COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

BAUR AU LACRE

Imagine a reação dos funcionários da recepção do hotel, quando notaram a chegada de agentes da polícia suíça antes das seis horas da manhã de anteontem. A exemplo do que aconteceu em 27 de maio, o cinco estrelas com vista para o lago de Zurique seria o cenário da prisão de dirigentes da Fifa, que comprovaram, uma vez mais, a máxima do cinema policial: o bandido sempre volta ao local do crime.

Teria sido útil, e prova de eficiência, que uma lista com os nomes e os números dos quartos dos procurados estivesse pronta e à mão. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos tinha avisado, seis meses atrás, que haveria novas prisões. O próximo passo da equipe de marketing do Baur Au Lac pode ser a criação de um “pacote-FBI” para dirigentes: um quarto próximo à escada de emergência, um lençol extra, check-out expresso e um sanduíche natural na saída, para evitar a fome no caminho para a penitenciária. É a detenção corporativa do futebol, rápida e com o menor constrangimento possível.

A última onda de prisões e indiciamentos, cortesia da Justiça americana ao futebol, converteu a Concacaf e a Conmebol em quadrilhas de corruptos seriais, com um contingente de presidentes presos que provoca crises de ciúmes em famílias mafiosas. E expôs a nossa querida CBF como um entreposto do submundo do futebol sul-americano, finalmente revelando o real sentido do nome da chapa que conduziu Marco Polo Del Nero à cadeira que ele deixou em tempo recorde: Continuidade Administrativa. Ricardo Teixeira e Del Nero só não estão presos, como José Maria Marin, porque não saíram do Brasil. Como não tirar o chapéu para tamanha desfaçatez?

Não perca tempo se perguntando por que dependentes químicos de poder e dinheiro não conseguem se controlar. Não pense que o objetivo de gananciosos profissionais é, um dia, deitar em uma espreguiçadeira em uma praia paradisíaca e brindar a uma aposentadoria relaxante. Esse é o sonho de quem trabalha. Eles não têm sonhos, apenas a necessidade de subir degraus em uma escada sem fim, à procura de novas oportunidades de aumentar suas fortunas e zonas de influência. O equívoco que cometeram, e única razão do arrependimento com o qual têm de lidar, foi imaginar que a polícia do mundo jamais se preocuparia com eles. Agora não há mais caminho de volta, como disse Loretta Lynch, Procuradora-Geral dos Estados Unidos: “vocês não nos vencerão pelo cansaço, e não escaparão do nosso foco”.

Suas carreiras no futebol chegaram ao fim, assim como a rotina de figuras importantes e a alimentação de contas bancárias espalhadas pelo mundo. E a opção de abandonar tudo para passar o epílogo de suas vidas no confortável esquecimento deixou de existir no momento em que se tornaram procurados internacionais. Alguém dirá que amealharam o suficiente para garantir a tranquilidade de seus descendentes. Errado. Não há tranquilidade com vergonha, e não há extrato que faça a vergonha desaparecer. A cartolagem predatória e os demais políticos do esporte estão diante de um adversário imune às redes de proteção que os mantiveram sorrindo por tanto tempo. Uma evidência desse novo ambiente é a recusa de Fernando Sarney à chance de assumir a presidência da CBF, com a licença de Del Nero. O oligarca temeu se transformar em alvo do FBI, por isso cedeu a vez ao deputado federal Marcus Antônio Vicente, membro da bancada da bola em Brasília.

Não custa recordar que Del Nero, o Marco Polo que não viaja, foi aclamado na última eleição para o trono da CBF. Eleito por clubes e federações como candidato único. Com os últimos três presidentes seriamente implicados na investigação conduzida pelos americanos, é inadmissível que a indústria do futebol brasileiro continue aceitando uma confederação lacrada, onde prossegue o jogo de influência que conhecemos. Neste momento, enquanto o castelo arde em chamas, discute-se a eleição do substituto de Marin. Ele seria o novo presidente da CBF, se não estivesse preso.



  • José Henrique

    Assim como existem os colecionadores compulsivos, que colecionam objetos, tampinhas de garrafas, essas figuras são colecionadores de dinheiro. Brincadeira a ganância desenfreada dessa gente. Como você bem disse, eles têm essa necessidade. Se conseguirem esconder em algum lugar o que colecionaram, mesmo presos estarão felizes só em saber que tem. São cleptomaníacos insaciáveis e em larga escala. Não percebem que neste mundo, tudo que possuem não é deles. É alugado. Foi de outro, hoje está com eles e será de outro. Essas “coisas” são o símbolo máximo do MATERIALISMO.

  • RENATO77

    “Não perca tempo se perguntando por que dependentes químicos de poder e dinheiro não conseguem se controlar. Não pense que o objetivo de gananciosos profissionais é, um dia, deitar em uma espreguiçadeira em uma praia paradisíaca e brindar a uma aposentadoria relaxante. Esse é o sonho de quem trabalha. Eles não têm sonhos, apenas a necessidade de subir degraus em uma escada sem fim, à procura de novas oportunidades de aumentar suas fortunas e zonas de influência.”
    Muito bom!
    Abraço.

  • João Henrique Levada

    Muito bom, André. Parabéns!

    Duro que no final, você nos deixa com essa pílula amarga de realidade. Marin seria outra vez presidente da CBF, fosse apenas a justiça nacional, responsável por sua liberdade.

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