COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

INDIFERENÇA

Marco Polo Del Nero acreditou em quem lhe disse que “Itaquera é outro mundo” e provavelmente supôs que haveria controle de passaportes antes de chegar ao estádio do Corinthians. Por esse motivo, o presidente da CBF não entregou o troféu ao campeão brasileiro em rede nacional de televisão, uma oportunidade de aparição e satisfação de ego que sempre seduziu a cartolagem que nos assola.

As pessoas que divulgam explicações em nome de Del Nero dizem que ele agora delega tais funções. A vaidade não lhe guia e outras figuras podem representar a confederação. São as mesmas pessoas que tentaram colar na parede o motivo que converteu Del Nero no Marco Polo que não viaja: a CPI do Futebol, que ainda não o convocou, mas já o estimulou a providenciar um habeas corpus – negado pelo STF – para não ser obrigado a dizer a verdade ou ser preso. A transparência, como se sabe, é a marca desta CBF que não, não tem nada a ver com as anteriores.

A fobia de voar impediu Del Nero de representar o futebol brasileiro desde as prisões no Baur Au Lac, no final do mês de maio. O lago de Zurique lamenta a ausência de um cartola assíduo na região, assim como os hotéis onde a Seleção Brasileira se hospeda nos países que visita. Na sede da Conmebol, em Luque, no Paraguai, também se comenta a mudança de hábitos do presidente da CBF. Tanto que a exclusão de Del Nero do Comitê Executivo da Fifa se deu no Rio de Janeiro, onde, na pior das hipóteses, se voa de helicóptero para vencer o trânsito.

Del Nero também “delegou” suas funções na Fifa. A partir da reunião da próxima semana, a cadeira será ocupada por Fernando Sarney, um dos vice-presidentes da CBF. Sarney tem este cargo na confederação desde 2004, quando foi indicado por… Ricardo Teixeira. É um remanescente do período do Dr. Ricarrrrrrrrrdo e também dos anos de José Maria Marin, hoje hóspede do governo dos Estados Unidos em seu próprio apartamento em Nova York. No pleito de abril do ano passado na CBF, Fernando Sarney fez parte da chapa “Continuidade Administrativa”, que elegeu Del Nero. Claro está que de continuidade ele entende.

A central de explicações da ex-sede José Maria Marin encontrou uma forma encantadora de anunciar a saída de Del Nero da Fifa: o presidente solicitou seu próprio desligamento para poder “dar atenção integral aos debates e temas do futebol brasileiro”. Será, ou seria, um desafio mais amedrontador explicar por que um oligarca brasileiro com o currículo de Fernando Sarney foi escolhido para substitui-lo. No lugar de serviços prestados ao futebol do país, Sarney tem exigido toda a sorte de serviços da Justiça brasileira ao longo dos últimos anos, por seu envolvimento em esquemas fartamente documentados. Use o Google e esteja preparado.

É deprimente, mas os políticos do esporte brasileiro gozam da proteção oferecida pela indiferença da sociedade. Vivemos no país em que tramas para levar testemunhas de roubalheiras colossais para o exterior são apresentadas à Justiça como “ações humanitárias”. Um cartola sem passaporte é um detalhe sem importância.

INSANIDADE

A loucura imediatista do Campeonato Brasileiro de 2015 chegou ao ponto em que só o técnico campeão manteve seu emprego. É a aplicação disseminada da tese “se não ganha – e rápido – não serve”, uma demonstração de desrespeito com o processo obrigatório do amadurecimento de equipes. Não é que o futebol no Brasil tem horror ao método, é pior: aqueles que desconhecem as exigências do jogo se convenceram de que formularam seu próprio jeito de fazer as coisas, e assim será.

CABEÇA

É evidente o sangue ruim entre os jogadores de Santos e Palmeiras. O lado palmeirense parece mais afetado e por isso, menos equilibrado para disputar um título em dois jogos. Se esse aspecto não for corrigido até quarta-feira, o ambiente no Allianz Parque pode influenciar negativamente. Como escreveu Dante Panzeri, “o futebol é um jogo de vitalidade cerebral, que necessita do auxílio da vitalidade física”.



  • José Henrique

    Tenho acompanhado os artigos sobre Del Nero e, efetivamente, com exceções a alguns jornalistas, nota-se realmente uma certa indiferença na grande maioria. É infinitamente maior o bombardeio feito sobre Teixeira tempos passados. O mesmo se constata com relação a Marin, “tolerado” até sua prisão. Não dá pra saber mesmo o porque dessa indiferença no tratamento.
    Quanto a demissões de treinadores, chega a ser comovente o comportamento dos cartolas, que após passarem rodadas acusando as arbitragens de favorecimento a outros clubes, agora descobrem que a culpa era de seus técnicos. Acabou o chororô. Todo mundo agora sabe porque existiu. Segue o lance.

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