COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

HISTÓRIA DE UMA RENÚNCIA

A história da renúncia de Carlos Miguel Aidar é uma história de presunção e prepotência, mas também de desperdício. O advogado que assumiu a presidência do São Paulo em abril do ano passado, exatos trinta anos depois de ter sido eleito pela primeira vez para o cargo, desconstruiu a própria figura de administrador arrojado e competente de que o futebol brasileiro tanto necessita.

Quem acompanhou a primeira gestão de Carlos Miguel se lembra de um jovem dirigente com ideias modernas e capacidade de aglutinação. O contraste com o que se viu nos últimos dezoito meses é tão brutal que leva a uma conclusão assustadora: ou Aidar jamais mereceu tal imagem, ou o tempo lhe transformou com crueldade, apesar da boa aparência. Se a questão for apresentada a ele, Carlos Miguel provavelmente dirá que é a mesma pessoa, e esse é o problema.

Em novembro de 2013, neste mesmo espaço deste diário, uma coluna sob o título “Cardeal” apresentava alguns dos planos de Aidar para o São Paulo. Ele já falava como presidente, e o texto, produto de uma longa conversa em um restaurante paulistano, saudava a perspectiva da chegada ao poder de alguém que prometia ser um agente de transformação de um ambiente que precisa desesperadamente ser reformado. Aidar exalava a confiança de quem não apenas sabia como fazer as coisas, mas se percebia muito acima do nível médio de seus pares e interlocutores.

Ao longo de seu curto mandato, além de se envolver nas irregularidades expostas nas últimas semanas – e que não podem ser esquecidas tão logo sua carta de renúncia seja recebida, mas investigadas tanto dentro do clube quanto na Justiça -, Aidar caracterizou sua gestão com todas as peculiaridades observadas em poderosos envaidecidos que se creem absolutos, supremos, inatingíveis. Uma coisa é se recusar a perceber que o precipício está próximo, outra é duvidar de sua existência. Carlos Miguel exemplifica a segunda situação.

A incapacidade de criar um ambiente virtuoso é um argumento que questiona seriamente seu modelo de trabalho. Aidar expurgou do clube pessoas que mereciam valorização e respeito pelo que são, preferindo se cercar de jagunços que jamais estarão envolvidos em nada que leve um clube de futebol adiante. Ao contrário, as negociatas que hoje conhecemos explicam a presença de figuras que agora terão de procurar outras praças.

A história da renúncia de Carlos Miguel é, ainda, uma história de ironia. A maneira jocosa como ele se referia às aspirações de Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, que sonhou em ser presidente e deveria se contentar com a liderança do conselho deliberativo, volta-se contra ele com a possibilidade de ser substituído exatamente por quem era alvo de seu menosprezo. Nada como um mandato após o outro.

Finalmente, a história da renúncia de Carlos Miguel Aidar é a história do trabalho discreto, porém decisivo, de quem atua longe das luzes, mas será encontrado em todos os casos em que o poder muda de mãos. Ao se enxergar inalcançável, Aidar cometeu descuidos e fez o inimigo errado. Ele provavelmente passará o resto da vida tentando descobrir quem é. E não conseguirá.

DE QUALQUER JEITO

A cada análise do desempenho da Seleção Brasileira que termina em “conceitos” como “falta de dedicação” e pede “mais entrega”, aqueles que jogam o futebol de hoje sorriem e balançam a cabeça. Mais grave: esse tipo de diagnóstico aponta o dedo para os jogadores colocados em uma posição em que ficam expostos, ainda que vários deles enxerguem o jogo pelo prisma do esforço. Afirmar que o Brasil precisa ganhar da Venezuela “de qualquer jeito” é uma amostra da situação extrema em que a Seleção se encontra, resultado de uma ideia que só considera a vitória e ignora como alcançá-la. Amanhã vamos à batalha contra os venezuelanos. Se der errado, a culpa será de quem não sobreviveu.



  • José Henrique

    “conclusão assustadora: ou Aidar jamais mereceu tal imagem”. André, você nunca leu ou ouviu que, “no São Paulo os fatos são ocultados, no Palmeiras publicados, no Corinthians duplicados”.
    Então? Tudo explicitado agora. Ou seja. Fomos todos enganados, sacaneados, esse tempo todo.
    Por quem???????

MaisRecentes

Sqn



Continue Lendo

Gato



Continue Lendo

A vida anda rápido



Continue Lendo