COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

RENATO, O ESQUISITO

É difícil negar a Jadson o título de melhor jogador do Campeonato Brasileiro. Difícil e injusto. Às vezes os números de um futebolista aparecem mais do que seu jogo, revelando atuações superiores às que notamos. O impacto de Jadson na campanha do Corinthians não depende desse tipo de análise: ele se envolve, constantemente, nas ocasiões em que o time decide jogos. Seus números comprovam nossa impressão. Fim da conversa.

Esta coluna, no entanto, pretende apresentar um caso a favor de Renato Augusto. Não com o propósito de sugerir que é ele, e não Jadson, quem merece a honra. Mas para propôr a ideia de que, sem sua presença, o meio de campo do Corinthians não seria o motivo pelo qual a mira do time está travada no troféu. Renato Augusto é o jogador que torna os outros melhores, uma qualidade tão rara quanto difícil de identificar. Uma virtude dos esquisitos.

É comum associar um significado negativo ao termo, mas esquisito é aquele que não se encontra facilmente, elegante, primoroso, que não é vulgar. Renato Augusto é tudo isso. É o tipo de jogador que, quando não está bem – e Renato não esteve bem durante parte de sua trajetória, principalmente quando seu corpo lhe traiu -, é capaz de fazer tudo errado, mas sempre tem a ideia correta. Quando o momento lhe sorri, como tem acontecido durante a temporada, ele interfere em partidas desde a classe com que toca na bola à maneira privilegiada como interpreta o jogo.

Interpretar é mais do que enxergar e fazer as coisas com capricho. É entender o que pede cada instante de uma partida. É manejar os tempos de um jogo em que a pausa, de fato, acelera. Se o setor central do Corinthians tem mostrado a inteligência, a qualidade e a vitalidade para decifrar encontros, é porque Renato Augusto permite esse funcionamento no nível mais alto. Ele é o melhor amigo de cada um dos companheiros de meio de campo, um papel que só pode ser entregue a jogadores que reúnem muitas qualidades. E do ponto de vista estritamente técnico, Renato tem a companhia de poucos colegas de profissão no Brasil.

No início do ano, quando o Corinthians fez uma série de jogos em que mostrou estar claramente acima da concorrência, Elias brilhava entre as duas áreas com a desenvoltura que o caracteriza. Desarmava, participava do início de movimentos ofensivos e surgia próximo ao gol adversário para assiná-los. Inegável mérito, realçado pela colaboração de quem jogava um pouco mais recuado, de forma a assisti-lo em todos os passos. Era Renato Augusto. Ambos podem alternar funções, pois funcionam bem juntos, como ficou evidente no terceiro gol do Corinthians contra o Atlético Paranaense, construído por eles do desarme à finalização. Interpretar também é perceber com que caráter um jogador é mais útil a seu time.

O campeonato de Jadson é brilhante. Tite lhe entregou as chaves do time e ele agradeceu com seu futebol refinado. O papel de Renato Augusto é crítico. O futebol reservou aos mais capazes a tarefa de realizar o que é mais difícil.

NEANDERTAIS

Um torcedor foi ameaçado e obrigado a retirar a camisa de seu time antes do evento da NBA, sábado, no Rio de Janeiro. Sua mulher e filha vestiam a camisa do time “dominante” no local, o que torna a situação ainda mais enojante. Calcule como elas se sentiram. Não importa onde aconteceu, ou quais os times envolvidos, pois esse comportamento primitivo e odioso está generalizado. E ainda há quem o aplauda, como símbolo da rivalidade que dá vida ao futebol. Quanta ignorância, quanto atraso.

DONOS

Emocionante imagem do cruzeirense Willian, chorando ao carregar um garoto desgraçadamente doente, antes do jogo de ontem no Mineirão. Matheus perdeu a visão por causa de uma enfermidade rara, por isso só pode imaginar como foram os lindos gols que Willian marcou, inspirado por ele. O futebol pertence às crianças e aos jogadores.



  • Anna

    Eu vejo Renato Augusto como melhor jogador do Campeonato Brasileiro. Mas será páreo duro entre ele e Jadson. Sim, a imagem de William Bigode com o garotinho é emblemática! Grande abraço, Anna.

