguntamos, quem é este jogador, o que pode ser, o que fará, o que significa isto que faz em campo que não compreendemos? Muitas vezes recorro ao seu blog em busca de respostas. Visito o Tostão costumeiramente e percebo que todos estão deglutindo sua dimensão. O futebol não será mais o mesmo após sua passagem, ele marca sua história no esporte. A propósito, seu texto, pra variar um pouco, brilhante. Eis então o enigma a ser desvendado, até aonde poderá seguir com esta magia, Lionel Messi?

  • Paulo Pinheiro

    Alguém falou “Romário”? rsrs

    O baixinho também era desses que parecia desligado do jogo e de repente dava aquele arranque mortal.

  • José Henrique

    Dino Sani, volante da seleção disse ao treinador que havia pedido que ele se preocupasse em marcar determinado jogador:” Professor, desculpe, acho que ele deve se preocupar em me marcar”. Existem jogadores que devem marcar, e os que devem ser marcados. Os craques são esses últimos. Hoje Messi com certeza é o maior jogador em atividade. Conta com companheiros espetaculares no Barça que completam “um acorde musical” harmonicamente perfeito. Na seleção argentina isso não acontece. Quando Messi parar, provavelmente acontecerá o mesmo que Ronaldo. Se formos no YouTube e procurarmos vídeos do fenômeno, não gols, mas jogadas, veremos que foi tão espetacular quanto Messi. A diferença é que Messi é o hoje. Quem viu Pelé sabe o que é isso. A impressão que se tem é que, os adversários saem da frente quando eles avançam para o gol. Craques que armam jogadas, como Riquelme, Zidane, Rivelino, Ademir da Guia, etc ficam na história pela genialidade e estilo. Já, Pelé Ronaldo e Messi ficam na história pela objetividade ofensiva e o gol. Como diz apropriadamente essa postagem, esses entram no jogo “pensando” os caminhos possíveis para o êxtase final, o gol. Na linguagem de alguns treinadores do passado, eram aqueles que estavam sempre com o “gatilho armado” . Sempre.

  • marcus

    mais uma coluna genial. DE altíssimo nível.A partir dela, dá pra fazer vairas reflexões. Uma que venho fazendo há tempos, André – não sei se concorda – é que saímos de uma fase em que os números eram subestimados, para uma fase em que, por não serem lidos com contexto e análise séria e profunda, estão superestimados e, mais que isso, causando conclusões erradas.

    Falo especialmente do Brasil.

    Hoje é comum nas redes sociais e, pior, jornalistas de renome, avaliarem jogadores e times apenas por números. Especialmente no caso dos atletas, só se lê isso: “X tem y gols e Y assistencias”. E a partir daí o jornalista tira conlusões sobre o desempenho do jogador.

    Com base apenas em gols e assistências se compara Ronaldo com MEssi. MEssi é muito superior ao portugues, mas o numero de gols impressionante do portugues traz comparações sobre a qualidade dos odis que, pra mim isso é óbvio, estão em patamar difereente da história.

    Esse é apenas um exemplo.

    Kaka foi importantissimo no São Paulo, Iniesta é um craque e importantissimo na dinamica coletiva do Barcelona…mas já vi jkornalista menosprezarem seus talentos e importancia usando os malfadados núemros – sem contexto – como se futebol fosse apenas marcar gols e o ultimo passe: “Quantas assistencias deu Iniesta? Quantos gols fez? e Kaka?”. Como se o jogo e a dinamica do jogo não fossem muito maior que isso, como se controlar o jogo, o tempo dos movimentos, a posse, dentre outros elementos, também não fossem importantes ou até, diria eu, mais importantes, a depender da partida ou do time. Xavi era importantissimo pro Barcelona do Guardiola, para controlar o tempo das ações e o controle da partida, assim como Iniesta. e não preciso ver numeros pra saber isso e talvez até os numeros mascarem isso.

    Está se misturando análise qualitativa com análise auntitativa cada vez mais. Saímos, no Brasil, da ausência de dados estatisticos nas análises para a superestimação e a analise sem contexto dos numeros.

    textos como o seu fogem desse lugar comum.

  • M. Silva

    “Note como são raros os gols de Messi nos minutos iniciais de partidas”, muito bem observado e argumentado.

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