COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

NOVA AGENDA

Da mesma forma que a importância da Primeira Liga transcende a realização de um torneio de futebol, a colaboração – tardia, mas inevitável – da CBF para acomodar a competição precisa significar muito mais do que o reconhecimento da confederação a um evento que independe dela. A segunda resolução emitida pela ex-sede José Maria Marin nesta semana, desdizendo a primeira, é o documento que simboliza uma oportunidade de alteração na discussão do futebol no Brasil. Se aproveitada, pode significar a emancipação das instituições que até hoje foram corresponsáveis pelo atraso do ambiente em que operam.

No final do ano passado, coube ao presidente do Grêmio, Romildo Bolzan Júnior, lamentar os primeiros sinais de rachaduras no projeto da liga. Os mesmos problemas políticos que sempre impediram que clubes brasileiros se relacionassem como sócios ameaçavam o embrião de um organismo diferente. Bolzan Júnior salientou o caráter propositor que uma associação de clubes deveria representar no debate dos diversos temas que lhe são comuns, uma amostra da quilometragem que ainda precisa ser percorrida. O fato de a competição estar em andamento, uma vitória para todos os participantes, não diminui a tarefa de estabelecer as relações mencionadas pelo presidente gremista.

Será preciso convencer o torcedor – aquele que entende que rivais em campo não apenas podem como devem ser parceiros do lado de fora – de que os dirigentes envolvidos neste movimento realmente encontraram uma agenda coletiva e estão dispostos a ampliá-la. A desconfiança de que esses clubes cederiam à postura intransigente da CBF, na noite de segunda-feira, revela que há quem pense que a Primeira Liga não é uma novidade, mas apenas uma camuflagem para as mesmas práticas e praticantes de sempre. A resposta só será clara com o exercício da novidade.

O colossal equívoco da CBF foi querer dizer a um enorme contingente de torcedores brasileiros que seus times não poderiam jogar entre si. Uma arbitrariedade que agrediu a relação sagrada que alimenta o futebol e funcionou como propulsor da decolagem do torneio. A arrogância de uma entidade enlameada causou indignação e mudou a maneira como uma parte do público enxergava a liga, a ponto de ter efeito contrário e multiplicado: a resolução que pretendia enterrar a Primeira Liga terminou atuando como fator de ocupação dos estádios na rodada de abertura.

É provável que o intervalo entre o primeiro apito de um jogo realizado à revelia da CBF e a divulgação da resolução que “autoriza” o torneio tenha surpreendido os clubes, no sentido de apresentá-los a uma amostra do que são capazes de construir juntos, acompanhados pela lei e pelo público que os justifica. Depende deles, agora, assumir um novo posicionamento, de acordo com o significado que possuem e o peso que descobriram. Os clubes não precisam adotar uma postura de confronto com ninguém. Só precisam conversar, entender o que é seu melhor interesse, e decidir. É assim em todos os lugares onde o futebol é relevante como aqui.

ROMÁRIO, 50

Em 1997, o jornalista espanhol Santiago Segurola escreveu sobre Romário. Brilhantemente:

“Em um mundo que aprecia com severidade eclesiástica os códigos de grupo, que valoriza mais do que nunca a homogeneidade, no futebol sem perfis que se prega nestes dias, Romário produz perplexidade. Como encaixar este individualista sinuoso na maquinaria coletiva de uma equipe e de um clube? Como adaptar um inadaptável ao compromisso comum necessário ao funcionamento de qualquer grupo? (…) É o egoísta mais consequente do mundo. Faz o que lhe agrada e não concede um milímetro à hipocrisia e à demagogia. Não procura a imprensa, recusa o aplauso enganador e entende o jogo como o último moicano do futebol: com uma pureza admirável, com uma confiança ilimitada em seus recursos. Com a ideia que, pelo visto, têm os artistas de seu ofício.”



MaisRecentes

O início



Continue Lendo

Desconforto



Continue Lendo

Irmãos



Continue Lendo