COLUNA DOMINICAL



(publicada em 20/02/2016, no Lance!)

CONSCIÊNCIA

O assunto foi oportunamente sugerido por Gustavo Hofman, comentarista da ESPN, a propósito do que houve com Cássio, durante Cobresal x Corinthians: o futebol precisa agir com relação às concussões. Os traumas na cabeça estão entre os riscos inerentes ao jogo, assim como ocorre em modalidades como o rúgbi e o futebol americano (sem falar, é claro, nas lutas, em que os golpes não são consequência, mas objetivo).

O atendimento ao goleiro corintiano – que levou uma joelhada de Yago no lado esquerdo do rosto ao mergulhar para defender um cruzamento, e perdeu a consciência – foi similar ao que se dá nesse tipo de caso no nível mais alto do futebol brasileiro. Examinado, Cássio foi responsivo e permaneceu em campo, sem revelar sinais aparentes de uma repercussão mais grave da pancada que sofreu. A questão é que o exame que se faz normalmente, durante os jogos, pode não ser suficiente para identificar se o jogador sofreu uma concussão cerebral, uma lesão de gravidade extrema.

A CBF traduziu um documento internacional (Concussion Recognition Tool, Ferramenta para Reconhecimento de Concussão, usado em diversos esportes) e o encaminhou aos clubes como orientação de procedimento. No site da entidade, uma nota de 28 de agosto de 2015 informa sobre as recomendações, entre elas a possibilidade de solicitação, pelo médico, de uma paralisação de três minutos para que o jogador seja avaliado conforme o que determina o protocolo.

O exame é dividido em três etapas: 1) Indicativos visuais para reconhecimento de concussão, 2) Sinais e sintomas para suspeita de concussão, e 3) Avaliação da memória. Nas primeiras duas etapas, a presença de apenas um dos sintomas descritos basta para aumentar a suspeita de concussão. Na terceira, qualquer resposta errada em um questionário sugere a concussão. “Perda de consciência”, e “ficar deitado no chão sem se mover”, dois eventos percebidos no caso de Cássio, estão entre os sinais que deveriam levar à imediata substituição do jogador.

Existem trabalhos em curso no futebol brasileiro para que os riscos de concussão sejam avaliados de maneira mais rigorosa. No Campeonato Inglês, por exemplo, a substituição de um jogador que ficou inconsciente após um trauma na cabeça é obrigatória. O problema é que tais esforços de nada adiantarão se não forem levados para o campo imediatamente, com um agravante que precisa ser considerado: a paralisação de três minutos para o exame não está de acordo com o que se pratica na liga esportiva que mais lida com concussões. Como detalhamos em texto publicado neste Lance! em agosto de 2014 (http://blogs.lance.com.br/andrekfouri/2014/08/08/camisa-12-203/), a NFL determina que o tempo necessário para identificar uma concussão se estima entre oito e doze minutos.

O futebol não pode ignorar a urgência do assunto, um risco para atletas em atividade e, principalmente, para ex-jogadores. Em 2014, a família de Bellini, capitão da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1958, doou seu cérebro para uma investigação. Bellini morreu aos oitenta e três anos, após sofrer do que se imaginava ser Mal de Alzheimer por dezoito. O estudo mostrou que os problemas neurológicos que o acometiam eram decorrentes de Encefalopatia Traumática Crônica, doença relacionada a impactos na cabeça.

PROTEÇÃO

O dilema é evidente. Em outros esportes coletivos, jogadores podem ser substituídos, examinados pelo tempo necessário para o diagnóstico correto e, com o risco de concussão afastado, retornar ao jogo sem ser expostos ao perigo de um segundo trauma. As regras do futebol não permitem essa operação e o prejuízo da desvantagem numérica por 8-12 minutos é muito grande. Por outro lado, jogar com a saúde de atletas é um ato de irresponsabilidade. O futebol precisa decidir como abordar um problema que é indiscutivelmente sério. A substituição obrigatória em caso de perda de consciência já deveria ter sido adotada.



