COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

JOGAR BEM

No Campeonato Espanhol, a vitória do Barcelona sobre o Real Madrid gerou uma quase decisiva diferença de seis pontos entre os rivais. Na histórica relação dos dois clubes, a goleada humilhante imposta pelos catalães – no estádio do adversário – abriu mais uma ferida no orgulho madridista. Para o resto do mundo, a lição de futebol coletivo oferecida pelo Barcelona foi um exemplo prático do que significa a expressão “jogar bem” (mesmo que, neste caso, “bem” nem se aproxime de qualificar adequadamente o que se viu no sábado, em Madri).

Acostumamo-nos a ler e ouvir que existem diferentes formas de jogar futebol. Não é verdade. Na melhor das hipóteses, esta é uma frase mal formulada. Existem, sim, várias maneiras de competir no futebol. As escolhas entre elas se dão de acordo com circunstâncias e convicções, e devem ser respeitadas desde que não sejam baseadas no antijogo e/ou na violência. Ocorre que competir e jogar não são sinônimos. Como dizem os pragmáticos e seus apologistas, é possível competir abdicando da bola e investindo em outros aspectos. É possível até competir bem com esse tipo de proposta. Mas para jogar é preciso ter a bola, conservá-la, fazê-la circular e, a partir dessa ideia, determinar tudo o que acontece em campo.

Quando um time aplica esses conceitos com os futebolistas certos, temos o que se chama de “jogo”. Quando esse time se mostra superior em jogo, independentemente de vencer ou não (pois jogar é mais difícil do que ganhar), finalmente podemos dizer que “jogou bem”. E quando um clube não negocia essas ideias, trabalha para aperfeiçoá-las com jogadores formados em casa ou contratados, e torna o jogo um idioma próprio, surge um time como o Barcelona. Um time que expõe a falácia de que é necessário decidir entre jogar bem e ganhar, como se fossem dois caminhos que não se cruzam e não podem levar ao mesmo destino. E como se jogar bem não fosse a única maneira de ganhar sempre.

A decisão que se apresenta, de fato, é entre jogar e competir. E até mesmo essa decisão merece uma análise desconfiada, pois quem viu o Barcelona em dias como anteontem e tem a coragem de lhe fazer críticas certamente sofre do terrível mal de apreciar o futebol vulgar. O jogo do Barcelona é o produto final de um processo custoso, acima de tudo, em trabalho. Optar por ele é o dilema que se impõe, antes de orçamento, estrutura ou nomes. O futebol de posse é uma questão de conceitos e treinamento.

No sábado, o trabalho do Barcelona foi facilitado por um Real Madrid sem alma e sem neurônios. As imagens que exibem o time dividido entre defesa e ataque, com uma enorme faixa de campo entre esses dois blocos, revelam o tamanho do equívoco e ajudam a explicar o resultado numérico. Mas, lembre-se, estamos falando de jogo. O primeiro gol do Barcelona nasceu de uma jogada de trinta e cinco passes, que consumiu um minuto e quarenta e cinco segundos e teve a participação dos dez jogadores de linha. O movimento final foi gerado por um passe entre linhas de Sergio Busquets para Sergi Roberto. Dois jogadores que, desde a adolescência, conhecem o significado de jogar bem.

6 x 1

Em Itaquera, a maior goleada que o Corinthians já aplicou no São Paulo em todos os tempos serviu como entretenimento ideal para o torcedor que foi ao estádio ver Ralf erguer a taça. O campeão brasileiro de 2015 fez seis gols com uma escalação caracterizada pela presença de jogadores suplentes, o que deveria ser suficiente para uma avaliação do trabalho de Tite. Há uma grande diferença entre dizer “não vejo nada demais” em um time de futebol e afirmar que “não há nada demais” nesse time apenas por não enxergar. O conhecimento do jogo está disponível a todos e deveria ser um objetivo de quem pretende levá-lo a sério. A vantagem em relação ao segundo colocado subiu para quatorze pontos; em relação ao quarto, para vinte e quatro.



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