COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

FUTEBOL COM MEDO

Um dos heróis dos ataques terroristas em Paris é o policial em serviço no Stade de France que impediu um homem-bomba de entrar no estádio, pouco depois do início do amistoso entre França e Alemanha. É impossível dizer quantas vidas ele salvou ao frustrar uma parte do plano macabro executado na sexta-feira passada, que transformaria um jogo de futebol no centro da tragédia.

Ao que tudo indica, era para ser muito pior. Três suicidas foram ao Stade de France usando coletes de explosivos. Pelo menos um deles tinha ingresso para o amistoso e foi descoberto durante a revista na entrada, detonando o colete ao se desvencilhar da segurança. Minutos depois, os outros dois terroristas se explodiram do lado de fora do estádio. Além dos homens-bomba, esses ataques fizeram uma vítima, muito menos do que pretendiam.

É bastante provável que o jogo entre França e Alemanha tenha determinado a data escolhida pelos terroristas para os ataques na capital francesa. Um amistoso de alto perfil, com oitenta mil pessoas no local e atenção mundial garantida pela transmissão de televisão. A ação de um policial evitou o espetáculo indelével de uma explosão dentro de um estádio, mostrada ao vivo para uma audiência medida em milhões. Mortes, pânico, fuga desesperada, pessoas pisoteadas. Do lado de fora, mais duas bombas à espera dos que conseguissem sair. Um cenário que evidencia a intenção dos terroristas de matar mais pessoas no Stade de France do que no Bataclan.

Um jogo de futebol. O mundo pós-11/9 nos ensinou a considerar possibilidades assustadoras a cada vez que entramos em um avião, e nos obrigou a conviver com desconfortáveis medidas preventivas em locais em que há grande quantidade de pessoas, incluindo, é claro, os eventos esportivos. Os americanos lidam com a noção de que seus jogos preferidos são alvos potenciais, acostumados à tensão que acompanha a relevância e a capacidade de repercussão de cada um. Mas até sexta-feira passada, mesmo com tanta informação a respeito de ameaças e com a habitual segurança ostensiva nos maiores eventos, a sensação de perigo em jogos de futebol não estava relacionada ao terrorismo. A sexta-feira 13 de terror real no Stade de France mudou tudo.

Ingleses e franceses estarão juntos em Wembley, amanhã, em um encontro que poderia ser cancelado em nome das vítimas de Paris, mas que irá em frente para mostrar que o futebol não se dobrará diante do medo. A entrada das seleções em campo e os hinos nacionais certamente produzirão sensibilidade, emoção e esperança. Será um evento simbólico, lembrado pelos presentes como uma celebração do futebol e da vida e um desafio aos que cultuam a morte. Mas também será uma noite de preocupação, pois sabe-se que não há como garantir proteção contra quem está disposto a morrer para matar.

Um jogo de futebol era o alvo principal da carnificina niilista que chocou uma cidade que pertence ao mundo. O trabalho de um policial preveniu a materialização do horror no Stade de France, mas não nos salvará de pensamentos incômodos a cada vez que apreciarmos este jogo do qual gostamos tanto.

 

ATUALIZAÇÃO, terça-feira 17/11, 09h45 – A informação de que um dos terroristas tinha ingresso para o jogo e tentou entrar no Stade de France faz parte desta reportagem do Wall Street Journal, publicada no último sábado, citando duas fontes. No mesmo dia, o Financial Times abordou o tema. O jornal americano permanece como o primeiro e único meio de comunicação a apresentar este cenário. Ontem, um relato em um site francês refutou a história. De qualquer forma, o aparato de segurança em torno do amistoso de hoje entre Inglaterra e França, e o cancelamento de Bélgica x Espanha (a seleção espanhola teve de deixar o país durante a madrugada, porque as autoridades belgas não garantiram sua segurança) enfatizam o ponto mais importante: o futebol chegou à era do medo.

 

PADRÃO

Brasil e Peru se encontraram na primeira rodada da Copa América do Chile, você deve se lembrar. A Seleção Brasileira levou um gol no início do jogo, não demorou a empatar mas só conseguiu a vitória nos acréscimos do segundo tempo, com Douglas Costa. Naquela ocasião, o atacante do Bayern de Munique substituiu Diego Tardelli, aos 20 minutos do segundo tempo. Sexta-feira passada, em Buenos Aires, Douglas Costa também entrou no segundo tempo (aos 11 minutos) e o Brasil também melhorou no jogo contra a Argentina. Talvez seja possível enxergar um padrão.

“JARITA”

Falou-se pouco, até o momento, do reencontro entre Chile e Uruguai, após o episódio de Jara e Cavani, na Copa América. Será amanhã, em Montevidéu. Pode ser a calma antes da tempestade, ou um sinal de que as duas seleções – especialmente a uruguaia – não pensam em nada além de futebol.



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