  • José Henrique

    Para que isso aconteça, bastaria uma alteração nas regras, de que no caso em discussão a substituição seria permitida além das 3 vigentes. Porém, o que a gente tem visto ultimamente, também em relação ao absurdo das leis trabalhistas aplicadas aos jogadores, não ter “comovido” analistas, acredito que não irá comover ninguém.

  • Rodrigo Lahoz

    Caro André, excelente coluna! Como você gosta bastante de filmes, recomendo o filme “Concussion” (ou “Um Homem Entre Gigantes”), com Will Smith, que trata da descoberta da Encefalopatia Traumática Crônica em jogadores da NFL. Ao ler a sua coluna lembrei diretamente do filme. Abraço.

  • Paulo Pinheiro

    Assunto interessantíssimo, André. Antes de tudo o ser humano que está ali sujeito a esse tipo de acidente. Vale aqui lembrar o exemplo do Vágner Bacharel que veio a falecer por causa de um sinistro como esse.
    Penso que uma regra interessante seria permitir a substituição do goleiro sempre, independente do número total de substituições, pra evitar que treinadores mantenham o goleiro em campo após esgotadas, mesmo que este não tenha condições de continuar.

  • José Henrique

    A proteção da integridade física dos jogadores, começa pela atitude dos árbitros. No jogo de ontem, Corinthians x Afe, impressionante o que bateu o lateral Talison da Ferroviária. Agrediu Romero o jogo inteiro impunemente, e deu uma entrada criminosa em Marlone que o tirou do jogo. Tudo isso numa boa. Só porque a Ferroviária é time menor, e o juiz tem medo de ser acusado de beneficiar os grandes? Violência não!!!!

  • Leandro Azevedo

    Uma “solução” seria um médico independente do clube para fazer esse tipo de exame como é feito na NFL – o problema é saber se os clubes aceitariam uma decisão independente, principalmente num jogo decisivo ou algo assim. No Brasil isso certamente viraria “clubismo” do medico ou algo similar.

    AK: O problema do tempo permanece. Um abraço.

  • Marcos Vinicius

    Boa matéria. Achei que faltou lembrar como essa questão está sendo tratada nos EUA, onde há aconselhamento de evitar (proibir) as cabeçadas. Sei que as situações onde a cabeça pode ser atingida num jogo de futebol são muito distintas, mas a preocupação é a mesma.

  • Everton

    Acredito que a solução seria abrandar as regras para substituição, ou seja, caso um jogador sofra uma pancada na cabeça ele seria imediatamente retirado de campo para exames e substituído, entretanto tal substituição não teria caráter definitivo, deste modo o jogo prosseguiria com o jogador substituto em campo, e caso o primeiro fosse avaliado como apto, este poderia retornar ao jogo. Até porque essa ideia de ter somente três substituições e o jogador que saiu não poder voltar é meio sem sentido.

  • Zé Bigorna

    Fora de tópico, mas nem tanto. No Linha de Passe da última sexta houve um debate sobre uso de tecnologia no futebol. Lá pelas tantas, José Trajano, entre o chiste e a indignação, profere: “ódio eterno ao futebol moderno”. Se eu fosse presidente da ESPN, daria um jeito de você estar naquela bancada. Ser você estivesse, qual seria sua reação ao comentário do Trajano?

    AK: Um sorriso. Um abraço.

  • RENATO77

    Espanholização? Crise?
    Que nada…um clube do “segundo ou terceiro grupo” na sequencia de maiores arrecadações de direitos de TV…patrocinios…etc…segue na ponta do futebol brasileiro em termos de folha de pagamento…contratações….vencendo disputa nas contratações com outras agremiações, inclusive de centros tradicionalmente/comprovadamente com maior força econômica….
    VIVA ALEXANDRE KALIL!!!
    kALIL PRA MINISTRO DA FAZENDA!!!
    E a imprensa investigativa? zzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
    Abraço.

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