COLUNA DOMINICAL



(publicada em 27/2/2016, no Lance!)

ANTICLÍMAX

A suspeita – ou, melhor, a torcida – durou até o final do discurso de Gianni Infantino, o novo presidente da mesma Fifa de sempre. Não era uma expectativa sobre o que o suíço de 45 anos, ex-mão direita de Michel Platini, diria ao ser empossado. Mas uma espera pelo momento em que mais um congresso da Fifa produziria manchetes policiais, ao ser interrompido por uma ação do FBI.

Imagine. O presidente eleito ao microfone, jogando palavras ao vento, quando um tumulto no auditório chama a atenção de todos os presentes. Simultaneamente, em pontos diferentes do local, corruptos do futebol ouvem a frase que mais temem: “O senhor terá de vir conosco”. Infantino encerra o congresso sem terminar sua fala, tweets dos jornalistas in loco nos informam sobre quem se tornou hóspede do governo suíço, a repercussão da eleição é substituída pela notícia da terceira operação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos em busca de cartolas da Fifa.

Seria uma ação espetacular. Todos os alvos reunidos, como produtos em um supermercado. Era só procurar, encontrar e levar. As manhãs de calmaria na recepção do já lendário Baur Au Lac foram motivo de alívio para certas figuras que passam o tempo calculando “o que será que sabem a meu respeito?”, mas, ao mesmo tempo, poderiam indicar que algo maior estava prestes a acontecer. Não aconteceu. Lençóis foram usados apenas como roupa de cama. Nenhum dirigente teve de sair apressadamente para o aeroporto, deixando até de votar. O Congresso Extraordinário da Fifa terminou de maneira surpreendente: ninguém foi preso.

A Fifa é uma organização tão particular que seu processo eleitoral é tudo o que se pode imaginar, menos um processo eleitoral. Aqueles que têm o poder de determinar o vencedor passam os dias anteriores ao pleito tentando descobrir quem será, em uma atitude de defesa dos próprios interesses: votar em quem perdeu é garantia de problemas futuros com quem ganhou. Quando essa “pesquisa de intenção de voto” indica um panorama claro, começam as negociações com quem tem mais chances. Mas não há nenhum motivo para que essas conversas sejam sinceras, porque a próxima conversa sempre pode ser mais interessante. O sistema de voto secreto e depositado em urna é um convite a acordos desfeitos e/ou traições. A “casa do futebol” – expressão de Joseph Blatter – escolhe seus chefes em clima de total desconfiança.

Gianni Infantino não fará o trabalho necessário, mas, ao menos, tem o nome limpo. Sua eleição é um efeito colateral das investigações dos americanos e do próprio governo suíço. Se o misterioso pagamento de Blatter a Michel Platini não emergisse, o ex-presidente da Uefa, hoje banido, teria completado ontem seu projeto político de poder no futebol. Quando a contagem de votos do segundo turno escolheu Infantino, Platini olhou para o céu – ou para o chão – e ponderou o “quase” mais doloroso de sua carreira. O sentimento veio acompanhado de uma sensação comum atualmente na CBF: a de quem chega à festa depois que a comida acabou e a música parou de tocar.

Volte logo, FBI.

“PROJETO”

Durante um trecho do Campeonato Brasileiro do ano passado, o Sport, dirigido por Eduardo Baptista, era o time que jogava o futebol mais coletivo do país. Baptista não chegou nem perto de algo parecido no Fluminense, mas teve seu trabalho interrompido muito antes do tempo mínimo necessário para que fosse avaliado. É curioso perceber que o campeonato estadual, tratado – com razão – pelo comando do Fluminense como um torneio de mínima importância, tem impacto suficiente para demitir um técnico. Que o próximo clube que contratar Eduardo Baptista o faça pelos motivos certos, para não demiti-lo pelos motivos errados. Que ele se recoloque em um ambiente onde suas ideias sejam valorizadas e protegidas.

MINIONS

A negativa da CBF ao pedido do Flamengo de jogar em Brasília durante o Campeonato Brasileiro soa como represália por causa da Primeira Liga. É de uma pequenez constrangedora.



  • José Henrique

    Incrível como os torcedores cariocas abandonaram de vez os seus times. André, você tem explicações para isso? O Flamengo procurando estádios fora do estado para jogar vai acabar perdendo até o Murici, que já afirmou que não gosta disso.

  • Fabio

    André, sobre CBF x Flamengo: pelo que entendi do regulamento a CBF não pode autorizar a troca de mando para outro estado sem a anuência de “todos os envolvidos”, incluindo as federações e os clubes que seriam visitantes. Concordo que CBF e FERJ não tem nenhum interesse em autorizar a troca, e provavelmente a vetarão, mas o Flamengo não teria que antecipadamente consultar (e obter aprovação) dos outros clubes?

    • José Henrique

      Fábio. À distância parece que o Flamengo perdeu o rumo, e a Ferj idem.

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