COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

ESPARTANO

A escolha do São Paulo por Edgardo Bauza merece aplauso pelo simples fato de ser diferente. Como já salientamos neste espaço, o ambiente do futebol evolui quando se abre para novos métodos e conceitos, e se há uma carência no futebol brasileiro, dentro do campo, é exatamente a pasteurização de ideias. Outro aspecto positivo é que o treinador argentino não é um desconhecido ou um aventureiro, o que contribuirá para o estabelecimento das relações corretas dentro e fora do vestiário.

Ocorre que a diferença representada por Bauza não está diretamente relacionada à forma de jogar, característica que aumenta a curiosidade sobre o que motivou a opção da diretoria são-paulina, tendo em vista a experiência recente do clube com um técnico estrangeiro. Bauza não é uma Operação Osorio 2.0. De fato, eles não poderiam estar mais distantes no que diz respeito à visão de futebol. Não há juízo de valores aqui, apenas um fato que precisa ser considerado para que não se cometa um engano de expectativa.

Antes de contratar Juan Carlos Osorio, outros técnicos estiveram nos planos do São Paulo, sempre com a proposta de mudança de cultura. Podemos voltar até o ano de 2012, quando o português André Villas-Boas foi procurado sobre a possibilidade de trabalhar no Brasil. O clube conversou com Alejandro Sabella, Jorge Sampaoli e até com Marcelo Bielsa, técnicos cujo trabalho exigiria confiança, paciência e suporte total por causa de seu componente transformador, tratamento raro no Brasil e que Osorio evidentemente não teve. No caso de Bauza, a novidade que ele traz pede menos manutenção: é mais uma reforma de caráter do que de jogo.

Os times de Bauza costumam ser sérios, compenetrados e organizados a partir da defesa. Uma orientação que procura neutralizar as virtudes do adversário antes de pensar em como vencer. Imagine um competidor honesto, duro para seus oponentes e despreocupado com aspectos estéticos. Bauza se acostumou a lidar com orçamentos menores do que seus rivais e se especializou em um modelo espartano, em que a adesão dos jogadores a um plano defensivo é o ponto de partida para todos os objetivos. Assim ele conquistou a Copa Libertadores duas vezes, com a LDU e o San Lorenzo. É possível que a habilidade de ser competitivo com recursos menos generosos tenha atraído o São Paulo, um clube em situação financeira preocupante.

O problema – ok, talvez não seja um problema, mas algo a se pensar – é que o tipo de equipe que Bauza monta, com sucesso, normalmente fala espanhol, pois o jogador argentino médio é mais sóbrio, mais obediente e mais consciente do que sabe e não sabe fazer do que o brasileiro. Essa realidade pode impor a chegada de futebolistas estrangeiros para facilitar a transição de comando, e muito provavelmente significará uma mudança de rotina no ambiente do São Paulo, criticado (com certo exagero em alguns casos, pois o caos administrativo precisa assumir sua capacidade destrutiva) pela falta de ambição.

TRADUÇÃO

Ainda sobre Bauza, uma coisa se pode afirmar: ele corre bem menos risco de ser incompreendido, por falta de conhecimento, do que Osorio. O colombiano foi prejudicado por uma audiência que não tinha vontade e/ou capacidade de identificar suas intenções. Bauza pratica um jogo mais simples e de consumo mais fácil.

RECICLAGEM

A saída de José Mourinho do Chelsea atinge sua reputação de técnico de vanguarda e líder adorado pelos jogadores que comanda. O português não está ultrapassado, mas seus métodos perderam a validade, assim como a insistência no futebol opaco e essencialmente resultadista. Seria muito interessante se, com a vasta experiência e conhecimento que possui, Mourinho deixasse de jogar joguinhos e se dedicasse a jogar futebol. O esporte hoje pede uma abordagem mais aberta e voltada ao desenvolvimento do jogo.



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