COLUNA DOMINICAL



(publicada em 13/2/2016, no Lance!)

O FANÁTICO E O MERCENÁRIO

A lógica distorcida do fanático do futebol merece um estudo profundo. O fundamentalismo cria leis não escritas e determina códigos para a conduta alheia, mandamentos que levam em consideração apenas a vaidade dos que se consideram representantes dos clubes que escolheram. São ombudsmen autodeclarados, vigilantes da ética equivocada que pretende precificar o “amor à camisa”, condenando jogadores que exploram profissionalmente o mercado em que operam, mas absolvendo os espertos que o fraudam.

Robinho é o último futebolista renomeado como “mercenário” por quem o idolatrava até a semana passada. Seu crime? Escolher trabalhar em um clube diferente daquele em que nasceu, tornou-se conhecido, viveu e proporcionou alegrias. Como se a camisa do Santos fosse uma camisa de força, eternamente agarrada a seu corpo, impedindo-o de seguir sua carreira em um ambiente farto de opções. Note-se que não é o caso de um jogador que se nega a cumprir o que assinou ou obedecer as regras que devem valer para todos. Não. Robinho cometeu a atrocidade de não voltar da China para o Santos, com o agravante de ter negociado com o clube que deveria, na ótica do fanático, ser o único lugar no Brasil no qual ele jamais pensou em jogar.

A história das conversas dos representantes de Robinho com os clubes interessados em repatriá-lo não revela uma dinâmica entre monges preocupados com o bem-estar do próximo. E como é frequente em negociações que não terminam em acordo, aqueles que não se chamam Atlético Mineiro saíram do processo decepcionados. Segundo se conta, o estafe de Robinho poderia ter sido mais direto, mais compreensivo e até mais sincero, mas não se deve perder de vista quem corteja e quem é cortejado. E se Robinho agiu como um jogador mais valorizado do que realmente é, a responsabilidade deve ser dividida com quem permitiu – e alimentou – tal postura. Assim é o jogo nas salas de reuniões.

Por mais obscena que seja sua remuneração (e por mais delicada que seja a divulgação de valores em um país como o Brasil), é impossível que um jogador de futebol roube a instituição que o contrata. Cabe a quem administra orçamentos zelar pela sustentabilidade dos compromissos que celebra, pois, ainda que haja excessos em pedidas salariais, e há, nenhum clube é obrigado a abrir uma negociação ou conclui-la a contragosto. É ridículo que jogadores se tornem reféns do preço associado, por outros, à própria lealdade. Sim, há aqueles – poucos – que deixam dinheiro sobre a mesa em nome de relações sentimentais. Exercem seu direito, assim como os que pensam primeiro no número. Quem sangra o clube é o cartola que embolsa comissões, desvia recursos e assina contratos impagáveis, mas o fanático do futebol não parece preocupado com isso.

O “torcedor” que hoje acusa Robinho de ser mercenário por escolher outro clube faria o mesmo se ele voltasse ao Santos e perdesse um pênalti em um clássico. Ou não “respeitasse a camisa”, seja o que for isso. É provável que essas mesmas figuras protestassem em frente à casa de Robinho, ou cercassem seu carro na saída do treino. O mundo dos fanáticos só aceita as próprias verdades.

CHUTADO

Entrevistei Jérôme Valcke em dezembro de 2013, no local batizado por José Maria Marin como “Costa do Saiúpe”. Então secretário-geral da Fifa, ele se portava e soava como o representante de um estado paralelo, que não devia explicações a ninguém. Pouco mais de dois anos depois, Valcke não está preso como Marin, mas foi banido do futebol por doze anos, provável fim do atual presidente da CBF e seus dois antecessores. Eis um trecho da entrevista, quando mencionei que a Fifa era secreta: “temos um nível de transparência, uma estrutura para nos proteger, para proteger os interesses do futebol, para proteger os seus interesses como fãs de futebol, que é única no mundo do esporte. E eu assino por ela”.



  • Eder

    Essa me parece ser uma visão simplista demais. O que os torcedores cobram do Robson é que tivesse ombridade e cunprisse sua palavra. Ele sempre postou em redes sociais que no Brasil só o Santos, sempre falou que a Vila era sua casa e não teve a decência de se pronunciar e a sinceridade de dizer que a casa dele é onde tem mais dinheiro.
    Jogou fora um carinho gigante, de torcedores que o defendiam apaixonadamente, de quem sempre ouviu que ele era campeão de triatlo (pedala, corre e nada), para ao apagar das luzes da sua carreira debandar-se para outro terreiro.
    O que machuca o torcedor é se sentir enganado, a opção pelo dinheiro é dele, mas o que queremos deixar claro é que a máscara dele caiu, que não venha mais falar de amor ao Santos, que não venha chamar a Vila de casa, pois aqui será recebido como merece, com muito desprezo, se é que ele será homem de vir jogar contra o Santos na Vila.

    • Quando o santos roubou do Galo o Neto Berola nós aceitamos de boa, portanto parem com esse mimi

  • José Henrique

    Por outro lado, o que entristece é ver jornalista justificando ser legítimo Pato aplicar o golpe no Corinthians, dizendo que ele seria “muito burro” se não aproveitasse o fato de ter o passe livre a partir de julho deixando o Corinthians a ver navios no prejuízo. Com certeza o mesmo não defendeu a posição de Renato Augusto que disse querer retribuir ao Corinthians o investimento feito nele. Por motivos óbvios e clubisticos, a verdade é que quando não se trata do clube do referido, contra o outro vale tudo. Para nós torcedores, se trata de medir caráter pela própria régua.

    • alexandre

      Sou atleticano e concordo com suas colocaçoes. Este Andre que foi para o Corinthians agora, é o exemplo vivo de um profissional que nao tem berço … nao tem estrutura familiar … Como cobrar algo de alguem que nao recebeu educaçao em toda a vida …. ??? Dificil . O GAlo investiu uma fortuna nele e a forma como ele retribuiu foi em noitadas e ao final tampando o escudo do time…

      • José Henrique

        Alexandre. Concordo com você também, só que no caso do André, não vi jornalista defendendo a decisão dele. No caso do Pato, ao contrário, o jornalista que me refiro disse com todas as letras que “Pato seria bobo se renovasse por mais um ano com o corinthians”. Ou seja passou seu “achismo” de comportamento segundo seu caráter. Isso ficou bem claro.

  • José Henrique

    Trajano não perde a chance de desmerecer qualquer feito do Corinthians. Falar que a bola “bateu sem querer na cabeça do Iago”, não é observação de jornalista que deveria entender o básico do futebol. Porque ele acha que o Iago, zagueiro, com o time ganhando de 1×0, foi para a área adversária? Para ver se por acaso, alguma bola batesse na cabeça dele? Trajano, tira a sua camisa do São Paulo, quando comentar ok?

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