COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

CURANDEIROS

Uma declaração de Tite, há poucos dias, tocou em um problema aparentemente insolúvel. Em conversa com o repórter Dassler Marques, do portal Uol, o técnico do Corinthians fez um apelo à racionalidade de quem acompanha o futebol. “Que as pessoas não hiperdimensionem a capacidade do técnico. Ele consegue potencializar os atletas que tenham virtudes e qualidades. Acham que existem soluções mágicas: tira todo mundo, põe todo mundo e acha que o Tite vai fazer milagre. As coisas não são assim”.

A incompreensão do processo de construção de um time de futebol está na origem do pedido de Tite. É inútil enfrentá-la quando parte de quem consome o jogo com o coração e está distante da realidade dos clubes, formando teses que desafiam a natureza complexa do trabalho de reunir jogadores, treiná-los de acordo com uma ideia e constantemente corrigir seu funcionamento juntos. O problema se agrava quando a crença em milagres é patrocinada por quem tem – ou ao menos deveria ter – acesso às informações para fazer um julgamento minimamente coerente, mas prefere incentivar a imagem de técnicos como curandeiros.

Foi o que aconteceu no Corinthians, há cerca de dez dias, quando o diretor de futebol Eduardo Ferreira se propôs a acalmar os torcedores impressionandos com a velocidade com que o time que conquistou o último Campeonato Brasileiro desaparecia. “O torcedor pode ficar tranquilo, pois estamos melhorando o time e mostraremos o futebol do segundo semestre de 2015”, declarou o dirigente. A única leitura positiva de uma frase tão desconectada do mundo real é que também é preciso estar em outra dimensão para levá-la a sério. O que, infelizmente, não diminui seu potencial de dano.

Ninguém pode garantir o desempenho de um time que não existe. Ninguém, nem o técnico. O raciocínio do dirigente corintiano seria um devaneio mesmo se o elenco campeão brasileiro estivesse intacto. Ou até se os jogadores que saíram fossem substituídos por nomes considerados superiores a eles. Manter uma base de jogadores por um prazo mais longo aumenta a chance de que eles funcionem no organismo do qual fazem parte, mas, como a torcida do Chelsea pode atestar, o futebol não acredita em promessas.

A pior repercussão desse tipo de anúncio é o aumento da pressão sobre quem tem, de fato, a responsabilidade de construir – no caso, reconstruir – o time. Uma sequência perversa, pois a obrigação de dirigentes é exatamente o contrário. Ademais, a tranquilidade do torcedor, se isso for possível, só se materializará quando ele notar que não foi ludibriado. Garantias vazias na pré-temporada não são a maneira mais inteligente de mostrar trabalho.

O Corinthians só tem uma certeza para a temporada que está para começar: seus jogadores estão nas mãos do técnico certo para a tarefa que se impõe. Dar a ele as condições para ser bem sucedido, além de contratar peças para um time desfigurado, é não fazer promessas que nem o próprio Tite é capaz de honrar.

ANO NOVO…

O ano virou e Del Nero, o Marco Polo que não viaja, segue dando as cartas na moderna CBF, aquela que não tem absolutamente nada a ver com as que conhecemos, mas que faz tudo da mesma forma. Uma das “novidades” do início de 2016 é a notícia de que o Doutor Ricarrrrrrdo, ele mesmo, trabalha – de onde? – forte nos bastidores da sucessão de Del Nero. O candidato do ex-presidente da confederação seria Rubinho, da FERJ, que age como proprietário de clubes como o Flamengo e o Fluminense, mais um exemplo da capacidade da classe dirigente do futebol brasileiro. O cenário é tão tragicômico que parece não haver mais nada que a cartolagem possa fazer para prejudicar a própria imagem e justificar a ruptura total, mas as questões continuam sendo de onde ela virá e se o torcedor de futebol no Brasil se importa com o futebol do Brasil.



  • Roberto

    “O cenário é tão tragicômico que parece não haver mais nada que a cartolagem possa fazer para prejudicar a própria imagem […]”

    Aguarde e confie, nobre jornalista ?

  • João Henrique Levada

    A história mostra mesmo, como você bem lembrou, dos times que tem tudo pra dar certo e dão miseravelmente errado.

    Lembro que zoei um post do Benja há vários anos atrás, sobre as contratações de vários times brasileiros.

    O texto mostrava tamanha empolgação, não me contive, disse que teriam de fazer pelo menos umas 3 taças de campeão.

    Gente finíssima o Benja, até me respondeu.

  • Caio

    O Tite tem que respirar fundo pra continuar.
    Como que um cara se motiva assim?

    Se ele der a sorte de receber uma boa proposta de fora do Brasil ele vai sair. Essa é a minha torcida, na vdd.

    Não acho que ele mereça essa seleção Brasileira vendida aos interesses.

    E eu sei que é uma pena que eu pense assim…

  • José Henrique

    Seria prestado um grande serviço ao Futebol se a grande mídia mostrasse uma planilha de “quanto” e “quem” levou as partes desses bolos de negócios. Mas isso é uma utopia. Mesmo porque ficaria evidente que clube de futebol é que menos leva nisso. E viva a hipocrisia, e a lei Pelé.!

  • leoatleticano

    Mas André, queria ver o Tite falar em hiperdimensionar o técnico no quesito salário. Aí podem hiperdimensionar a vontade que ele gosta. Queria ganhar um milhão por mês e não ter cobrança, poder errar a vontade, trabalhar pouco. Se ele é tão hiper mega valorizado, a cobrança e a expectativa acompanham.

    AK: Você perdeu completamente o ponto da declaração dele. Um abraço.

MaisRecentes

Em frente 



Continue Lendo

Acordo



Continue Lendo

Futilidade



Continue Lendo