COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

SÓ O JOGO SALVA

Em entrevistas de tenistas após derrotas, é comum notarmos o arrependimento dos que julgam “não ter aproveitado chances” para vencer. O comentário se refere aos momentos de superioridade que não foram capitalizados, portas que permaneceram abertas e não levaram ao encontro da vitória. No tênis, e nos outros esportes individuais, trechos de domínio de um atleta sobre outro não podem ser maquiados. São demonstrações honestas da diferença de categoria.

Futebol, por óbvio, não tem quase nada a ver com tênis. O estabelecimento de um caráter vencedor sustentável em esportes coletivos passa, obrigatoriamente, pela capacidade de ser superior aos adversários. Superior em jogo, não em ocasiões. Só o merecimento que resulta da aplicação da aptidão coletiva pode oferecer a uma equipe a possibilidade de derrotar qualquer oponente, e isso é muito mais do que “ter chances”, independentemente de terem sido aproveitadas ou não. Eficiência pode alterar placares e determinar vitórias circunstanciais, que muitas vezes estão ligadas à sorte e ao acaso. Sorte e acaso são atores incontroláveis, que não merecem confiança. Normalmente são parceiros daqueles que acreditam no mito “jogar ou vencer?”. Só o jogo nos salvará.

Qualquer formação da Seleção Brasileira, comandada por qualquer técnico, terá “chances” contra qualquer adversário. A qualidade dos jogadores brasileiros oferece tal garantia. Eles não são, há algum tempo, os melhores entre os melhores, mas são titulares em clubes que podem contratar estrelas com uma mensagem de texto. Não estão onde estão por ser simpáticos. A falácia da carência de talento se alimenta da maneira como são utilizados quando se vestem de amarelo, o que está diretamente relacionado ao problema central. Assim como o futebol brasileiro, a Seleção Brasileira foi condicionada a depender de individualidades. Individualidades produzem “chances”, times produzem jogo. É simples notar que o Brasil teve ocasiões para alterar o destino da partida contra o Chile. Deveria ser igualmente simples perceber que, em jogo, o vencedor nunca esteve em questão.

Sob o ponto de vista do que podemos chamar de “orientação de movimentação coletiva”, o conceito que separa times de futebol atualmente, a seleção chilena está à frente de todas as equipes das Eliminatórias Sul-Americanas. Isso não a converte em uma máquina de jogar futebol e nem mesmo garante uma classificação tranquila para a Copa do Mundo. Mas não é pouco, especialmente levando em conta os nomes dos jogadores que constituem as equipes da Argentina e do Brasil. A jogada do segundo gol chileno é uma amostra dessa distância, que, por sua vez, é uma decorrência da atualização de ideias e métodos de trabalho.

Neste contexto, apontar para a ausência de Neymar é um sinal da gravidade do problema. Recorrer à presença do diferente para ser feliz, e à sua ausência para explicar frustrações, são atitudes próprias de times que não são times. Sinais de uma concepção de futebol tão embaçada pelo atraso que não enxerga sua maior riqueza. É urgentemente necessário que se volte a falar em jogo.

TÉCNICO

Jorge Sampaoli, treinador argentino da seleção chilena, cometeu um erro de escalação que algemou seu time durante boa parte do jogo contra o Brasil. Com o encontro em andamento, ele percebeu e corrigiu seu equívoco. E na entrevista coletiva, assumiu publicamente o que tinha acontecido. Com absoluta modéstia. Quase nada no futebol é coincidência.

FARSA

A gestão de Carlos Miguel Aidar no São Paulo pode até alcançar o final do mandato para o qual ele foi eleito. Também pode chegar à Justiça, um indício da seriedade do que hoje movimenta o conselho deliberativo do clube. Mas efetivamente terminou nesta semana em que agressões e indícios de irregularidades graves chegaram ao conhecimento público. Poucas vezes se viu uma administração ruir de forma tão chocante. Poucas vezes se viu uma figura se desconstruir de forma tão surpreendente.



