COLUNA DA TERÇA



(publicada em 22/02/2016, no Lance!)

“MILIONÁRIOS MIMADOS”

De todas as esferas que dificultam o avanço do futebol no Brasil, a classe dirigente é a que necessita de reciclagem mais urgente. A estrutura de poder dos clubes continua produzindo figuras despreparadas para a gigantesca missão que as aguarda, com três perfis básicos: o cartola, novo ou conhecido, que representa um grupo político e significa a manutenção do fisiologismo; o mecenas, que utiliza sua fortuna pessoal para se tornar dono da instituição; e o ex-atleta, que empresta sua imagem a um discurso pretensamente transformador e se revela um engodo, por fraqueza ou falta de princípios. Nenhum deles chega à posição de comando por formação, capacidade ou pela visão correta de como um clube deve ser administrado. E o carrossel segue girando.

Deixando de lado, por um momento, o cartola predatório que lesa o clube ao utilizá-lo para o próprio enriquecimento, um dos maiores dramas da gestão do futebol brasileiro é a maneira como se lida com jogadores. A imagem de milionários mimados serve a quem não se interessa por compreender o mundo dos atletas que representam o clube, e, especialmente quando as coisas vão mal, aqueles que deveriam mostrar o caminho são os primeiros a perder a compostura. O caso do assessor da presidência do São Paulo, que criou um problema interno ao se manifestar de maneira inapropriada em uma rede antissocial, é apenas mais um exemplo que ajuda a explicar o atraso.

O noticiário da semana passada revelou a reação de Rodrigo Gaspar à derrota do São Paulo para o The Strongest, na estreia na Copa Libertadores. O assessor do presidente Leco usou seu perfil no Twitter para chamar futebolistas do clube de “erva daninha”, “piada”, e “jogador de condomínio”. A um deles, Gaspar dedicou uma análise de perfil comportamental que costuma ficar a cargo de profissionais da área da psicologia: “fraco de personalidade”. O assessor-torcedor – ou o inverso, como queira – ainda reclamou de pessoas que “fazem mal ao ambiente do clube”, certamente convicto de que suas manifestações teriam um extraordinário efeito benéfico. No dia seguinte, as mensagens foram apagadas e atribuídas à irritação do torcedor, não do assessor. Claro.

Mas o recado estava enviado, com os nomes dos destinatários, para que não houvesse dúvida. O que autoriza a suposição de que esses surtos não são o que parecem ser. Assim como entre torcedores, e certamente entre jornalistas, no ambiente da gestão do futebol existe a crença de que há momentos que pedem uma repreensão pública direcionada. O “por amor ou por terror” tem várias facetas, e os milionários mimados precisam de corretivos para dar valor à vida que levam. A falta de capacitação para entendê-los e de sensibilidade para abordá-los torna mais fácil terceirizar o problema, evocando a pressão popular. Nada vem mais a calhar do que um funcionário da diretoria do clube sucumbindo à paixão.

Do tapa em Edílson no estacionamento do Parque São Jorge, às pedras que voaram na direção dos carros dos jogadores na Academia de Futebol do Palmeiras, às pipocas distribuídas no Centro de Treinamento do São Paulo, às “reuniões” de líderes de torcidas organizadas com elencos de todos os grandes clubes brasileiros, sem exceção, dirigentes se escondem atrás da própria incompetência e corrompem a relação com os atletas que deveriam proteger e liderar. Alguns ainda têm a coragem de criticar a postura dos jogadores em campo, embora lhes falte a mínima condição para fazer qualquer tipo de avaliação.

Rodrigo Caio, o zagueiro chamado de “jogador de condomínio… fraco de futebol e de personalidade” pelo assessor da presidência do São Paulo, destaca-se pela correção. Juan Carlos Osorio dizia que ele tem a conduta de jogadores de rúgbi, esporte em que prevalece o respeito pelo jogo, pelas regras e adversários. Foi dele o gol da vitória de ontem sobre o Rio Claro. Haverá quem pense que a bronca surtiu efeito.



  • Paulo Pinheiro

    Se o SPFC não estiver mais interessado no Rodrigo Caio envia ele lá pra Gávea que nós estamos precisando urgente de um zagueiro com a categoria e o caráter dele!
    Acredito que existam também jogadores “mimados” (milionários???), mas como você bem frisou, é preciso saber LIDERAR. De “chefe” o mundo está cheio. Líderes são poucos.

  • José Henrique

    Acho que poderiam fazer um estágio no SCCP. O ano inteiro o MCP, criticando o clube por atrasos no direito de imagem. Final da história. Time campeão brasileiro, jogadores valorizados e vendidos com dinheiro em caixa no clube. Se o sucesso não foi por boa gestão de problemas acho que MCP deveria rever seus conceitos e criticas seletivas.

    • José Henrique

      Tudo isso sem contar que o Corinthians é o clube com mais “torcedores quinta-colunas” na imprensa esportiva.

  • José Henrique

    SPFC, consegue a façanha de levar 3.500 torcedores a um jogo de seu time. E, reclamam de divisão de cotas. Fim da picada.

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