COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

O JOGO EM PALAVRAS

Uma emissora de rádio de Madri ligou para César Luis Menotti, na sexta-feira passada. Queria ouvir o ex-técnico do River Plate e do Barcelona sobre a final do Mundial de Clubes da Fifa. A conversa durou quatorze minutos, vale cada segundo e graças à existência da internet (aqui, em link abreviado: http://bit.ly/1ZjfYmt), não ficou restrita aos ouvintes espanhóis. É uma dissertação sobre o jogo de futebol.

Uma das pérolas do debate foi um comentário feito por Menotti, quando questionado sobre a atualidade do futebol. Ele explicava por que prefere ver times que jogam bem, ignorando pontuações e tabelas de classificação, quando disse que “o Bayern de Munique é uma equipe sanadora. É como o Barcelona, te sana a loucura. Você vem dessa sociedade meio perversa, sobretudo no meu país, com a política… e se levanta no sábado pela manhã, às 11h30 o Bayern de Munique joga e parece que você está nos anos 40”.

Menotti nasceu em 1938. A década seguinte provavelmente foi o período em que o futebol o encantou ao construir as relações que o acompanharam por toda a vida de jogador, técnico e mestre Jedi. Não é necessário tê-la vivido para compreender o conceito que Menotti expressa, pois se trata de uma referência sentimental que todos temos. Na memória do coração de quem gosta deste jogo, existe um tempo em que fomos absolutamente felizes, plenos, otimistas. Essa sensação independe do contrato que assinamos com os times que escolhemos, uma história traiçoeira por natureza, sempre sujeita a instabilidades que não podemos controlar.

Menotti fala do amor por um tipo de jogo que está muito acima das vulgaridades com as quais lidamos diariamente, algo tão poderoso que é capaz de nos levar à superfície onde só existe o bem estar. Esse lugar, essa sensação e a felicidade por reencontrá-la sempre serão inalcancáveis para aqueles que só compreendem a vitória, por pura cegueira ou carência de exemplos. Pobres almas que vivem aprisionadas pela Matrix, pois fizeram a escolha errada quando Morpheus lhes mostrou as pílulas. Jamais entenderão.

Outro trecho memorável da conversa é a análise de Menotti sobre o trabalho de Luis Enrique no Barcelona multicampeão de hoje. Em tom aconselhador, ele entende que “é muito difícil reencontrar alguém que pinte a Gioconda. Se trata de não lhe pôr um bigode. Porque alguns, para ser originais, quando vêem o quadro, pintam um bigode na Gioconda e dizem que mudaram as coisas”. Gioconda é um dos nomes pelos quais se conhece a obra mais notória de Leonardo Da Vinci, a Mona Lisa, aqui em menção ao irrepetível Barcelona de Pep Guardiola.

Comparar um time a outro é maldade com Luis Enrique, pois o trio de atacantes sul-americanos, exatamente por ser tão formidável, impõe uma forma de jogar que distancia a equipe da obra-prima coletiva de Guardiola. Aquele time pode ter sido superado certas vezes em resultado, mas nunca em jogo. Por isso, talvez, o melhor a fazer é celebrar os momentos em que este Barcelona nos lembra daquele. É quando Menotti se sente nos anos 40, e todos somos felizes. Ou melhor: não todos, só os que sabem ser.

CAMPEÃO DO MUNDO

Por favor, não entenda mal: o Barcelona atual é um tremendo time de futebol. Tanto quando monopoliza a bola e hipnotiza o adversário por associação, quanto quando solta os monstros do ataque, que se entendem maravilhosamente. E Busquets continua a impressionar ao controlar, sozinho, seu próprio time e o oponente. Talvez ele seja o único jogador para o qual não haja substituto, pois Mascherano não possui a mesma formação.

FORMALIDADE

O River Plate fez o que pôde, pelo tempo que conseguiu, até sucumbir. O Mundial de Clubes se transformou em uma vitrine de desigualdades, em que o time sul-americano só tem alguma chance se o europeu desdenhar a ocasião ou estiver em um momento muito desfavorável. Em condições normais, é uma formalidade à qual se assiste com curiosidade cínica, aguardando um massacre ou um acidente constrangedor.



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