COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

REVIVENDO A PIRÂMIDE

No livro “Inverting the Pyramid”, o jornalista britânico Jonathan Wilson conta a história dos sistemas táticos do futebol. Não é uma obra escrita no sofá. Wilson visitou todos os países do mundo em que a organização dos jogadores em campo representou um novo caminho, uma nova maneira de enxergar e praticar o jogo. Pode ser um exagero chamar sua pesquisa de “Bíblia da tática”, mas se trata de um trabalho tão minucioso, cujo resultado é tão majestosamente educativo, que talvez não haja outra forma de qualificá-lo.

O nome do livro sugere o movimento que os times de futebol fizeram ao longo dos tempos, gradualmente passando de um rascunho organizacional em que havia mais jogadores no ataque do que na defesa, até as formações atuais, invertidas. Mas o maior mérito de Wilson não é projetar em nossas mentes um espetacular documentário sobre a evolução dos sistemas. Ele vai além, nos fazendo compreender por que, e como, o futebol é como é em cada lugar do planeta. Os estilos são representações culturais das sociedades, alimentadas por características próprias e pela forma como se relacionavam com os ingleses, inventores e exportadores do jogo.

A pirâmide mencionada no título é o nome dado à formação que dominou o futebol no início do século vinte, acompanhando a presença britânica em gramados espalhados pelo mundo: o 2-3-5. Dois zagueiros, três meio-campistas e cinco atacantes. As alterações na regra do impedimento e a necessidade de defender com mais jogadores reprogramaram o desenho das equipes e deram vida a diversas ideias desde então, mas a pirâmide sobreviveu por décadas com um conceito de ofensividade que provocaria taquicardia em treinadores enamorados pelo “equilíbrio defensivo”, os chamados “técnicos do não”.

Mas uma iniciativa quase arqueológica do homem que personifica os “técnicos do sim” desenterrou a pirâmide de seu sarcófago e fez o futebol de hoje revisitar o passado. Na goleada por 5 x 1 do Bayern de Munique sobre o Arsenal, pela fase de grupos da Liga dos Campeões da Uefa, Pep Guardiola desenhou seu time – com a bola, ou seja, em 66% do tempo – no 2-3-5. Javi Martinez e Boateng foram os zagueiros; Lahm, Xabi Alonso e Thiago Alcântara, os organizadores do meio de campo; Douglas Costa, Muller, Lewandowski, Alaba e Coman formaram a linha de atacantes. Por longos trechos do jogo, foi possível ver os zagueiros no campo de ataque, com a linha de três situada na intermediária do Arsenal e ao menos quatro atacantes dentro da área inglesa. O Bayern trocou o dobro de passes do adversário, gerou o triplo de finalizações e cinco gols. Guardiola não gostou do segundo tempo na Allianz Arena.

Não foi algo inédito. A pirâmide do Bayern já tinha sido notada em rodadas recentes do Campeonato Alemão, contra oponentes que se dedicaram a proteger a própria área e rezar. O Arsenal, ao menos em teoria, foi a Munique para jogar. Acabou se deparando com um sistema usado no início do século passado, aplicado pelo time mais moderno do mundo, um paradoxo explicado pela mente incansável de Guardiola.

O Bayern está na televisão com frequência, não perca. “Invertendo a Pirâmide”, versão atualizada do livro de Jonathan Wilson, será lançada no Brasil pela Editora Grande Área, no ano que vem. Não deixe de ler.

PACIÊNCIA

O torcedor corintiano irá a Itaquera na noite de hoje mais feliz e menos ansioso, mas é provável que o jogo contra o Coritiba seja semelhante ao encontro com o Flamengo, há quinze dias. O Corinthians será bem marcado e pode se deixar levar pela pressa que atrapalha os movimentos no futebol, mesmo que o tema tenha sido abordado em conversas de Tite com os jogadores nos últimos dias. Para poder celebrar o título amanhã, dependendo do que acontecer com o Atlético Mineiro, o Corinthians e os corintianos precisarão de paciência em campo e nas cadeiras da Arena.



  • José Henrique

    Post premonitório. O jogo contra o Coritiba foi o pior dessa campanha vitoriosa do Timão.
    Baseando nesse jogo, quase dá para prever que o título virá por deslize provável do Galo.

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