COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

AS PARTES E O TODO

O grande problema dos prêmios individuais para futebolistas é a dificuldade de extrair o desempenho de um jogador do contexto coletivo no qual ele se insere. Ao mesmo tempo em que as estatísticas são cada vez mais utilizadas e valorizadas em um esporte à mercê da imprevisibilidade, o isolamento do impacto de um jogador para o sucesso ou fracasso de seu time permanece um desafio.

A complexidade do problema acompanha a qualidade do time. Quanto mais desenvolvido é o jogo coletivo de uma equipe, mais difícil é a tarefa de identificar as atuações individuais que funcionam dentro dela. E talvez, um dia, cheguemos à conclusão que essa busca é um equívoco, porque o futebol não é um conjunto de confrontos, mas um confronto de conjuntos.

Para um jogador tecnicamente privilegiado, é mais fácil aparecer e se distinguir em um time que não funciona bem do ponto de vista coletivo, seja um zagueiro que se vê exposto em várias ocasiões e exibe sua qualidade no desarme em situações de um contra um, ou, no caso oposto, um atacante que maximiza suas oportunidades em lances individuais. Times avançados se comportam como unidades nas quais as associações entre jogadores – pequenos organismos dentro de um ser maior – constroem o jogo e as individualidades ficam restritas a momentos de definição e/ou emergência.

Em seu tempo no Barcelona, Pep Guardiola dizia que um gol em que Lionel Messi driblou cinco jogadores e o goleiro era um lance maravilhoso, sem dúvida, mas que não deveria ser levado em conta na análise do desempenho do time. Primeiro porque esse tipo de ocorrência não se treina, e depois porque uma equipe que pretende ser bem sucedida não pode depender dessas explosões autorais. Ainda que seja um extremo usar como exemplo um dos maiores times da história, aquele Barcelona trabalhava – sob o comando de Xavi – para oferecer a Messi situações em que ele pudesse ser decisivo. O argentino não era chamado a iniciar ou elaborar movimentos.

A era do jogador celebridade tem contribuído para enfatizar o aspecto individual em um esporte em que o que realmente importa é o sucesso coletivo. Títulos representam evolução profissional muito mais concreta do que elogios ao solista de uma orquestra desafinada, e não há, na história do futebol, relatos de troféus conquistados por apenas um jogador. O lendário técnico Helenio Herrera costumava inspirar o espírito solidário de seus atletas dizendo que “ele que joga para si mesmo, joga para o adversário. Ele que joga para o time, joga para si mesmo”. No funcionamento das equipes mais bem sucedidas do futebol atual, há cada vez menos espaço para preocupações exageradas com números pessoais.

Messi está a caminho de mais uma Bola de Ouro não apenas porque é o melhor, mas porque jogou no melhor time da última temporada europeia. E porque o resultado do desempenho coletivo de seu time pôde ser medido em taças. Uma das razões da decolagem de Neymar, que já lhe permite pensar no dia em que subirá ao palco da premiação com chances de segurar o troféu, é justamente fazer parte de um time assim.

PEP INGLÊS

Sinais apontam para a ida de Pep Guardiola para o Manchester City, a partir da metade do ano que vem. Guardiola trabalhou no Barcelona com executivos que hoje estão no time azul de Manchester, que teriam oferecido não um cheque, mas um clube inteiro em branco para que o técnico tivesse absoluto controle sobre o dia a dia. Guardiola nunca escondeu seu desejo de trabalhar no Campeonato Inglês, o que sem dúvida representa um desafio diferente dos que ele já teve como técnico. Nas ligas da Espanha e da Alemanha, o número de jogos que um time grande faz contra oponentes do mesmo tamanho é muito menor do que na Inglaterra, um nível mais alto de competitividade. Se Guardiola for mesmo para a Inglaterra, e lá tiver sucesso, até quem diz que ele só dirigiu times formados – “argumento” que denota desconhecimento – será obrigado e reconhecer sua genialidade.



  • Kessya

    Caro Andre Kfouri

    O Guardiola é um excelente treinador, entretanto como treinador ele ganhou:

    com Messi: 17 títulos
    Espanha Barcelona
    COPA DO MUNDO DE CLUBES DA FIFA: 2009, 2011 LIGA DOS CAMPEÕES DA UEFA: 2008–09, 2010–11 SUPERCOPA DA UEFA: 2009, 2011 CAMPEONATO ESPANHOL: 2008–09, 2009–10, 2010–11 COPA DEL REY: 2008–09, 2011–12 SUPERCOPA DA ESPANHA: 2009, 2010, 2011 TROFÉU JOAN GAMPER: 2008, 2010, 2011

    Sem Messi: 5 títulos até o momento
    Alemanha Bayern de Munique
    COPA DO MUNDO DE CLUBES DA FIFA: 2013 SUPERCOPA DA UEFA: 2013 CAMPEONATO ALEMÃO: 2013–14, 2014–15 COPA DA ALEMANHA: 2013–14

    Messi sem Guardiola: 17 títulos até o momento
    Espanha Barcelona
    CAMPEONATO ESPANHOL: 2004–05, 2005–06, 2012–13 E 2014–15 COPA DEL REY: 2014–15 SUPERCOPA DE ESPANHA: 2005, 2006, 2013 UEFA CHAMPIONS LEAGUE: 2005–06, 2008–09, 2014–15 UEFA SUPER CUP: 2015 COPA DO MUNDO DE CLUBES DA FIFA: 2015 TROFÉU JOAN GAMPER: 2006, 2007, 2013, 2014 E 2015

    Se o Guardiola não for campeão da Champions agora com o Bayer, você não acha que seria bom os próximos times quando contratar o Guardiola, levar o Messi de contrapeso?

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