COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

VICENTE INCONVINCENTE

Dois dirigentes da CBF assinaram, em setembro, um texto publicado no espaço de opinião da Folha de S. Paulo. Walter Feldman e Rogério Caboclo associaram seus nomes a uma peça, mal escrita e desesperadamente equivocada, que pretendia se queixar da “mídia” e convencer o leitor que a confederação era uma entidade comprometida com o desenvolvimento do futebol no Brasil.

Três meses atrás, o presidente Del Nero já era conhecido como o Marco Polo que não viaja, mas ainda não estava indiciado pelo FBI e entrava em elevadores sem maiores preocupações. A pessoa que escreveu o artigo em nome de Feldman e Caboclo não se importou com o constrangimento de mencionar “gestão, transparência e incentivo à formação” em um texto sobre a CBF, contradição equivalente a conselhos sobre planejamento familiar em uma comunidade de eunucos.

Mas há limite para tudo. Ontem, na página 3 da Folha, o presidente em exercício da CBF subscreveu mais um conjunto de fantasias e provocações deliberadas a quem se preocupa com o futebol no país. As tolices presentes em ambos os artigos sugerem o mesmo autor, um desses estrategistas de gabinetes que imaginam ser capazes de atravessar um mangue sem sujar o terno branco. Provavelmente também imaginam que sandices repetidas como gravações de espera ao telefone se transformarão em verdades.

Marcus Vicente, deputado da bancada da bola e ocupante temporário da cadeira de Del Nero, repetiu a falácia ao nos comunicar que “o tripé transparência, gestão e resultados está em implantação na CBF e será a pedra de toque do novo futebol brasileiro”. O presidente em exercício também garantiu que o fortalecimento das federações estaduais faz parte de um plano que devolverá “à nossa seleção a primazia da genialidade e a exclusividade da arte ao jogar o mais belo e completo dos esportes”.

Contenha as lágrimas e se lembre que Vicente comandou a Federação Capixaba de Futebol por mais de 20 anos, período no qual a ausência de clubes do Espírito Santo nas séries A, B e C do Campeonato Brasileiro não prejudicou o prestígio do cartola-político nas gestões Teixeira, Marin e Del Nero. Os três últimos presidentes da CBF lidam com a Justiça dos EUA; o atual serviu a todos eles e subitamente entende que possui credibilidade para falar em consertar “as mazelas de gestões infelizes”. A CBF se comunica com a opinião pública pedindo votos de confiança a uma estrutura anacrônica e corrupta, supondo que ninguém percebe o revezamento de clones no comando.

E ainda fala em transparência. Del Nero já teve o status alterado de suspeito a indiciado (na próxima atualização, pode passar a procurado), e ainda não disse uma palavra. Sua defesa já divulga que as acusações atribuídas a ele pelo FBI não constituem crime pela lei brasileira, o que é essencialmente uma confissão de culpa. E o cartola que assumirá a presidência da CBF em caso de renúncia de Del Nero é um ventríloquo escolhido pela certidão de nascimento. Enquanto isso, o diretor de ética da confederação, atuante como um sushiman na cozinha de uma pizzaria, finge que nada acontece.

Reforma de estatuto, democratização do processo de eleição para permitir candidaturas independentes, limpeza geral. Se esses não forem os primeiros passos, não haverá um “novo futebol brasileiro”. E expressões como “preservando as características essencialmente brasileiras”, usada no artigo publicado pela CBF em setembro, continuarão a ser lidas apenas como referência à divisão de propinas.

CONTABILIDADE

Carlos Miguel Aidar se orgulha de ser o presidente são-paulino que assinou os dois últimos contratos de Rogério Ceni, mas se contradiz revelando que, por ele, o goleiro não jogaria até 2015. Talvez seja por esse motivo que, na última renovação, Aidar propôs a Ceni uma remuneração proporcional ao período trabalhado em dezembro, de forma a “economizar” vinte dias de salário de um ícone do clube.



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