  • Fabio Hideki

    Apesar de não estar acompanhando futebol nos últimos anos, arrisco dizer que no máximo 5 seleções no mundo têm valores individuais melhores que a do Brasil. E a fui Chile não é uma dessas cinco.
    É triste torcer por jogadas individuais.

  • Paulo Pinheiro

    A minha dúvida é se o SPFC será ou não punido pela irregularidade que cometeu na contratação do zagueiro do Criciúma. Difícil, hein?

  • Fernando Itirapuã/SP

    O Dunga para azar dele mesmo e de alguns ratos da casa da bandidagem do futebol NÃO SABE NADA DE FUTEBOL TÁTICO E COLETIVO. O que ele tem noção é de patriotada e de luta em qualquer atividade que ele mesmo pratique. Quando depender dele é um herói, quando ele for ensinar como se faz, ele é um desastre!
    Eu nunca deixei de me indagar? Esse técnico da c..b..f.. não tem noção do que acontece a sua volta ou não lê o noticiário diário, tenho a mesma pergunta que primeiramente li o o Romário fazer?
    Ak, será que além do Dunga ser um técnico “limitado” é indiferente as falcatruas por necessidade ou ignorância dos fatos?

  • Thadeo Pinhão

    Mais uma vez simples e perfeito:

    “Individualidades produzem “chances”, times produzem jogo.”

  • Silva

    André,

    No segundo gol do chile, há dois erros grosseiros; posicionamento do Elias, havia um chileno atrás dele e da primeira linha de quatro que recebeu a bola; e a grande distância entre as duas linhas.

    Quanto a farsa “Se queres conhecer a alma do homem, dê-lhe álcool e/ou poder”.

    Abraços.

    Silva.

  • Juliano

    Excelente como de costume, AK.

    Com esse pessoal no comando (de Del Nero a Dunga), não se falará em jogo tão cedo.

    Em uma análise mais simplista e um tanto óbvia: os jogadores são convocados pelo que o treinador observou do seu desempenho em seus clubes. Pois bem, que sentido faz eles atenderem à convocação e serem escalados em posições diferentes ou ainda executando funções diferentes? O que Dunga fez com Elias e Hulk (pra citar apenas dois) não faz o menor sentido. Elias atua de maneira completamente diferente sendo peça fundamental na caminhada do seu clube para o título nacional – não à toa seu treinador é Tite. Já Hulk nunca foi centro-avante nem em vídeo-game. Que seja escalado na posição onde rende no seu clube, e escale como centro-avante o artilheiro do país em 2015.

    Outras visões torpes de Dunga: ficou nítido sua proposta de jogar em contra-ataque. Sendo assim, o que fazia um jogador veloz e agudo como Lucas Moura no banco? Com um Oscar carregando demais a bola, pouco inspirado e em péssima jornada, o que fazia Lucas Lima no banco (paralelo: uma das principais armas do Santos é o contra-ataque, e Lucas é o principal articulador na saída rápida através de lançamentos para Gabriel e Geuvânio)?

    Dunga propôs jogar em contra-ataque com uma escalação equivocada. Independente da proposta, acredito que o time reserva (com Kaká, Lucas Lima, Lucas Moura e Ricardo Oliveira) vença o time titular no treino coletivo.

    O treinador só acerta ao não convocar Thiago Silva (pelos motivos errados). O próximo acerto será convocar mais David Luiz.

    Abraço!

  • João Henrique Levada

    “Deveria ser igualmente simples perceber que, em jogo, o vencedor nunca esteve em questão.”

    Ai que tristeza. E contra o Chile… poxa vida. A que ponto chegaram com o que já foi a representação do melhor futebol do mundo.

MaisRecentes

Presente



Continue Lendo

Em frente 



Continue Lendo

Acordo



Continue Lendo