  • Eduardo Mion

    Renato Augusto e Jadson são Xavi e Iniesta, ressalvada a diferença de papéis. Poder-se-ia defender uma candidatura conjunta a melhor do campeonato.

    • Edouard

      Renadson.

  • João Henrique Levada

    Que o tempo devolva o futebol a quem é de direito.

  • José Henrique

    Parabéns pelo texto. A melhor apreciação que vimos sobre o futebol desses dois meias do Corinthians. É exatamente isso.

  • Teobaldo

    Prezado AK, se possível faça um post descrevendo como é a rivalidade entre torcidas nos Estados Unidos, onde num mesmo estado ou cidade, existe a diversidade de esportes. Em NY e Boston, por exemplo, temos grandes times de basebol, futebol americano e basquete. A rivalidade entre os torcedores de Knicks X Celtics, por exemplo, é mais arrefecida, em função de em suas sedes existirem outros esportes? Os torcedores que curtem o basquete, também curtem o futebol americano e o basebol com a mesma intensidade?

    “O futebol pertence às crianças e aos jogadores”, entretanto, a CBF, obedecendo ou não à FIFA, alijou (ou aleijou, sei lá) a entrada das crianças nos moldes em que víamos aqui em Minas Gerais: um “bando” correndo alegremente atrás de uma bola gigante, pelo gramado. Não seriam as crianças, num aspecto pragmático, o consumidor do futebol no futuro? E nós as expulsamos do estádio! É isso mesmo? Surreal!!!

  • Adriano

    Mais um grande texto pra coleçao, AK.
    Abs

  • José Henrique

    Grande entrevista. Parabéns ao entrevistado e aos entrevistadores.BOLA DA VEZ Mano Menezes.
    A fala final do Mano, foi simplesmente espetacular.

  • Gustavo

    André,

    Eu e meu filho de 7 anos estamos concluindo um livrinho cujo tema é futebol. Gostaria de pedir licença para usar a última frase do seu post como uma das epígrafes.

    Um abraço.

    AK: Fique à vontade. Obrigado. Um abraço.

    • Gustavo

      Eu que agradeço. As outras epígrafes (uma pra cada capítulo) são do Arrigo Sacchi, Obdulio Varela e Arjen Robben. Um timaço.

      AK: Creio que minha escalação é um exagero…

  • Klaus

    No mínimo, surreal a história do torcedor corintiano. Absurdo total.

    Lembro-me de um jogo de futsal do time da cidade contra um rival, pela primeira divisão do campeonato estadual. Tinha-se já à época o costume de anunciar, jogador por jogador (os dois times perfilados em quadra), pelo som do ginásio.

    Para o time da casa, uma explosão da torcida para cada nome anunciado. Para o adversário, vaias e xingamentos de todo tipo.

    Ao meu lado estava um amigo, ex-jogador de futebol amador. Ele balançava a cabeça negativamente e não conseguia entender aquela atitude, que, por sinal, a maioria tem como normal. “Eles são só os adversários, que estão ali para saudar o público e fazer o trabalho deles. Sem adversário não tem jogo”, ele desabafou, irritado.

    Meses depois assisti com ele um jogo do campeonato amador, na mesma cidade, na casa do time para o qual meu amigo jogou. Era a semifinal, contra o arquirrival.

    E como sempre acontece naquele estádio, o time mandante vai até o alambrado para saudar a torcida eufórica. Pouco depois, é a vez do time adversário saudar sua pequena torcida, que se acomoda a poucos metros de nós, e é prontamente aplaudido também pelos torcedores do time mandante. Jamais esqueci esse contraste.

    Será que é tão difícil trocar a ignorância voluntária por um mínimo de sensatez?

    Um abraço!

  • Juliano

    Eis que Dunga leu a coluna e convocou Renato. Ele poderia ter o mínimo de esperteza e escalar junto com Elias, pelo bem do entrosamento.

    Com F. Coutinho, F. Anderson e Jadson como boas opções, Dunga erra ao insistir com Oscar. Poderia dar intervalo a Oscar, faria bem.

    Dunga erra ainda ao insistir com David Luiz e ao não convocar Lucas Moura.

    De resto era isso mesmo.

    Abraço!

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