COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

ALTEZA

O Rei estava dormindo. O relógio já passava da hora do almoço, mas ele dormia. Deitado no sofá de uma sala administrativa da imponente estação de trens de Leipzig, Alemanha, a majestade do futebol mundial tentava recuperar um pouco do que as horas anteriores lhe haviam tomado. Voos, compromissos, entrevistas e autógrafos cobravam seu preço em forma de exaustão, o que obviamente teria impacto na programação do dia. Conectada à tela de um celular, a pessoa que cuidava da agenda parecia tensa com a inevitável complicação, mas também se mostrava aliviada pelo fato de o Rei ter, finalmente, um pouco de repouso. Ele seria acordado em uma hora.

Ela abriu uma porta e, ao olhar para trás, fez o sinal universal de silêncio com o dedo indicador sobre a boca. Com a outra mão, mostrou o caminho. Alguns passos cuidadosos sala adentro, e, antes mesmo de vê-lo, de barriga para cima, sem sapatos e sem paletó, pôde-se ouvir o ronco real. Pelé dormia profundamente. Será que sonhava? Com o quê? Quais são as histórias que o cérebro de um gênio do futebol é capaz de criar quando não há limites? O Rei ressonava, imóvel, transportado para algum lugar onde a reverência dos súditos o acompanhou, pois não há um dia sequer em que a coroa dourada e cravejada de brilhantes deixe de adornar seu rosto. Nem dormindo.

Era dezembro de 2005, semana do sorteio das chaves da Copa do Mundo a ser realizada meses depois. Na sala vizinha, um estúdio de televisão aguardava o Rei. Era uma oportunidade para emissoras do mundo inteiro gravarem um programa de meia hora com ele, sobre os grupos escolhidos no dia anterior. Pelé estava à disposição de uma fila de interessados que se estendia do início da manhã ao final da noite. O sono real interrompeu a sequência programada, alterando o planejamento dos jornalistas presentes. Alguns notaram que o atraso era uma séria ameaça a voos de volta para casa, mas estavam diante de um dos dilemas que caracterizam a profissão: aprender a esperar. Houve quem pensasse em fazer barulho para despertar o Rei, uma maldade que não foi necessária. Quando a ordem das gravações era adaptada à pressa das equipes, Pelé surgiu, sorrindo.

Cumprimentou cada um e tomou seu lugar no estúdio. Apresentadores se revezaram a seu lado, repetindo assuntos e contextos, e recebendo – além da presença que, mesmo em absoluto silêncio, é capaz de iluminar qualquer ambiente – simpatia e voluntariedade como se o Rei estivesse saudoso de dar entrevistas. Em muitos deles, experientes, foi possível perceber o assombro por estar ao lado de um ser que não é um de nós, mas que nos pertence a todos. Pelé tolerou interrupções com bom humor, até acalmando aqueles que, incapazes de encontrar o nível de concentração necessário, não conseguiam fazer o que já tinham feito milhões de vezes.

No subsolo da estação de Leipzig havia ainda uma outra sala, improvisada para reunir repórteres de rádio que, informados sobre a presença do Rei, foram ao local mesmo sem saber se conseguiriam vê-lo. Falar com ele, então, era uma ideia ainda menos provável. Estavam todos sentados em volta de uma grande mesa oval. No centro, dezenas de gravadores caprichosamente agrupados, prontos para ser acionados se a sorte lhes sorrisse. Uma porta lateral se abriu e o Rei surgiu, disponível como se o compromisso estivesse marcado. Ele já estava sentado e com uma garrafinha de água nas mãos, quando o barulho de outra porta chamou sua atenção. Um senhor calvo, com ralos cabelos brancos nas laterais da cabeça, entrou. Usava óculos, vestia um terno Príncipe de Gales e uma aparência afável. Os presentes o olharam, em silêncio. O Rei foi o único a dizer algo, feliz por vê-lo, com os braços abertos: Bobby!

Era Bobby Charlton.

CÁLCULO

Nada é maior do que a enormidade de Pelé. Sua lenda crescerá proporcionalmente à dificuldade das próximas gerações para compreendê-la. Imagine o tamanho que atingiria se ele não estivesse completando setenta e cinco anos nesta semana, mas vinte e cinco.



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