COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

PREDADOR

Ver o Santos jogar tem sido um divertimento e tanto. A combinação de velocidade espantosa, passes inteligentes e finalizações precisas (quando não são espetaculares, como a de Marquinhos Gabriel, na noite de quarta-feira) torna o time de Dorival Júnior uma atração obrigatória. O curioso é que, especialmente nas rodadas da Copa do Brasil, você sabe exatamente o que esperar do Santos, e o Santos nunca falha. Você espera um time impossível de ser contido e vê o adversário sofrer tentando. O jogo termina como se imaginava, o que pode sugerir certa frustração, dado o caráter surpreendente do futebol. Mas o Santos é como aquele restaurante ao qual você volta por causa de um sabor específico.

Deve ser terrível para os técnicos adversários, mais até do que para os jogadores. Jogadores estão em campo, em atividade constante (ao menos a maioria). Técnicos, até os mais inquietos, têm capacidade limitada de interferência. Talvez até percam quilos colados à linha lateral, mas dela não podem passar. A angústia de um técnico dominado pela impotência ao ver seu time ser desossado pelo Santos certamente não é algo simples. E quanto maior for o capricho e a atenção aos detalhes na preparação, pior. A convicção de estar pronto leva a uma sensação de confiança para lidar com diferentes dificuldades. É aquele otimismo que se tenta ocultar para não parecer arrogância. De repente, em questão de meia hora, tudo acabou.

Ou menos até. Contra o São Paulo, Ricardo Oliveira marcou o terceiro gol santista aos vinte e três minutos. A partir de então, não houve mais competição. Verdade que o resultado do jogo de ida condicionou o confronto, que a escalação kamikaze de Doriva era tudo o que o Santos queria, que o mínimo percentual de excitação sobreviveria até o instante do primeiro gol dos mandantes. Saiu aos onze minutos, mas era necessário seguir acompanhando porque obviamente haveria mais. Como você já leu, a graça de ver o Santos é saber que acontecerá.

Os gols do Santos não se materializam quando a bola toca a rede. É no início do movimento que se enxerga toda a sequência: um passe direcionado ao espaço, em um dos corredores do campo, aciona uma disparada irresistível. Neste momento, enquanto sente compaixão pelo defensor que faz o papel de vítima da vez, você nota um atacante solitário apontando para o local onde prefere a assistência. O que você ainda não viu é um mero problema de execução: se o último passe sair conforme o que foi ensaiado, o goleiro não terá chance. Se não, eles tentarão de novo. Você sabe que tentarão.

O drama de enfrentar o Santos em jogos de dupla eliminatória é que lhe tomar o espaço não garante sucesso. É um time que também sabe vencer sem correr, por isso a ordem dos confrontos importa menos. Os dois gols da vitória sobre o Corinthians, na ida das oitavas de final, foram obras de ataque posicionado. Dorival criou um animal concebido para o mata-mata, que ninguém conseguiu domar.

D10S

Diego Maradona completou 55 anos ontem. Um gênio deste jogo apaixonante, venerado em seu país como uma divindade. Como ser humano, imperfeito e fadado ao erro, como todos nós. Como jogador, não haverá outro como ele. Não se trata de descobrir sua posição no Olimpo do futebol e definir quem foi melhor. O melhor é saber aplaudir sem se preocupar com a dosagem do aplauso. Maradona jogou tanto e incomodou tanto que há quem pense que deixar de admirá-lo faz dele um jogador menor. Engano. Futebolistas que se transformam em lendas só crescem na memória de quem os viu e no imaginário de quem não teve esse privilégio.

SEGURANÇA

Héber Roberto Lopes, o mediador do principal jogo do fim de semana no Campeonato Brasileiro, personifica o “árbitro-sargento”. O retrato do apito nacional é ter de recorrer a esse tipo de arbitragem em um encontro como Atlético-MG x Corinthians.



  • José Henrique

    Recorrer a esse árbitro é o mesmo que recorrer ao foguetório no hotel do Corinthians na madrugada. Kalil e Levir gostam mesmo de falar antes, para obter vantagens futuras. Que suas baixarias não vinguem, para o bem do futebol.

    • José Henrique

      E, profeticamente, Trajano acertou, errando o Time. O Atlético, não só tomou uma sova, mas duas.

  • Juliano

    Que alegria quando seu time entra em grande fase e recebe textos como este. Fazem a fase parecer ainda melhor. Que pena que fases no futebol nacional não durem muito e logo podem acabar, mas que bom que AK é novo e vai continuar a nos brindar com suas crônicas e seu jornalismo por muito tempo.

    Ao Santos e ao André, meu muito obrigado!

    Abraço!

  • José Henrique

    E, podemos nos preparar, caso o Timão, aumente ainda mais a diferença para o segundo colocado, para assistirmos a mudanças de posturas dos eternos defensores dos pontos corridos, na maior cara de pau, deixando de avocar a “justiça ao melhor durante o campeonato”.
    E não faltarão as imbecilidades tipo “espanholizacao” mesmo com o Fla despencando pelas tabelas e em 10 anos, ficar apenas uma semana no “sonhado” G4″ . Essa será a pauta provável dos medíocres.(medianos).

    • Alisson Sbrana

      Também acho que essa será a pauta dos medíocres. Principalmente daqueles que não sabem ganhar.

  • Ricardo Gomes

    André,

    Acho que você conseguiu a melhor definição para esse Santos: um animal concebido para o mata-mata! Apesar do Corinthians ser muito forte, se o Santos conseguir manter esses jogadores nessa essência terá grande possibilidade de ganhar mais uma Libertadores.

    Abraços,
    Ricardo Gomes

  • Silva

    André,

    Sobre o parágrafo “D10S”, você foi cirúrgico. Eu não discuto quem foi ou é melhor. Digo apenas que Maradona foi o melhor que eu vi jogar, tenho 48 anos, desde que me apaixonei pelo futebol, tive o prazer de ver gigantes do futebol, citando alguns do meus preferidos: Messi, Zico, Romário, Zidane, van Basten, Falcão, Leandro, que para mim não teve 40% de reconhecimento do Craque que foi, na minha opinião. Mas o que aquele “SER” fazia com aquela perna esquerda é impar.

    Não vi Pelé jogar e jogos por vídeo não nos permite a emoção de acompanhar um Gênio ao vivo.

    Abraços.

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