COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

I – D – E – N – T – I – D – A – D – E

Na terça-feira posterior à vitória sobre o Atlético Mineiro, um motorista foi à casa de Tite, buscá-lo para um evento sobre livros em São Paulo. O técnico do Corinthians era esperado no Museu do Futebol, que fica no Pacaembu, estádio onde ele viveu tantas histórias. Supondo que a resposta estaria na ponta da língua, o motorista perguntou a Tite qual era o melhor trajeto da Zona Leste, onde ele mora, até o Pacaembu. “Agora você me pegou, cara”, respondeu Tite. “Nunca fiz esse caminho”. O Waze teve de ser acionado.

O resultado em Belo Horizonte essencialmente decidiu o título, mas havia um jogo – contra o Coritiba – a ser vencido em poucos dias, o que dominava os pensamentos do técnico. Tite antecipava um ambiente semelhante ao do jogo contra o Flamengo, em que o Corinthians esqueceu, por momentos, qual era a fórmula de suas vitórias. A necessidade de vencer em casa, uma rodada antes de visitar o Independência, se apresentou em forma de pressa, antítese do que o Corinthians foi no Campeonato Brasileiro. Após uma referência do motorista neste sentido, Tite tirou o telefone do bolso, abriu o aplicativo de notas e escreveu algo que comentaria com os jogadores no dia seguinte.

O assunto o estimulou a falar. “A torcida quer o time em cima do adversário, sempre, mas a equipe tem que ter a sabedoria de jogar o jogo dela”, disse ele. “É complicado, porque nós estamos mudando o jeito do Corinthians jogar”, continuou. O problema voltaria a ficar evidente contra o Coritiba, provavelmente por causa da interpretação errada de um jogo que poderia significar conquista, mas só no dia seguinte. Não havia motivo para sucumbir à ansiedade, algo muito mais simples de dizer do que de fazer.

Conquistado o título, é hora de revisitar essa nova maneira de jogar, que possibilitou ao Corinthians controlar encontros gradualmente, até transferir sua superioridade para o placar. O processo é mais visível em jogos como visitante, como o de anteontem, em que o dono da casa assume uma postura mais agressiva por um determinado tempo. Neste período, o Corinthians se sustenta com defesa sólida e uma ameaça constante de contragolpe. Mas há um momento em que se nota o arrefecimento da iniciativa do mandante, simultâneo ao crescimento da fluidez ofensiva corintiana. Em São Januário, a troca da guarda do jogo se deu por volta dos trinta minutos, quando o Corinthians construiu um movimento inteiro desde o campo de defesa até a finalização.

A conversão do Corinthians em um time que raciocina e age de acordo com suas virtudes é obra de Tite e de um grupo de jogadores que cria “problemas” exatamente por conhecer a própria capacidade. Naquela terça-feira, no trajeto para o Pacaembu, o motorista se lembra de ouvir o técnico mencionar como o time reage a certas situações de pressão com menos urgência do que ele gostaria, como se estivesse dizendo “tranquilo, professor, sabemos o que estamos fazendo”. Quando os jogadores fazem questão de elogiar Tite “no aspecto humano”, é – entre outras muitas coisas – um agradecimento por saber ouvi-los e confiar neles.

Há explicações técnicas e evoluções táticas na origem de um título conquistado com doze pontos de vantagem sobre o perseguidor mais próximo, mas há também um padrão de comportamento em campo que é igualmente importante. É uma forma de se conduzir que sofre poucas alterações e permite que o time estabeleça um perfil de atuação, o que não garante vitórias, pois o jogo não aceita tais garantias, mas o coloca em condições de vencer sempre. A isso se dá o nome de identidade de jogo, o que é raro no futebol brasileiro.

Essa talvez seja a principal marca do trabalho de Tite em 2015, e sua compreensão, o maior desafio das pessoas que comandam o Corinthians. Só a sequência de ideias e o correspondente manejo do elenco proporcionarão a manutenção dessa identidade, e melhores versões no futuro.



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