COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

O CARTOLA DESCANSA

Foi uma semana de glória para o dirigente de futebol brasileiro, essa figura abnegada, que sacrifica os negócios e a vida particular pela paixão por seu clube. Devemos parar por um momento e tê-lo em nossos pensamentos, celebrar a capacidade administrativa que conduziu o futebol no país a uma época histórica. É nossa obrigação, também, assumir e corrigir um erro: não foi a qualidade do jogador brasileiro que construiu a fama do nosso futebol, mas a visão do cartola nacional. Onde estaríamos sem ele?

Na segunda-feira, dirigentes paulistas se reuniram na sede da FPF por longas horas. A conversa sobre como seria o posicionamento de cada um a respeito da eleição do substituto de José Maria Marin terminou com questão fechada: todos por um. Esse um é o coronel Nunes, o homem que considera Marin “uma lenda do futebol” e desconhece o que seja uma liga de clubes. O coronel significa a manutenção do grupo de Marco Polo Del Nero no comando, uma ideia que já deveria estar sepultada diante do que se sabe sobre o presidente indiciado pelo FBI e licenciado de seu cargo.

Mas os presidentes dos clubes de São Paulo não coram diante de tamanho escândalo. Alguns, no máximo, calam e consentem, como Roberto de Andrade. Já Paulo Nobre atesta a “capacidade” do presidente da federação paraense, essencialmente comprovando que faria o mesmo se a vontade de Del Nero fosse ver um cone como vice-presidente da CBF. A estrutura de poder do futebol do Brasil é composta por espertos que se imaginam invencíveis e marionetes que não percebem o ridículo.

Na quinta, Gilvan Tavares retirou o Cruzeiro da Primeira Liga dizendo que o torneio “não é rentável”, um pretexto barato para abrir um buraco no casco do movimento que surgiu para apresentar alternativas à conjuntura que o presidente cruzeirense tanto critica. O que Tavares conseguiu foi mostrar o real valor de tudo o que disse a seus pares sobre o compromisso que os clubes da Liga tinham com o futebol brasileiro, em mais um episódio que explica por que as coisas são como são. Tavares optou por fazer a vontade da CBF, desta CBF, e o motivo, como ele mesmo declarou, foi o dinheiro.

E na sexta-feira, a corrida contra o relógio para viabilizar uma tentativa de mudança não teve êxito, restando a Justiça como a única via para impedir a transformação do coronel Nunes no futuro presidente da CBF. O empresário Abilio Diniz tem a imagem, a capacidade, a representatividade e – tão crucial quanto – a idade necessárias para romper a estrutura. Só não teve o tempo suficiente para se debruçar sobre uma candidatura construída às pressas, praticamente no dia em que o prazo para a inscrição terminou. A busca por outros nomes que reunissem os mesmos pré-requisitos não apresentou resultados. Liminares e mobilizações permanecem nos planos de quem deseja, um dia, ler a sigla CBF e não sentir ânsia de vômito.

Chegou o sábado e a chance passou. Haverá outras. Por enquanto, o dirigente de futebol brasileiro descansa aliviado. Sua obra está ruindo, mas ele ainda está sentado em sua cadeira e isso é o que lhe importa.

ÍDOLO

Os ídolos de verdade são aqueles que nos conectam com o jogo. Não com o jogo que enxergamos como adultos, contaminado por defeitos e maldades. Mas com o jogo que nos encanta desde cedo e toma conta de nossa imaginação. São figuras cada vez mais raras, não porque o futebol foi convertido em negócio, mas porque o negócio se apoderou do jogo e não necessita de ídolos, mas de vendedores. Na era do consumo rápido, Rogério Ceni resistiu por mais de duas décadas no mesmo lugar, com a mesma camisa e a mesma torcida. Não existem muitos jogadores de futebol com essa trajetória e é por isso que carreiras assim não deveriam terminar. Mas, por mais que se tente, não há como evitar o ponto final. Na trajetória, na carreira, mas não na história. A história dos ídolos de verdade começa e continua.



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