COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

RA$TRO

“Aproximadamente em 1991, quando eu fui renovar um contrato para um desses eventos, a Copa América, um dirigente associado à Fifa, a agência encarregada do futebol mundial, e à sua confederação, a Conmebol, ele me pediu uma propina para assinar o contrato. Eu precisava daquele contrato, pois já havia assumido compromissos futuros. E, mesmo que não quisesse, eu concordei em pagar propina para aquele dirigente.

Depois disso e até 2013, outros dirigentes de futebol vieram a mim e aqueles com os quais eu me associei em negócios para exigir propinas para assinar ou renovar contratos. Eu concordei com pagamentos de suborno em sigilo que seriam feitos a esses dirigentes de futebol por contratos de direitos de marketing para vários torneios e outros direitos associados ao futebol.

Eu concordei em pagar subornos por contratos da Copa América, Copa Ouro, Copa do Brasil, e pelo patrocínio da seleção brasileira. Eu usei instituições financeiras dos EUA e facilidades de transação bancária digital nos EUA para pagamento de algumas dessas propinas, bem como para pagamentos legítimos correspondentes a esses direitos”.

Os trechos acima fazem parte da confissão do empresário José Hawilla, dono da Traffic, à Justiça dos Estados Unidos. Chegaram ao conhecimento público anteontem, quando as autoridades americanas suspenderam o sigilo que as protegia. Uma das razões pelas quais um depoimento permanece em segredo é não prejudicar a sequência das investigações dos fatos e pessoas mencionadas, o que torna a retirada do selo sobre o que Hawilla contou a um juiz em Nova York uma má notícia para seus ex-parceiros de negócios. Pode ser um indício de que o FBI está satisfeito com a coleta de provas contra eles.

E quem são eles? Como os nomes não foram citados na declaração de culpa, resta-nos especular levando em conta as entidades e os períodos revelados pela testemunha que colaborou para o dia em que o hotel Baur Au Lac, em Zurique, se transformou em cenário de um reality show policial. Quase cinco meses depois, as filmagens continuam com o elenco formado por senhores feudais do futebol, finalmente retirados de circulação.

Mas alguns estão livres, se é que esta condição se aplica a quem precisa se informar sobre tratados de extradição antes de considerar entrar em um avião. O temor é tamanho que, na dúvida se a cidade de Fortaleza ficava ou não em território brasileiro, Marco Polo Del Nero achou mais seguro não estar presente ao jogo da Seleção Brasileira contra a Venezuela, na última terça-feira. O time de estrategistas do presidente da CBF não chegou a uma conclusão sobre a localização da capital do estado do Ceará.

Del Nero, o Marco Polo que não viaja, chegou ao poder na CBF em 2012, quando a certidão de nascimento de José Maria Marin lhe deu mais um cargo para o qual não foi eleito. Com Marin em uma cela na Suíça desde maio, Del Nero pretende que você acredite que ele era apenas um vice-presidente decorativo, mas tente encontrar uma foto daquela época em que Marin esteja sozinho. A declaração de Hawilla sobre propinas pagas a dirigentes até 2013 deveria ser suficiente para ativar a curiosidade da Justiça brasileira.

O trecho sobre o primeiro pagamento ilegal, “aproximadamente em 1991”, remete a Nicolas Leoz, presidente da Conmebol entre 1986 e 2013. Leoz se encontra em prisão domiciliar em Assunção, fato que permite às autoridades paraguaias olhar para os colegas do continente de cima para baixo. Quanto ao suborno relacionado ao patrocínio da Seleção Brasileira, não resta dúvida que Hawilla se refere a Ricardo Teixeira, à Nike e ao contrato celebrado em 1996, que já foi objeto de CPI. Durante o reinado de José Hawilla como facilitador de negócios milionários do futebol, a CBF teve dois presidentes e um vice que mandava tanto quanto. Fosse ele, você estaria preocupado?



  • Elcio

    Você saberia informar por onde anda o Ricardo Teixeira?
    Acho que está faltando mencionar a rede Globo nesse rolo, ou seria compromisso familiar.

    AK: Teixeira está no Rio de Janeiro, onde vive atualmente. Quanto às insinuações do restante do seu comentário, você poderia ser mais claro?

    • José Henrique

      Essa modinha de insinuar sobre pessoas e a Globo, está deixando o futebol cada dia mais chato. Todo mundo já sacou que as críticas à Globo tem interesses clubisticos, desde o fim do clube dos 13, onde, torcedores passaram a “torcedores de receitas”, e passaram a disseminar idiotices como “espanholizacao” entre outros. O inconformismo com a divisão de quotas de TV, segundo o merecimento mercadológico gerou um mundo de ” achistas” peritos em aleivosias gratuitas. Vale a pena repetir a citação: “A Internet é esse mundo estranho onde os fatos são considerados opiniões, as opiniões são tratadas como fatos e onde todo mundo afirma ser o dono da verdade.” Stephane Giroux, Jornalista.

      • Alisson Sbrana

        Puxa, José Henrique, você até escreveu bonito aí acima. Aleivosia é uma palavra muito bonita. Mas, embora concorde com o AK que a insinuação do Elcio é estranha, duvido que ele tenha pensado na Globo por causa das cotas do Corinthians. A Globo também tem força na hora do calendário, por exemplo, uma das grandes mazelas de nosso futebol. Sobre as cotas, você sempre acha que falar disso é ser anti-corinthians. Não sei se isso também não seria clubismo de sua parte. Mas avante. Eu, que adoraria que nossos dirigentes fossem iluminados pela sabedoria e mudassem pelo menos um pouco nosso calendário, fossem mais independentes da TV, investissem de fato na formação dos jogadores, se desapegassem do futebol de resultados… Sobre as cotas, sempre digo (para que os anti-corinthians não fiquem me dando apoio) que defendo apenas que a diferença não seja tamanha, mas que os clubes com mais torcidas/audiência merecem um pouco mais do bolo. Enfim, sou minoria, não se preocupe em responder. Só escrevi por causa do seu texto bem escrito e, curiosamente, meio metalinguístico… Ou não?

  • Paulo

    “Del Nero, o Marco Polo que não viaja”” – Sensacional !
    Uma pena que nosso Código Penal estabeleça que corrupção seja um crime no qual seja necessário o envolvimento de funcionário/servidor público.

  • Marcelo Magalhães

    E a semi-falida “grobo”, hein? Vai respingar nela, sim. Não vejo a hora de ver este dia.

    • Nilton

      Marcelo, tenho má noticias para você, não vai respingar na “grobo”, por que ela não pagou “comissão” para ninguém, pois comprou um produto “com exclusividade” e pagou o valor combinando sem efetuar pagamento por fora, mesmo que neste negocio o “intermediário” tenha um boa margem de lucro.

      Agora falar que tem santos e anjos neste negocio chamado de futebol, seria muito inocência.

      • Alisson Sbrana

        É… Também acho que, de ilegal, a globo não faz nada. O que pode até ser “uma” anti-ética, em outras esferas de atuação, não é crime…

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